TRAGÉDIA

Prefeita de Juiz de Fora: 'Minha prioridade é evitar que mais alguém morra'

Em meio à tragédia, Margarida Salomão adverte que recuperação será lenta e difícil, estima custo bilionário, promete moradia aos atingidos e cobra apoio federativo

As 65 mortes por soterramento em Juiz de Fora após as fortes chuvas que transformaram a paisagem em um cenário de calamidade refletem de maneira trágica o que revela a frieza dos mais recentes dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden): entre os mais de 5 mil municípios brasileiros, a cidade da Zona da Mata mineira ocupa a nona posição no ranking nacional dos que têm maior número de moradores em áreas de risco. São pouco mais de 128 mil pessoas nessas condições, o que representa quase 25% da população de 540 mil habitantes, segundo o censo de 2022.


É como se um a cada quatro moradores vivesse sob ameaça. “Juiz de Fora e outras cidades do Brasil, como o Rio de Janeiro e Petrópolis, por exemplo, têm uma configuração histórica e desigual, que empurra parte importante da população para áreas que, do ponto de vista técnico, são muito perigosas”, declarou a prefeita Margarida Salomão (PT) em entrevista ao Estado de Minas.

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Segundo ela, com apoio do governo federal, será apresentado um plano de soluções habitacionais para as famílias que perderam suas moradias ou que não puderem permanecer com segurança onde estavam. Mas a prefeita adverte: não será um processo rápido. Nem fácil.


“Eu vou explicar isso do jeito mais direto: não existe uma solução mágica, imediata, que refaça, que reconstrua uma cidade inteira como se ela fosse um objeto que você desmonta e monta de novo, do dia pra noite. Serão meses e meses a fio para concluir todas as obras necessárias, para conter novas encostas que ofereçam risco, para reabrir todos os caminhos. Nós sabemos disso, sabemos que é um desafio”, destaca.


Impacto de bilhões

A prefeita antecipa que intervenções de engenharia serão feitas em pontos críticos. “Nós já temos, em obras concluídas, em realização e pactuadas, quase R$ 2 bilhões voltados para a infraestrutura urbana, córregos e contenções, mas eu mesma reconheço: isso pode ser uma fração do que seria necessário para uma abordagem de choque, de reconstrução total. E, enquanto isso, no meio da chuva que não passa, a minha prioridade agora é uma só: evitar que mais alguém morra”, destaca Margarida Salomão.

Como é de praxe, a Defesa Civil do município faz o mapeamento e a classificação de risco no município (veja mapa na página ao lado), mas a história de crescimento da cidade é marcada por desigualdade e ocupações consolidadas ao longo de décadas, nas quais muitas pessoas passaram a viver em locais inseguros.

“E não é viável, do ponto de vista humano e social, simplesmente dizer que não podem morar ali sem oferecer alternativas concretas: por isso a resposta precisa combinar proteção imediata, obras de mitigação onde for tecnicamente possível e, quando não for, soluções de moradia com apoio e pacto federativo”, pontua a chefe do Executivo municipal.

De acordo com a prefeita, investimentos de aproximadamente R$ 62 milhões em drenagem urbana ocorreram na cidade entre 2021 e 2025, com mais de 100 obras e de 15 quilômetros de redes coletoras. “Para 2026, há previsão de mais de R$ 40 milhões em contratos anuais. São trabalhos que contemplam remodelação de redes, limpeza de córregos e do Rio Paraibuna, pequenas contenções e ações na zona rural. A eles também se soma o desenvolvimento do Plano Municipal de Drenagem”, declarou Margarida Salomão.


Burocracia e urgência


Segundo a prefeita, a gestão municipal ainda tenta há quase um ano liberar R$ 21,6 milhões que foi autorizada a receber do governo federal para realizar obras de contenção de encostas na cidade. A previsão era de que a primeira avaliação técnica dos locais para os quais estão previstas as obras começasse em janeiro deste ano.


O recurso para Juiz de Fora faz parte do novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). A iniciativa prevê três frentes de obras em contenção de encostas na cidade. Uma, de R$ 3 milhões, fica no Bairro Cidade do Sol; outra, de R$ 6 milhões, no Bairro Olavo e uma terceira, de R$ 16 milhões, na região de Graminha. Para esta última, o município se comprometeu a aportar R$ 5 milhões em recursos próprios.

O termo de compromisso foi assinado em julho de 2024 e previa a entrega de documentos até abril do ano passado. Mas a papelada está desde então pendente de adequações. “Cada etapa tem exigências próprias e, muitas vezes, ocorre um movimento de vai e vem técnico: passa pelo crivo do ministério, segue para a Caixa, a Caixa solicita detalhamento, volta, complementa, e assim por diante. É um ambiente de rigor que, em si, é importante. É preciso que haja transparência, controle fiscal, segurança jurídica e fundamentação técnica”, afirma a prefeita de Juiz de Fora. Ela, porém, deixa claro que o momento exige uma abordagem diferenciada: “Em contexto de calamidade, a celeridade vira um elemento vital. Eu tenho dito isso diretamente: precisamos manter o rigor, mas encurtar os caminhos quando a ponta está vivendo a emergência”.

A preocupação de quem está na rua


Longe das articulações do poder público, nas vizinhanças atingidas em Juiz de Fora muitos moradores, mesmo ainda em meio aos trabalhos de grupos de resgate, ações de limpeza e abertura de acessos, já se preocupam com o que será necessário para voltar viver sem o temor de novas tragédias. E sabem que dependerão muito do governo. E de respostas.


O engenheiro ambiental e de segurança do trabalho Fabiano Diogo Ferreira, de 50 anos, mora há 20 anos próximo às moradias atingidas por um dos deslizamentos que ocorreram na encosta rochosa do Morro do Cristo, no Bairro Paineiras. “Sabemos que estamos em uma grande área de risco, entre as diversas que existem em Juiz de Fora. Nossa preocupação sempre foi sobre a estabilidade das encostas do Morro do Cristo”, afirma.


Nas imediações, houve cinco mortes por soterramento na escadaria da Rua do Carmelo. As vítimas eram mãe, dois filhos pequenos, o namorado da mãe e a avó das crianças. Abaixo, em outro desmoronamento de terra e lama do Morro do Cristo, morreu o policial penal Reinaldo Neiva Ferreira, de 36, soterrado em seu apartamento depois de ter salvo a mulher.

De acordo com o engenheiro Fabiano Ferreira, um tipo de trabalho preventivo a ser realizado e que poderia deixar a vizinhança mais segura seria o levantamento das condições de estabilidade das rochas e encostas rochosas do morro. “Depois da calamidade, vai ser necessário fazer vistorias e estudos técnicos para saber se alguma encosta ou feição necessita de cintas, tirantes, vigas e pilares como os que foram instalados há décadas e que nunca deram problema. Pelo contrário, as estruturas que foram reforçadas por pilares são utilizadas com frequência para treinamentos de militares de várias unidades no Morro do Cristo”, destaca.


Em termos de infraestrutura, ele estima ainda ser cedo para saber o que precisará ser recuperado ou construído. “Só após essa fase da calamidade para saber qual a extensão de infraestrutura – como pavimento, drenagem, esgoto e outros – que precisará ser recomposta”, disse.


Medo do esquecimento


No Bairro Parque Burnier, onde 22 pessoas morreram soterradas, 10 foram resgatadas com vida pelos bombeiros e várias outras foram socorridas pela própria vizinhança, um dos temores da comunidade é o de ser esquecida após o fim das operações de buscas e da comoção que elas atraem.


“Precisamos saber como não ser esquecidos quando os holofotes se apagarem”, destaca a técnica em enfermagem Sandra Sudre Manuel, de 44 anos. “Vamos precisar de apoio psicológico. Eu, por exemplo, perdi mais de 15 amigos. Estamos em uma área de risco. A qualquer momento pode ocorrer um novo desastre. Não nos sentimos seguros. O que vai ser feito para que o barranco não desça de novo?”, pergunta-se a técnica.


“O que a gente precisa é de sentar e ter uma resolução com a prefeitura. Vamos ser desapropriados? Vamos sair daqui? Ninguém sabe ainda. Estamos vendo muito pouco a prefeitura aqui, estamos vivendo de doações e isso não nos deixa seguros no presente, quanto mais no futuro. Temos muitas pessoas com depressão, sem dormir, vivendo em um cenário de guerra”, destaca o construtor Danilo Fartes, de 42 anos.

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