ENTREVISTA

É possível vacinar os adultos até o fim do ano, avalia presidente do Conass

Carlos Lula apontou detalhes sobre o futuro da vacinação no país

Maria Eduarda Cardim
postado em 23/06/2021 06:00 / atualizado em 07/07/2021 14:27
"A gente já está enfrentando a terceira onda. E olha que, de março para cá, se avançou na vacinação. Imagine se a gente não tivesse vacinado esse número de pessoas?" - (crédito: Governo do Maranhão/ASCOM/reprodução)

Apesar da paralisação da vacinação em algumas capitais e da dificuldade de manter a constância na oferta de doses à população, o presidente do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) e secretário de Saúde do Maranhão, Carlos Lula, considera ousada a meta de vacinar, até o final do ano, toda população com mais de 18 anos, mas assegura que isso é possível. Ao Correio, afirmou que o país verá a aceleração do ritmo de vacinação em julho, medida que considera fundamental, pois, com o início do inverno, aumenta o risco de um recrudescimento no número de óbitos.

Seis capitais suspenderam, ontem, a aplicação da primeira dose da vacina contra a covid-19. Mais estados relataram dificuldades?

Creio que esse problema seja ocasional. Teve uma descontinuidade com a vacina da Janssen, que iria ter distribuição na semana passada, e não aconteceu. Acredito, e estou falando isso desde fevereiro, que o ritmo vai acelerar em julho. No cronograma do ministério, a gente consegue avançar bem. É natural que a gente tenha uma aceleração da imunização e, com isso, faltem doses. No curto prazo, isso vai ser solucionado. Vacinar todo mundo até o final do ano é uma meta ousada, mas é possível.

A vacina da Janssen teve prazo de validade ampliado pela Anvisa e chegou ontem. Como ficará a aplicação dessas doses? Será feita só nas capitais, como indicou o Ministério da Saúde?

A gente está esperando a posição do ministério, que autoriza os estados a deliberarem sobre a distribuição das vacinas. Aqui (no Maranhão), por exemplo, como a capital tinha recebido doses extras, tínhamos deliberado ficar 30% com a capital e 70% com o interior. Mas a gente espera a condução do ministério, que deve distribuir a pauta amanhã (hoje), quando esclarece as regras. Acredito que, considerando o prazo de validade (da vacina), é possível fazer a entrega não só nas capitais.

Como o senhor avalia a comunicação do ministério com os estados?

O ministério escuta muito as áreas técnicas do Conass e Conasems (Conselho Nacional de Secretários Municipais de Saúde), só que desde que houve continuação de entrega de vacinas isso virou surpresa. Eles avisavam com bastante antecedência quando chegariam. Agora, de repente, chega. Entendo a razão de o ministério ter feito isso: sempre criava uma expectativa grande e gerava frustração. Assim, adotaram essa estratégia para não gerar expectativa, mas, por outro lado, ficou ruim para planejar.

Sobre a terceira onda, como o senhor avalia a possibilidade, já que o Brasil ainda registra números altos de casos e mortes?

A gente já está enfrentando a terceira onda. O número de casos nunca abaixou desde março. Mais do que olhar a curva de óbitos, é importante olhar a curva de casos. E olha que, de março para cá, se avançou na vacinação. Imagine se a gente não tivesse vacinado esse número de pessoas? Estaria com 4 mil ou 5 mil mortos por dia, de novo. Então, com o aumento da média móvel de mortes, já se assiste à escalada da montanha de novo. Com o inverno, é bom colocar de novo as barbas de molho. Pode ter um recrudescimento forte dos óbitos no Sul e no Sudeste.

O que fazer diante disso?

Adotar precaução de novo. Tem que diminuir a circulação de pessoas. Sei que a sociedade está cansada e um pouco desse número exponencial de casos, que tem se mantido em um patamar altíssimo, decorre disso. Todos estão cansados da pandemia, mas quanto mais a gente circula, mais o vírus circula. Então, não tem saída.

Ainda dentro desse cenário, temos o retorno às aulas. O ministro da Saúde defendeu o retorno mesmo com os professores sem a segunda dose da vacina. Como você avalia isso?

Acredito que a gente tem que ter muito receio, cuidado no retorno das aulas e fazer esse debate com os professores. Eu também quero que retornem às aulas. O impacto social da gente não ter aula é terrível. Agora, não dá para simplesmente dizer que com uma dose está ok e “vamos todo mundo para sala de aula de novo”. É preciso ter calma. Talvez seja o momento de planejar, conversar. A gente está pertinho de ter a segunda dose dos professores. Volta com cuidado, com cautela. Não precisa apressar as coisas.

Como avalia os trabalhos da CPI da Covid-19 até agora? Essa responsabilização por parte do a estados também deve ser apurada?

A CPI tem seus poderes limitados pela legislação e pelo Supremo Tribunal Federal. Então, há alguns temas que ela não pode tratar. Não dá para ela tratar de tudo, mas acho que a CPI tem ido bem, tem avançado para uma linha de investigação que me parece interessante, que logo no início dela a gente não antevia. Tem surgido fatos novos. Então, me parece que tem ido bem e vai ser possível chegar a um bom termo.


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