Atingido pela onda de alagamentos sem fim que já fazem parte da história de verão da região, seus moradores e comerciantes, o recém-fundado espaço cultural e sebo À Margem viu parte de acervo de livros e discos de vinil literalmente afogados por enxurradas que desceram a Rua Itapecerica, no Bairro Lagoinha, Noroeste da capital, no fim de dezembro. Agora, tenta emergir, se recompor e seguir adiante com recursos arrecadados em campanha de solidariedade.
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Proprietário do espaço, o escritor e professor de literatura Christian Coelho conta que a ideia inicial era mobilizar amigos e artistas na arrecadação de recursos para recompor estoques e investir em estruturas de proteção que evitem perdas recorrentes. A ação ganhou corpo, e a campanha de solidariedade segue aberta para os que quiserem contribuir, recolhendo doações por pix.
No momento do alagamento, ele gravou um vídeo, que mostra os estragos. “Entrou bastante água e atingiu muitos livros e discos de vinil”, conta. Ele explica, que parte dos produtos não estava em prateleiras quando a água invadiu o estabelecimento. “Em geral, os sebos têm muito material, e por vezes é preciso usar o chão também (para armazenar a mercadoria). Tínhamos caixas de livros que recebemos de doação e que ainda teríamos que organizar”, relata Coelho.
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Felizmente, conta, a campanha já começa a dar resultados, e a expectativa é que o espaço sobreviva. “Precisamos colocar uma proteção para reduzir a entrada de água e ter mais algumas prateleiras para pôr os livros que chegam na loja”, planeja o professor.
Inaugurada em agosto do ano passado, À Margem foi concebida como espaço literário para suprir a ausência desse tipo de serviço no bairro e, ao mesmo tempo, aproveitar a forte história cultural da Lagoinha. Foi lá, por exemplo, que nasceram a primeira escola de samba e os primeiros blocos de carnaval de Belo Horizonte.
“Queríamos fazer um espaço de encontro no bairro. São poucos lugares como este em regiões periféricas e com essa proximidade com a Pedreira”, destaca Coelho, que mora na Lagoinha, referindo-se à Pedreira Prado Lopes, o mais antigo aglomerado da cidade, considerado o berço do samba na capital. Rotineiramente, a livraria recepciona debates literários e rodas de choro.
Longe de serem exclusivos da livraria, os alagamentos são rotineiros no bairro, lembra Coelho, que usou uma citação do jornalista e escritor Lima Barreto (1981-1922), em que fala de chuvas na capital fluminense, para espelhar a situação da Lagoinha: “As chuvaradas de verão, quase todos os anos, causam no nosso Rio de Janeiro inundações desastrosas. (…). Cidade cercada de montanhas e entre montanhas, que recebe violentamente grandes precipitações atmosféricas, o seu principal defeito a vencer era esse acidente das inundações”.
Há anos, diz Coelho, o bairro luta para que os problemas da Rua Itapecerica sejam resolvidos, mas ainda não há solução. “Há uma mobilização antiga aqui dos moradores. A associação Viva Lagoinha, por exemplo, é um projeto que tem feito algumas ações, mas é uma situação difícil”, cita Coelho.
A associação Viva Lagoinha foi fundada por Filipe Thales Bernardo há 18 anos e é um coletivo que busca trabalhar a economia criativa da Lagoinha. Morador do bairro o fundador afirma que os alagamentos na Rua Itapecerica são fruto de problemas estruturais, cuja solução definitiva depende de ações do poder público. Segundo ele, embates entre o Legislativo e o Executivo dificultam as conversas com a Prefeitura Municipal de Belo Horizonte. Thales aponta ainda o acúmulo de lixo na rua como uma das causas dos alagamentos, já que os detritos terminam por entupir as bocas de lobo e impedir a vazão da água nos momentos de tempestades.
PBH E COPASA
Consultada pela reportagem sobre a situação no bairro, a Prefeitura de Belo Horizonte informou que a Superintendência de Limpeza Urbana (SLU) tem feito diariamente a limpeza de sarjetas e, periodicamente, as bocas de lobo são limpas e desobstruídas pela Gerência Regional de Manutenção Noroeste.
Especificamente sobre a Lagoinha, a administração municipal informou que Defesa Civil não foi acionada quando as enxurradas invadiram a livraria e que o órgão atende 24 horas por dia pelo número 199.
Por meio de nota, a Copasa informou que não havia registro, em seu sistema, de ocorrências relacionadas a vazamento de água ou esgoto no local. Na sexta-feira (9/1), a empresa enviou uma equipe ao local e informou ter constatado que problemas na rede pluvial, de responsabilidade da prefeitura.
*Estagiário sob supervisão da subeditora Rachel Botelho
SERVIÇO
Para contribuir com a ação solidária da livraria À Margem, doações estão sendo aceitas por pix, pela chave amargemlivros@gmail.com. Mais informações estão disponíveis no instagram @amargemlivros
