Carnaval

Escolas de samba se preparam para 'gritar urgências' do Brasil na Sapucaí

Depois de dois anos sem desfile no Sambódromo, as agremiações fazem os últimos ensaios para invadir a pista na sexta-feira e no sábado

Guilherme Peixoto - Estado de Minas
postado em 17/04/2022 11:11
 (crédito: André Borges/AFP)
(crédito: André Borges/AFP)

Depois de um silêncio de dois anos, surdos, pandeiros, cavacos e violões vão ser resgatados de salas escuras para que possam ecoar na Marquês de Sapucaí. A volta dos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro, nesta semana, além de devolver a luz a parte fundamental da cultura brasileira e ajudar a fomentar o turismo, impõe alívio aos trabalhadores que compõem a indústria responsável por criar e dar forma às apresentações. A sensação de libertação permeia os temas escolhidos pelas agremiações para o carnaval do recomeço.

A Viradouro, campeã do Grupo Especial em 2020, faz questão de frisar, em seu samba enredo, que a ideia é “tirar a máscara em um clima envolvente”. O tipo de proteção facial a ser jogado para o alto fica a critério do folião – podem ser as tradicionais, usadas nos bailes carnavalescos de salão, mas também as modernas, utilizadas para cobrir nariz e boca, agora dispensadas em espaços abertos na Cidade Maravilhosa.

As escolas da primeira divisão, acostumadas a desfilar entre domingo, segunda-feira e terça-feira de carnaval, agora terão que dividir a sexta-feira (22) e o sábado (23), em apresentações que vão madrugada afora. Os primeiros a pisar no solo sagrado do samba serão os componentes da Imperatriz Leopoldinense, campeã do segundo grupo há dois anos. Expectativas altas, também, para a homenagem da Estação Primeira de Mangueira a três de seus ídolos: o intérprete Jamelão, o compositor Cartola e o mestre-sala Delegado. Pela TV ou das arquibancadas, será possível ver, também, a tradição da Portela e as surpresas do carnavalesco Paulo Barros, do Paraíso do Tuiuti.

Mais do que os enredos expostos na avenida, há ansiedade pelos reflexos da festa de momo, que em 2020, segundo a Prefeitura do Rio, movimentou R$ 4 bilhões. “A retomada do carnaval é, antes de tudo, a subsistência de trabalhadores e a força da cultura popular na avenida”, diz, ao Estado de Minas, o jornalista e escritor Fábio Fabato, que foi, por algum tempo, comentarista dos desfiles nas transmissões da Super Rádio Tupi, emissora dos Diários Associados. “A indústria cultural do carnaval é feita por trabalhadores que vivem o ano inteiro da festa. Ela gira a economia, alimenta famílias e não é apenas algo que acontece em fevereiro”, emenda.

Boa parte dos 12 desfiles do Grupo Especial terão referências à ancestralidade, ao povo negro e às religiões de matriz africana, pontos fundamentais para a construção do samba enquanto ritmo musical. A sempre aguardada Beija-Flor de Nilópolis, por exemplo, aposta no lema “Empretecer o Pensamento” e fará uma ode a grandes figuras negras do Brasil, como a escritora Carolina de Jesus. Já a Vila Isabel vai contar a história de Martinho da Vila – e, para isso, recorreu a um samba com a tinta da caneta de Dudu Nobre.

“Temos enredos absolutamente interessantes e ligados à formação histórica das escolas. Os enredos são pretos, sobre orixás e a inteligência da comunidade negra brasileira. As escolas foram beber na fonte da origem para construir suas temáticas”, explica Fabato.

Ele, aliás, também foi “beber na fonte da origem”. Isso porque assina o texto responsável por nortear o enredo da Mocidade de Padre Miguel sobre o orixá Oxóssi, sincretizado em São Sebastião. “O carnaval é cultura popular, e a cultura popular, em um país absolutamente racista, misógino e classista, é vista como algo menor. Toda vez que uma escola espicha na avenida, grita as urgências da nação”, assinala.

Ousadia na pista

Se de um lado está a tradição, há quem aposte na vanguarda para tentar a vitória. Para conseguir o bicampeonato, a Viradouro apostou em um samba escrito como se fosse uma carta. O narrador da letra conta à sua amada a alegria por poder sair às ruas para festejar após tempos sombrios. Aos poucos, o ouvinte descobre se tratar de uma história do carnaval 1919, o primeiro depois do surto de Gripe Espanhola. Aquela folia serviu para festejar, também, o fim da Primeira Grande Guerra.

A música dos viradourenses, que todos os anos saem de Niterói para desfilar na Sapucaí, ganhou o apelido de “samba-carta”. A abertura da correspondência na avenida é um dos momentos mais esperados pelos fãs das escolas. “Será emocionante, alegre e, sobretudo, um grande alívio. A sensação de pisar na avenida e pensar ‘caramba, sofremos muito, mas vencemos e estamos aqui de novo’, projeta o radialista Carlos Fonseca, que tem um programa dedicado ao samba e, anualmente, bate ponto na Sapucaí para cobrir os desfiles.

Quem também tem um samba com recursos diferentes é a São Clemente. A letra sobre Paulo Gustavo tem a mãe dele, Déa Lúcia, como eu-lírico. “A nossa vida é uma peça, graças a você, meu filho”, diz trecho da canção, composta por Arlindo Neto, filho de Arlindo Cruz.

De março de 2020 até o retorno à Sapucaí, sambistas precisaram se contentar com soluções paliativas para matar a saudade de suas escolas, como as lives. O “Boi com Abóbora”, projeto de Fábio Fabato, teve desfiles antigos como combustível. Ele e dois amigos – João Gustavo Melo e André Rodrigues – passavam horas em uma transmissão pelas redes recordando apresentações de anos anteriores. A sessão nostalgia gerou, inclusive, duas edições de uma competição em que as escolas foram representadas por desfiles antigos.

“É um mundo de gente que faz essa indústria de sonhos. As lives tentaram ser uma espécie de band-aid para curar essa ferida. O band-aid está ali, mas quando a gente toca na ferida, ainda dá umas ‘machucadinhas’. Para curar isso, precisa de desfile, mesmo que seja em abril”, garante Fabato.

Antes do Grupo Especial, acontecem, na quarta-feira (20) e na quinta-feira (21), os desfiles do Grupo de Acesso. Por lá, estão escolas tradicionais como o Império Serrano, favorita a subir de divisão, e a União da Ilha do Governador.

Prefeito proíbe blocos nas ruas

O prefeito do Rio, Eduardo Paes, reiterou ontem que os blocos de rua não estão autorizados a desfilar durante o carnaval fora de época, entre os dias 20 e 24 deste mês, mas destacou que não vai colocar a Guarda Municipal para reprimir os foliões.

“Não vou sair correndo atrás de folião. O que a gente pede é a compreensão das pessoas. Só faltava agora botar Guarda Municipal atrás de folião. Isso não vai acontecer. A gente tem permitido que a cidade celebre, que seja vivida a vida. A cidade está cheia, as ruas estão cheias, bares e restaurantes lotados. A cidade está aberta, está celebrando. Não vou ficar atrás de folião nem por um decreto”, disse Paes, ao visitar os barracões das escolas de samba do Grupo Especial, na Cidade do Samba, na Gamboa, na Região Central.

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