
Incêndio no lixão de São João d'Aliança (GO), na Chapada dos Veadeiros - (crédito: Fernando Brito/CB/D.A.Press)
Uma fumaça densa e de forte odor cobre a cidade. A depender da direção do vento, alcança também propriedades rurais nos arredores. O problema se repete de tempos em tempos, enquanto uma solução definitiva continua no papel. No município de São João d'Aliança (GO), portal da Chapada dos Veadeiros, os encantos das cachoeiras do Cerrado e a pujança do agronegócio contrastam com a precariedade enfrentada por catadores de materiais recicláveis em um lixão a céu aberto onde o fogo constantemente espalha transtornos pela região.
Na segunda-feira (17/8), por volta de meio-dia, um novo grande incêndio no local atormentou a comunidade goiana. Em um dia quente e seco, as chamas se espalharam entre plástico, papel, ossadas de animais, componentes eletrônicos e os mais diversos tipos de resíduos, que há décadas ocupam e poluem uma vasta área, na divisa entre fazendas e a zona urbana. Revoltada com a repetição do episódio, a população protestou nas redes sociais, exibindo imagens do dano ambiental em curso e cobrando providências imediatas do poder público. A prefeitura agiu rápido e enviou brigadistas para combater o fogo.
Na segunda-feira (17/8), por volta de meio-dia, um novo grande incêndio no local atormentou a comunidade goiana. Em um dia quente e seco, as chamas se espalharam entre plástico, papel, ossadas de animais, componentes eletrônicos e os mais diversos tipos de resíduos, que há décadas ocupam e poluem uma vasta área, na divisa entre fazendas e a zona urbana. Revoltada com a repetição do episódio, a população protestou nas redes sociais, exibindo imagens do dano ambiental em curso e cobrando providências imediatas do poder público. A prefeitura agiu rápido e enviou brigadistas para combater o fogo.
Três dias depois, na quinta-feira (20/8), as equipes ainda faziam o rescaldo do incêndio. O excesso de resíduos inflamáveis exigiu o consumo de milhares de litros d'água para resfriar os focos de calor e impedir a reignição das chamas. A fumaça mal cheirosa ainda provocava incômodo em diversas partes do município. Uma catadora de material reciclável que preferiu não divulgar a identidade disse que perdeu dois meses de trabalho para o fogo. Aos 60 anos, 10 deles dedicados à atividade no lixão, a senhora exibia desalento e cansaço com a situação.
Em outro ponto do lixão, uma família inteira se abrigava em uma barraca improvisada com lona para se proteger do Sol, enquanto coletava material mesmo em meio à fumaça e à nuvem de moscas que a todo momento tenta invadir bocas e olhos dos presentes. Raimunda, 69 anos, estava acompanhada por dois filhos (Milton e Francisco), uma nora (Sueli) e um neto, Rafael, 19. "Gostaria de tomar um café?", ofereceu gentilmente à reportagem do Correio.
"Situação horrível. Muita destruição. Felizmente, não perdemos muita coisa, mas é difícil. Estamos aqui há três meses, mas já viemos em outros anos também. Nada muda. É sempre essa grande sujeira e a gente tentando recolher algo de valor. Complicado saber como esse incêndio começou. Tem umas câmeras daquele lado, mas acho que não funcionam", disse Milton, empunhando um facão, enquanto separava alguns materiais. Segundo um servidor da prefeitura, os equipamentos de filmagem, de fato, estão desativados.
Na cidade, onde a separação entre resíduos orgânicos e recicláveis ainda não é uma prática disseminada, a população reclamou em peso nas redes sociais. Uma publicação com imagens do recente incêndio e da fumaceira generalizada recebeu centenas de curtidas e dezenas de comentários. "Isso aqui está passando dos limites!!! Acorda, São João d’Aliança! Chegou a hora de acabar com isso. A fumaça tóxica envenena o ar, destrói a saúde de quem vive perto. Queimar lixo libera gases perigosos e venenos que sufocam as cidades e mostram o descaso com a vida e com a natureza. O dia a dia vira um sufoco, com olhos ardendo e garganta trancada. Todos estamos sofrendo, precisamos de reposta o mais rápido possível", reclama o texto.
Em documento técnico publicado em 2025, a Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que a queima de resíduos a céu aberto libera diferentes poluentes atmosféricos prejudiciais à saúde e ao clima. Segundo a entidade, a exposição a essas circunstâncias pode provocar efeitos adversos à saúde, incluindo tosse, irritações da pele e doenças respiratórias.
Problema se arrasta
No portal da Chapada dos Veadeiros, o problema é antigo e se arrasta nos últimos anos, apesar de determinação judicial que exige a solução do caso e encerramento do lixão. Em 2024, o Correio publicou matéria a respeito. No retorno ao local, encontrou a mesma cena à espera por alguma evolução. A gestão municipal anterior contratou a elaboração de um plano, que previa enviar os resíduos para um aterro em Águas Lindas (GO), a mais de 200km de distância. A nova administração da prefeitura, que assumiu o posto em 2025, descartou a ideia, considerada excessivamente dispendiosa, e iniciou um novo planejamento, que pretende fazer o tratamento dos resíduos no local.
Em nota, a Secretaria de Meio Ambiente afirmou que busca resolver o problema. "O município contratou a empresa Equilibrio, responsável pela elaboração do Projeto Executivo do Aterro Sanitário Municipal, documento que se encontra em fase final de conclusão. Essa é a etapa técnica indispensável para que possamos buscar os recursos necessários e iniciar a implantação de uma solução ambientalmente adequada, encerrando de forma definitiva a utilização do atual lixão. A implantação de um aterro sanitário envolve um processo rigoroso, previsto na legislação ambiental brasileira. São necessárias diversas etapas técnicas e legais, como estudos ambientais, elaboração de projetos de engenharia, licenciamento junto aos órgãos competentes, obtenção de recursos financeiros e realização do processo licitatório para execução da obra. Trata-se de um procedimento burocrático, porém indispensável para garantir que a solução seja segura, legal e permanente. A atual gestão está cumprindo rigorosamente cada etapa do processo", diz trecho do texto.
"Quando a Semad/Goiás liberar e começarmos a obra, com certeza iremos precisar da ajuda de toda a comunidade e da população, principalmente em relação à coleta seletiva. Iniciamos essa educação ambiental nas escolas e iremos continuar. Também colocamos contêineres de coleta seletiva pela cidade. A empresa está realizando a coleta para a população ir se acostumando. Mais à frente, com o projeto rodando, haverá uma abordagem e controle maior por parte da empresa de coleta", completou o secretário municipal de Meio Ambiente, Esdras David, em um grupo de WhatsApp de moradores locais. O Correio questionou sobre detalhamentos da proposta, como custos, cronograma, apoio aos catadores, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem.
Nas redes sociais, o prefeito Genivan Gonçalves também abordou o tema, admitiu o histórico problema e afirmou que trabalha em busca por solução. "O incêndio no lixão trouxe transtornos para nossa população. Desde o primeiro momento, nossas equipes estão trabalhando para combater as chamas e minimizar os impactos. Não aprovamos esse tipo de situação e estamos tomando as providências necessárias para identificar os responsáveis pelo incêndio. Mas nossa responsabilidade vai além. Estamos trabalhando em uma solução definitiva para o problema do lixo em São João d’Aliança. Avançamos com o projeto e com os procedimentos necessários para viabilizar a implantação do nosso aterro sanitário. Problema se enfrenta. Solução se constrói. E é isso que estamos fazendo", diz trecho do comunicado.
A Conferência Ambiental Livre de São João d'Aliança, um coletivo ambientalista local surgido a partir do movimento nacional articulado pelo Ministério do Meio Ambiente, lançou um abaixo-assinado em que pede participação popular no processo de implantação do aterro sanitário e providências urgentes para encerrar as queimadas no lixão. "Trabalho com reciclagem faz muitos anos e sempre tive esse incômodo em São João d'Aliança. Venho acompanhando algumas tentativas de aproximação da Reciclealto de criar uma cooperativa, de acessar editais, mas pouco ou quase nada de movimentação do poder público. Vejo uma falta de sensibilidade da população em relação ao lixo, é um problema de educação ambiental. Os contêineres foram instalados em alguns lugares da cidade, mas ainda é uma coleta bem simplista. Não foi informado para onde esse lixo está indo. Se está pegando resíduo compostável e continua indo para o lixão, não vejo muita diferença", aponta a comunicadora e socióloga Alessandra Possebon, professora no Colégio Estadual Pedro Ludovico.
Em nota, a Secretaria de Meio Ambiente afirmou que busca resolver o problema. "O município contratou a empresa Equilibrio, responsável pela elaboração do Projeto Executivo do Aterro Sanitário Municipal, documento que se encontra em fase final de conclusão. Essa é a etapa técnica indispensável para que possamos buscar os recursos necessários e iniciar a implantação de uma solução ambientalmente adequada, encerrando de forma definitiva a utilização do atual lixão. A implantação de um aterro sanitário envolve um processo rigoroso, previsto na legislação ambiental brasileira. São necessárias diversas etapas técnicas e legais, como estudos ambientais, elaboração de projetos de engenharia, licenciamento junto aos órgãos competentes, obtenção de recursos financeiros e realização do processo licitatório para execução da obra. Trata-se de um procedimento burocrático, porém indispensável para garantir que a solução seja segura, legal e permanente. A atual gestão está cumprindo rigorosamente cada etapa do processo", diz trecho do texto.
"Quando a Semad/Goiás liberar e começarmos a obra, com certeza iremos precisar da ajuda de toda a comunidade e da população, principalmente em relação à coleta seletiva. Iniciamos essa educação ambiental nas escolas e iremos continuar. Também colocamos contêineres de coleta seletiva pela cidade. A empresa está realizando a coleta para a população ir se acostumando. Mais à frente, com o projeto rodando, haverá uma abordagem e controle maior por parte da empresa de coleta", completou o secretário municipal de Meio Ambiente, Esdras David, em um grupo de WhatsApp de moradores locais. O Correio questionou sobre detalhamentos da proposta, como custos, cronograma, apoio aos catadores, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem.
Nas redes sociais, o prefeito Genivan Gonçalves também abordou o tema, admitiu o histórico problema e afirmou que trabalha em busca por solução. "O incêndio no lixão trouxe transtornos para nossa população. Desde o primeiro momento, nossas equipes estão trabalhando para combater as chamas e minimizar os impactos. Não aprovamos esse tipo de situação e estamos tomando as providências necessárias para identificar os responsáveis pelo incêndio. Mas nossa responsabilidade vai além. Estamos trabalhando em uma solução definitiva para o problema do lixo em São João d’Aliança. Avançamos com o projeto e com os procedimentos necessários para viabilizar a implantação do nosso aterro sanitário. Problema se enfrenta. Solução se constrói. E é isso que estamos fazendo", diz trecho do comunicado.
A Conferência Ambiental Livre de São João d'Aliança, um coletivo ambientalista local surgido a partir do movimento nacional articulado pelo Ministério do Meio Ambiente, lançou um abaixo-assinado em que pede participação popular no processo de implantação do aterro sanitário e providências urgentes para encerrar as queimadas no lixão. "Trabalho com reciclagem faz muitos anos e sempre tive esse incômodo em São João d'Aliança. Venho acompanhando algumas tentativas de aproximação da Reciclealto de criar uma cooperativa, de acessar editais, mas pouco ou quase nada de movimentação do poder público. Vejo uma falta de sensibilidade da população em relação ao lixo, é um problema de educação ambiental. Os contêineres foram instalados em alguns lugares da cidade, mas ainda é uma coleta bem simplista. Não foi informado para onde esse lixo está indo. Se está pegando resíduo compostável e continua indo para o lixão, não vejo muita diferença", aponta a comunicadora e socióloga Alessandra Possebon, professora no Colégio Estadual Pedro Ludovico.
Por Fernando Brito e Victor Parrini
postado em 22/08/2026 11:51