Dez anos após o rompimento da barragem de Fundão em Mariana, em Minas Gerais, a cidade ainda é o epicentro de um desafio: é possível conciliar a extração mineral com a dignidade humana e a segurança ambiental? A Cedro Participações, holding de R$ 2,5 bilhões, tenta avançar nessa empreitada.
Operar em Mariana exige mais do que licenças ambientais. É preciso trabalhar para superar uma barreira psicológica. Lucas Kallas, presidente do conselho da Cedro, admite que a chegada à cidade, há quatro anos, foi marcada pelo receio da população.
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"Foi muito difícil. Mariana estava arisca, e com razão. Tivemos que ir 'comendo pelas beiradas', sentando com líderes comunitários nos fins de semana para mostrar que faríamos diferente", recorda o executivo.
Para quem viveu o trauma de 2015, a promessa de uma mineração "limpa" é recebida com ceticismo. Por isso, a estratégia da empresa foi focar em entregas tangíveis de infraestrutura que o poder público, muitas vezes, não conseguiu garantir.
Foram R$ 10,7 milhões na duplicação da MG-129 e R$ 37,6 milhões no asfaltamento da estrada vicinal de Camargos. No distrito de Antônio Pereira, a reforma de campos de futebol e parques infantis tentou devolver o espaço de lazer a uma comunidade que viu sua rotina ser engolida pela mineração tradicional.
Além do lucro
Se em Mariana a prioridade é a infraestrutura de acesso, em Nova Lima o foco se deslocou para a base da pirâmide social. A empresa mantém a Creche São Judas Tadeu, a maior unidade privada de Minas Gerais, onde 800 crianças recebem atendimento integral e 4 mil refeições diárias.
Kallas defende que esse tipo de investimento não é caridade, mas sim um pilar de governança. "Isso traz uma satisfação que o dinheiro não compra. São crianças de um ano e meio cujos pais precisam trabalhar para botar comida na mesa. Ver que elas estão seguras e bem alimentadas é o que humaniza o negócio", afirma Kallas.
O impacto se estende à saúde, com o financiamento de Centros de Terapia Intensiva CTI) e centros de hemodiálise em hospitais como o Mário Penna e a Santa Casa de Belo Horizonte, somando mais de R$ 80 milhões em aportes sociais desde 2020.
Um dos maiores estigmas da mineração é o tráfego incessante de carretas, que poluem e colocam em risco a vida nas rodovias. A BR-381, a "rodovia da morte", é o cenário onde o grupo pretende aplicar sua solução logística mais ambiciosa: um Transportador de Correia de Longa Distância (TCLD) elétrico de 19km; e um ramal ferroviário de 26km para retirar quase 4 mil carretas por dia das estradas.
"Carreta é impacto, é poluição. O nosso objetivo é zero carreta fora da mina", diz Kallas. No subsolo da sustentabilidade, a aposta é o pellet feed, um minério de alta pureza que reduz em até 50% a emissão de carbono nas siderúrgicas. "As grandes empresas mundiais estão buscando esse 'minério verde'. É uma mudança de mercado que exige coragem para investir agora", explica.
O esforço de fazer a mineração em uma perspectiva ESG também passa por não depender exclusivamente da atividade industrial. O grupo hoje detém o maior plantio de café irrigado do Brasil no Norte de Minas, em Francisco Dumont, levando o rigor do compliance mineral para o agronegócio. O projeto já é certificado pela Starbucks e emprega 150 famílias em uma região historicamente pobre.
Com planos de saltar de 7 milhões para 30 milhões de toneladas de minério até 2031, a holding adota o rigor das empresas de capital aberto, com auditorias internacionais. Mas, para Lucas Kallas, o sucesso dessa nova mineração será medido pela memória que deixará no solo mineiro.
"Chega uma fase que não é mais só sobre o lucro. É sobre deixar um legado, pagar impostos de forma correta e ver que você mudou a vida das pessoas. Eu gosto de pegar o negócio do zero e, na hora que está pronto, sentir que deixamos algo melhor do que encontramos", conclui.
