ENTREVISTA

Presidente da Anvisa pede apuração rigorosa sobre ameaças a diretores

Chefe da instituição que libera o uso de vacinas no país pede apuração rigorosa sobre mensagens a diretores da agência. Ele suspeita de milícias digitais ligadas à produção de fake news e, por isso, oficiou o Supremo

Luana Patriolino
postado em 06/11/2021 06:00
Em entrevista ao Correio, Antônio Barra Torres, lamentou a situação e fez um apelo:
Em entrevista ao Correio, Antônio Barra Torres, lamentou a situação e fez um apelo: "Deixem-nos trabalhar" - (crédito: Anvisa/Divulga??o)

Envolvida em temas relevantes da pandemia, como a autorização para o uso de vacinas no Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) passou a lidar com mais uma questão delicada: a integridade física de seus membros. Diante da sequência de ameaças recebidas por cinco diretores da agência, a Polícia Federal instaurou um inquérito na Superintendência do Distrito Federal. As intimidações começaram após o início da discussão sobre a vacinação contra a covid-19 para crianças de 5 a 11 anos com o imunizante da Pfizer. Em entrevista ao Correio, o presidente da Anvisa, Antônio Barra Torres, lamentou a situação e fez um apelo. "Deixem-nos trabalhar. Não tratamos exclusivamente de vacinas contra a covid-19. Praticamente tudo que se produz nesse país passa pela regulação da Anvisa, que é uma pedra fundamental na base da construção da licença de segurança sanitária de toda a população", apontou. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista.

A Anvisa recebeu ameaças por conta da discussão da vacinação contra a covid-19 em crianças de 5 a 11 anos. Que intimidações são essas?

Essas ameaças foram recebidas na semana passada, dia 28, quinta-feira; a segunda, em 29, sexta-feira; e, no dia 3, uma terceira, que, aparentemente, é da mesma fonte. São ameaças de morte, caso viéssemos a aprovar a vacina para a faixa etária de 11 anos. E, depois, ameaças mais abrangentes. Tanto aos diretores da Anvisa quanto aos servidores e terceirizados. São ameaças graves, crimes cometidos contra o Estado brasileiro, já que a Anvisa é um órgão de Estado. Tudo isso vai tirando a tranquilidade dos nossos servidores para efetuarem os seus trabalhos. Entre outras coisas, tem uma demanda prioritária que é o enfrentamento da pandemia. É realmente muito grave e precisa ser investigado. Os responsáveis precisam ser confrontados para que respondam por seus atos criminosos.

São ameaças à democracia também?

Eu penso que sim. Porque quando alguém, por seu ofício ou profissão, tem a sua atividade profissional ameaçada com violência para cercear o seu trabalho, o estado democrático de direito também é atacado. Não podemos, enquanto cidadãos, aqui, eu até me abstraio da função de presidente da Anvisa, permitir que isso seja tratado de maneira rasa ou que se fixe apenas o objetivo de que 'não, mas foi uma ameaça contida'. Essa frase não pode acontecer. A ameaça é crime que há de se verificar porque, inclusive, há outras questões por trás.

Quais, por exemplo?

É muito intrigante que apenas um elo dessa cadeia seja ameaçada: a Anvisa. Não temos notícias, até o momento, de que outros tenham sido ameaçados. O Ministério da Saúde foi ameaçado? Não sabemos, acredito que não. O Programa Nacional de Imunizações (PNI)? Também não. Laboratórios? Não. Então, por que esse foco em cima de um que, inclusive, não coloca vacina no braço de ninguém? Nós aprovamos ou reprovamos. Mas não somos nós que efetuamos o programa. Há questões que precisam ser respondidas em uma investigação madura e profunda.

Acredita em milícias digitais atuando nessas ameaças?

Ameaças na Anvisa são incomuns. Desde que estou aqui, é a primeira vez que eu vejo isso acontecer. No primeiro e-mail de ameaça, o agente criminoso é tão arrogante que ele coloca o seu próprio nome e próprio CPF. Não sabemos se é verdadeiro; quem tem que apurar é a polícia. Mas ele demonstra arrogância nesse sentido, inclusive, se identificando e dizendo que não é uma ameaça, mas, sim, "um estabelecimento". O primeiro agente criminoso não parece estar conectado a alguma rede.

E os outros?

O segundo conjuga o verbo no plural. Ele diz "nós vamos fazer". Esse já leva a crer, se é que isso é verdadeiro, que haveria um conjunto de pessoas. E não vai ser nenhuma surpresa se a investigação apurar que são grupos ligados às facções de fake news. Daí a nossa preocupação também de oficiar ao Supremo Tribunal Federal (STF) — que possui investigação em andamento contra fake news.

O que o senhor espera daqui pra frente?

O apelo que deixamos é: deixem-nos trabalhar. Não tratamos exclusivamente de vacinas contra a covid-19. Praticamente tudo o que se produz neste país passa pela regulação da Anvisa, que é uma pedra fundamental na base da construção da licença de segurança sanitária de toda a população. Precisamos ter o mínimo de tranquilidade para trabalhar.

E quanto à investigação?

Às autoridades encarregadas da apuração, peço que ajam com extremo rigor. Porque não é brincadeira. Não é uma coisa banal. É uma ameaça ao Estado brasileiro que já vive sobre o ataque da própria pandemia não pode tolerar que mentes criminosas.

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