sociedade

Vilma Nascimento: após homenagem, lenda do samba sofre racismo

Ex-porta-bandeira da escola de samba Portela teve de abrir a bolsa, em uma loja do Aeroporto de Brasília, para provar à segurança que nada havia furtado. No dia anterior, ela tinha participado de celebração sobre o mês da Consciência Negra

Vilma Nascimento sendo homenageada na Câmara dos Deputados. -  (crédito: Evandro Éboli/CB/D.A. Press)
Vilma Nascimento sendo homenageada na Câmara dos Deputados. - (crédito: Evandro Éboli/CB/D.A. Press)
postado em 24/11/2023 03:55

Vilma Nascimento, 85 anos, ex-porta-bandeira da escola de samba Portela e uma das lendas do samba carioca, viveu, em questão de horas, duas sensações distintas — e antagônicas. A primeira, o orgulho e a alegria de ser homenageada, na segunda-feira, na Câmara dos Deputados, pelas celebrações pelo Dia da Consciência Negra. A segunda, a tristeza e a humilhação de ter sido acusada de furto, na terça-feira, em uma loja no Aeroporto Juscelino Kubitschek, pouco antes de embarcar de volta ao Rio de Janeiro. O caso de racismo foi denunciado pela filha da sambista, em uma rede social.

Danielle Nascimento mostra, em vídeo, a mãe sendo obrigada a abrir a bolsa diante de uma segurança, para provar que não furtara coisa alguma. "Fui comprar chocolates para meu marido e meu filho no Duty Free do Aeroporto de Brasília, depois da minha mãe ter sido homenageada no Dia da Consciência Negra. Comprei, paguei e quando estávamos passando novamente pela porta da loja, a fiscal me abordou dizendo que peguei o produto sem pagar, e pediu para acompanhá-la. No meio do caminho, ela recebeu informação, pelo rádio, de que era para revistar a bolsa da minha mãe", relata a filha de Vilma na publicação.

"Foi uma humilhação que nem eu nem a minha mãe imaginávamos passar nesta vida. Estamos tristes e traumatizadas até agora. Cheguei a perguntar se ela (a segurança) estava fazendo isso conosco por causa da nossa cor", acrescentou Danielle.

O episódio indignou ministros do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Anielle Franco, da Igualdade Racial, classificou as acusações de furto de "absurdas, inadmissíveis e racistas". Lembrou, ainda, que Vilma é uma "baluarte da Portela e lenda viva da cultura negra brasileira. Entraremos em contato com a vítima para prestar nossa solidariedade e auxílio", salientou a ministra no perfil que mantém no X (antigo Twitter).

Paulo Pimenta, ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, classificou o episódio de "inadmissível". "Na Semana da Consciência Negra, um caso absurdo de racismo escancara a dura realidade do nosso país. Dona Vilma Nascimento, 85 anos, porta-bandeira e figura histórica da Portela, foi constrangida e teve sua bolsa revistada, aqui, no aeroporto de Brasília. Meu abraço e minha solidariedade a ela e sua filha. O presidente Lula já deu o recado e nós reafirmamos que não vamos tolerar racismo no nosso país", frisou, também no X.

A Portela, cujo estandarte Vilma defendeu por décadas no carnaval carioca, publicou nota cobrando das autoridades apuração do caso. "A luta por uma sociedade mais justa e humana passa pelo combate ao racismo. O G.R.E.S Portela repudia, veementemente, o preconceito sofrido por Vilma Nascimento, o Cisne da Passarela", afirmou.

Explicações

A Dufry Brasil, empresa responsável pela loja onde Vilma foi hostilizada, lamentou o incidente e confirmou o afastamento da funcionária que pediu à sambista que abrisse a bolsa. "A abordagem feita pela fiscal de segurança da loja está absolutamente fora do nosso padrão. Em razão da falha nos procedimentos, a profissional foi afastada de suas funções. Esse tipo de abordagem não reflete as políticas e valores da empresa. A Dufry está reforçando todos os seus procedimentos internos e treinamentos, em linha com suas políticas, para impedir que situações assim se repitam", diz em nota.

Procurada pelo Correio, a Inframerica — concessionária que administra o Aeroporto de Brasília — disse que repudia ações discriminatórias dentro ou fora do complexo. Mas não informou sobre a existência de ações, junto às empresas responsáveis pelas lojas no terminal, de prevenção à discriminação de cor ou orientação sexual contra passageiros.

"Na tarde de hoje (ontem), a Inframerica, concessionária do Aeroporto de Brasília, tomou conhecimento de uma denúncia sobre discriminação em uma loja do terminal aéreo. A Inframerica repudia qualquer tipo de ação discriminatória, dentro ou fora do aeroporto. A empresa responsável pelo estabelecimento informou que já tomou as medidas cabíveis e afastou a funcionária", observou. (Colaborou Evandro Éboli)

*Estagiário sob a supervisão de Fabio Grecchi

 

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