
A promessa de ganho rápido de massa muscular pode esconder consequências graves para a saúde. Utilizados sem indicação médica por milhares de jovens e frequentadores de academias, os esteroides anabolizantes alteram o funcionamento natural do organismo e estão associados ao aumento do risco de infarto, acidente vascular cerebral (AVC), câncer, insuficiência cardíaca, infertilidade, lesões no fígado e transtornos psiquiátricos. Médicos alertam que parte dessas complicações pode surgir ainda nos primeiros meses de uso.
O assunto voltou ao centro do debate após a morte do influenciador e fisiculturista Gabriel Ganley, de 22 anos. Embora a causa apontada no atestado de óbito tenha sido cardiomiopatia hipertrófica, especialistas destacam que o uso prolongado e indiscriminado de anabolizantes está relacionado a alterações estruturais no coração, favorecendo arritmias, espessamento do músculo cardíaco, insuficiência cardíaca e episódios de morte súbita. Para endocrinologistas e médicos do esporte, o crescimento do consumo dessas substâncias exige atenção diante dos riscos cada vez mais evidentes para diversos órgãos e sistemas do corpo humano.
Os anabolizantes são derivados sintéticos da testosterona e atuam diretamente sobre o sistema hormonal. Diferentemente de suplementos alimentares, como proteínas, vitaminas e creatina, eles interferem em mecanismos biológicos complexos, modificando o funcionamento cardiovascular, metabólico, reprodutivo e neurológico. Segundo especialistas, os efeitos podem atingir, simultaneamente, diferentes órgãos e deixar sequelas permanentes, mesmo após o fim do uso.
O uso dessas substâncias ocorre, muitas vezes, sem prescrição e associado a práticas sem comprovação científica, como "ciclos", combinação de drogas e aumento progressivo das doses. A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia alerta que essas estratégias não reduzem os riscos. Ao contrário, podem potencializar os danos ao coração, ao fígado, aos rins e ao sistema hormonal. Entre os efeitos mais frequentes estão hipertensão arterial, aumento do colesterol ruim, queda do colesterol bom, retenção de líquidos e espessamento do músculo cardíaco, quadro que favorece insuficiência cardíaca e morte súbita.
O endocrinologista Igor Trotte afirma que os efeitos hormonais podem persistir mesmo após a interrupção do uso. "Dependendo da dose, do tempo de uso e da predisposição individual, algumas alterações podem ser permanentes", destaca. Nos homens, o organismo reduz drasticamente a produção natural de testosterona ao identificar excesso hormonal circulando no sangue. Isso pode provocar infertilidade, diminuição dos testículos, perda da libido e disfunção sexual. Em mulheres, os efeitos incluem engrossamento irreversível da voz, aumento de pelos, alterações menstruais, queda capilar e hipertrofia do clitóris.
Além dos impactos físicos, especialistas apontam crescimento de transtornos emocionais relacionados ao uso dessas drogas. Irritabilidade, agressividade, ansiedade, alterações de humor, insônia e episódios depressivos estão entre os sintomas mais relatados. Daniella Khouri ressalta que "muitos usuários desenvolvem dependência psicológica relacionada à imagem corporal e ao desempenho físico". O quadro costuma se agravar após a suspensão das substâncias, período em que há queda brusca hormonal, fadiga intensa e desânimo persistente.
Outro ponto de preocupação é a popularização do consumo entre adolescentes e jovens adultos influenciados por padrões estéticos nas redes sociais. Médicos alertam que, nessa fase da vida, o organismo ainda está em desenvolvimento hormonal e ósseo, o que amplia os riscos de sequelas permanentes. "Mesmo indivíduos jovens, treinados e aparentemente saudáveis podem desenvolver complicações graves, incluindo infarto, AVC, arritmias e infertilidade", afirma Trotte. Para especialistas, o ganho de massa muscular saudável continua baseado em treino adequado, alimentação equilibrada, recuperação física e acompanhamento multiprofissional.
Embora existam indicações médicas legítimas para o uso hormonal, como hipogonadismo e algumas doenças crônicas, endocrinologistas reforçam que qualquer terapia deve ocorrer sob supervisão especializada e com exames regulares. O uso recreativo, sobretudo em doses elevadas e sem controle clínico, aumenta, significativamente, o risco de complicações graves. Médicos ainda chamam atenção para o crescimento do mercado clandestino, marcado por produtos falsificados e sem controle sanitário, o que torna o cenário ainda mais perigoso.
* Estagiária sob a supervisão de Fábio Grecchi
