COP26

Ambientalistas desconfiam de promessa do governo de reduzir metano e desmatamento

Apesar do impacto das medidas, ambientalistas continuam céticos sobre as reais intenções do Poder Executivo

Vera Batista
 Bernardo Lima*
postado em 04/11/2021 06:00
A meta de desmatamento ilegal zero apresentada pelo ministro Joaquim Leite na COP26 entrará em execução a partir de 2022 -  (crédito: Carlos Fabal/AFP)
A meta de desmatamento ilegal zero apresentada pelo ministro Joaquim Leite na COP26 entrará em execução a partir de 2022 - (crédito: Carlos Fabal/AFP)

Dois movimentos do governo brasileiro na Conferência do Clima (COP26) surpreenderam observadores, empresários e ambientalistas. Mas ainda são insuficientes para convencê-los de que o Brasil finalmente adotará uma política ambiental consistente. A assinatura do acordo do metano para reduzir em 30% as emissões — uma imposição que partiu principalmente dos Estados Unidos — é um teste de confiança no Brasil, porque a medida provoca um desgaste para o governo federal, que terá de lidar com a pressão da bancada ruralista. Outro acordo que ainda merece atenção é o que promete zerar o desmatamento até 2030.

Apesar do impacto das duas medidas, ambientalistas continuam céticos sobre as reais intenções do Poder Executivo. A diretora executiva do Greenpeace Brasil, Carolina Pasquali, diz que o acordo para zerar o desmatamento até 2030, na prática, apenas substitui a Declaração de Nova York sobre Florestas de 2014, que estabeleceu a meta para o ano de 2020 (embora o Brasil não o tenha assinado).

"Há um bom motivo pelo qual o presidente Jair Bolsonaro se sentiu confortável em assinar este novo acordo. Ele estende o prazo para acabar com a destruição da floresta em 10 anos. Não é obrigatório e, quando se trata de limpar as cadeias de abastecimento, parece ter como alvo apenas o desmatamento ilegal", afirma a diretora executiva do Greenpeace Brasil.

Segundo Carolina Pasquali, não se pode esperar 2030 para zerar tanto o desmatamento legal quanto o ilegal na maior floresta do mundo. "A Amazônia já está à beira do colapso e não pode sobreviver a mais uma década de destruição, legal ou não. Os povos indígenas estão clamando pela proteção de 80% da Amazônia até 2025, e eles têm razão; é o que é preciso. O clima e o mundo natural não têm condições de pagar por esse acordo", afirma.

Tânia Maria de Souza, diretora da Associação Nacional dos Servidores da Carreira de Especialista em Meio Ambiente e do Pecma (Ascema Nacional), reforçou que "o fim do desmatamento tem que ser agora, sendo ele legal ou ilegal". Ela lembra que várias medidas do governo prejudicam o meio ambiente. Entre elas, o desmonte dos órgãos de combate ao desmatamento. "Além disso, há projetos no Congresso que legalizam a grilagem da terra. É muita coisa acontecendo totalmente diferente do que o governo prega", alerta a especialista.

Metas

O diretor técnico do Centro Brasil no Clima (CBC), Willian Wills, avalia que as metas e datas estabelecidas nos acordos são possíveis de serem alcançadas. Mas para que se tornem realidade, será necessária uma mudança de atitude das autoridades brasileiras. "O governo terá de passar das promessas à ação. É preciso traçar um plano para cada uma das metas e colocá-las em prática o quanto antes", diz o diretor do CBC.

A meta de desmatamento ilegal zero apresentada pelo ministro Joaquim Leite na COP26 entrará em execução a partir de 2022 e seguirá as etapas de redução de 15% ao ano até 2024; redução de 40% ao ano em 2025 e em 2026; redução de 50% em 2027; para zerar o desmatamento ilegal em 2028. Para William Wills, essa é a meta mais ousada, dentre as apresentadas pelo governo na confederação da ONU.

"Houve uma antecipação da meta de se chegar ao desmatamento ilegal zero na Amazônia em dois anos. Considero essa como a meta mais ambiciosa", afirmou Wills. "Resta saber como o governo atuará para cumprir essa promessa", completa o diretor técnico do CBC.

Ele frisa que o principal "dever de casa" que fica para o Brasil, após a COP26, é o planejamento das ações do governo para impedir o avanço da crise climática. "Além da apresentação de metas, é necessário um programa de longo prazo com metas intermediárias, que detalhe as políticas, planos e programas para se chegar à neutralidade de emissões", explica Willian Wills.

O especialista diz que todos setores da sociedade devem contribuir para que o país consiga cumprir os acordos. "O trabalho pela frente é enorme, e o alcance dessas metas exigirá muito esforço e organização por parte dos governantes, setor empresarial, e da população em geral", reforça.

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