ABASTECIMENTO

Entenda a crise hídrica que ameaça o fornecimento de energia no Brasil

Com baixo volume de chuvas, reservatórios essenciais para geração de energia por hidrelétricas estão com os piores níveis em décadas. Especialistas explicam motivos

Israel Medeiros
Pedro Ícaro*
João Vitor Tavarez*
postado em 15/06/2021 21:32 / atualizado em 15/06/2021 21:58
 (crédito: Caio Coronel/Itaipu)
(crédito: Caio Coronel/Itaipu)

Com a chegada do período de estiagem na maior parte do país, os reservatórios de água que concentram algumas das principais hidrelétricas sofrem esvaziamento, o que torna a produção energética mais difícil e cara. Segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), a escassez de chuvas no país para a geração de energia é a pior em 91 anos.

Alguns dos principais reservatórios para a produção energética do país, localizados no Centro-Oeste e no Sudeste, estão no pior nível em 22 anos. São eles: Marimbondo e Água Vermelha, em São Paulo e Minas Gerais, na bacia do rio Grande; Nova Ponte (MG); Itumbiara e São Simão, no rio Parnaíba, entre Goiás e Minas Gerais.

Marcelo Seluchi, meteorologista do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), explica sobre esse recorde de escassez. Ele afirma que o nível de chuvas vem diminuindo ano após ano e que outro grande problema que contribui para o baixo nível nos reservatórios é a falta de chuva, especificamente nas bacias dos rios.

“A vazão média dos rios mais importantes para gerar energia é a mais baixa em 91 anos. Esse dado não é sobre seca e, sim, sobre essa vazão. A bacia do Rio Paraná, por exemplo, está muito baixa, sendo uma das mais importantes para a geração de energia. Estamos em uma sequência de anos bem secos, estamos no oitavo ano consecutivo em que a estação chuvosa é muito abaixo da média”, comenta.

Segundo o meteorologista, a escassez de chuvas é causada, entre outros fatores, pela temperatura do oceano Atlântico, próximo ao Equador, no extremo norte – que, explica ele, foi desfavorável, prejudicando assim as chuvas no Nordeste. Ele pontuou que a maior parte do país que gera energia elétrica teve chuvas abaixo da média no último período chuvoso.

“Diferentemente de outras secas, essa não foi tão severa como a de 2014, porém foi generalizada. Estamos nessa situação porque tivemos muitos anos consecutivos com chuvas abaixo da média e, nos últimos oito anos, este foi o ano com menor volume de chuvas. O sistema hídrico do país está em uma situação complicada”, ressaltou.

Já Andrea Ramos, meteorologista do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), afirma que houve, neste ano, fortes impactos do El Niño (fenômeno de aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial). “Tivemos esse fenômeno em 2016 e 2017, que criou um sistema de baixo volume de chuvas que ocorreu em praticamente todo o Brasil. E os últimos sete anos, conforme a Organização Meteorológica Mundial, estão sendo os mais quentes e menos chuvosos. Ou seja, há menos chuvas e aumento da temperatura”, detalha.

Energia mais cara

O aumento da conta de energia para os consumidores se deve também à dependência do Brasil das matrizes de energia hidrelétricas. Cerca de 63% dos recursos energéticos são provenientes dessas matrizes, além disso, a utilização de outras fontes de energia a curto prazo são opções mais caras, resultando em preços mais altos nas contas.

Isso porque, com a falta de água, é preciso concentrar a produção em usinas termelétricas para atender à demanda do país. Elas são mais caras e funcionam com base na queima de combustíveis. O Ministério de Minas e Energia estima que, este ano, o acionamento de termelétricas resultará em um custo de R$ 9 bilhões ao consumidor, que deverá ser repassado no ano que vem, com um aumento de 5% no total da tarifa de luz.

“É mais um peso nas costas do cidadão e do setor produtivo. O resultado recai sobre o consumidor brasileiro, que paga uma taxa cara de energia. Soma-se o aumento da inflação, preços altos do gás e da gasolina, mais uma notícia ruim para a economia”, analisa Riezo Almeida, coordenador de graduação em economia, gestão pública e financeira no Iesb.

Para o economista e pesquisador da Unicamp Felipe Queiroz falta, ainda, uma mentalidade de investimento em alternativas viáveis à geração de energia por meio de hidrelétricas, para evitar crises como esta. “A alternativa, depois que a crise está instalada, é quase como enxugar gelo. Por isso, devemos questionar qual é, realmente, a verdadeira alternativa. É preciso ter planejamento energético e mudança da matriz elétrica brasileira, com investimentos em energia limpa, com a energia solar e a energia eólica”, pontuou.

 

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