Matéria escrita por Gabriella Collodetti, jornalista do CB Brands – Estúdio de Conteúdo, Marketing e Projetos Especiais do Correio Braziliense
Com mais de 10 milhões de pessoas impactadas em todo o mundo, incluindo cerca de 500 mil brasileiros¹, a doença de Parkinson apresenta prevalência crescente, fenômeno que está diretamente relacionado ao envelhecimento da população, já que a condição é mais comum em indivíduos com mais de 60 anos.
Ainda assim, também há registros de diagnóstico em pessoas jovens, sendo que o início precoce costuma estar associado a quadros mais graves. No Brasil, estima-se que aproximadamente 36 mil novos casos² surjam a cada ano, reforçando a importância de atenção, diagnóstico precoce e estratégias de cuidado voltadas a essa população.
Segunda condição neurodegenerativa mais comum do mundo, a enfermidade é um distúrbio do movimento progressivo e crônico, decorrente da perda de neurônios que produzem dopamina. Embora o tremor seja o sinal mais conhecido, ele representa apenas uma parte da complexidade do Parkinson.
"A doença é neurodegenerativa e progressiva, envolvendo uma série de sintomas motores e não motores, como rigidez, lentidão de movimentos, distúrbios do sono, alterações cognitivas, problemas gastrointestinais e perda do olfato", explica Fernando Mos, diretor médico AbbVie Brasil, empresa biofarmacêutica global.
Do ponto de vista neurológico, o Parkinson envolve diversos sistemas do organismo. Delson José da Silva, membro titular e atual presidente da Academia Brasileira de Neurologia, informa que além da perda de neurônios, há também o acúmulo anormal de proteínas, especialmente a alfa-sinucleína, que leva à formação dos chamados corpos de Lewy, uma das principais características da doença.
“Outros neurotransmissores, como noradrenalina, serotonina e acetilcolina, também estão envolvidos, o que explica a ampla variedade de sintomas não motores. Por isso, trata-se de uma condição complexa, com manifestações que vão muito além do movimento. Com a progressão da doença, surgem as flutuações motoras, quando o paciente passa a alternar períodos de boa resposta ao tratamento com momentos de piora dos sintomas”, informa.
O especialista indica que a progressão do Parkinson ocorre de forma gradual. No início, os sintomas são mais leves e costumam responder bem ao tratamento medicamentoso, permitindo que o paciente mantenha sua autonomia. Com o avanço da doença, surgem limitações. A resposta à medicação também passa a ser menos previsível, com períodos de melhora alternados com fases de piora, conhecidas como flutuações motoras.
“Podem surgir discinesias, que são movimentos involuntários associados ao uso prolongado da medicação, e o congelamento da marcha, quando o paciente sente como se os pés estivessem presos ao chão. Esses fatores aumentam o risco de quedas e comprometem progressivamente a autonomia, exigindo maior suporte e acompanhamento especializado”, aponta.
Delson ressalta que a perda progressiva da autonomia, especialmente nas fases mais avançadas, exige uma abordagem terapêutica integrada e multidisciplinar. Nesse âmbito, o diretor médico AbbVie Brasil, Fernando Mos, corrobora a ponderação feita por Delson. “A contribuição da indústria vai além do desenvolvimento de medicamentos. No Parkinson, é fundamental considerar a doença de forma ampla, levando em conta seu impacto progressivo na autonomia do paciente e na rotina de familiares e cuidadores”, destaca.
Sabe-se que o tratamento padrão da doença de Parkinson baseia-se na reposição de dopamina, realizada por meio de seu análogo, a levodopa administrada por via oral, com o objetivo de controlar os sintomas motores característicos da condição.
Entretanto, com a progressão da doença, a levodopa oral pode ter a eficácia reduzida e levar a efeitos adversos como as discinesias, causando flutuações motoras e discinesias. Nesses casos, a única opção atualmente disponível no Brasil quando a medicação oral falha é a cirurgia de estimulação cerebral profunda (DBS), que não é indicada para todos – até 34% dos pacientes são inelegíveis e, entre os elegíveis, 25% recusam o procedimento por considerá-lo invasivo.
Lacunas no Brasil
Rubens Cury, médico assistente do Grupo de Distúrbios do Movimento e doença de Parkinson do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), enxerga duas grandes lacunas no Brasil no que diz respeito ao cuidado do Parkinson: a neuroproteção e o acesso à estimulação dopaminérgica contínua.
"Atualmente, não dispomos de terapias capazes de reduzir ou interromper a progressão da doença. A evolução do Parkinson é inevitável", lamenta. O profissional explica que, na prática, são oferecidas terapias essencialmente sintomáticas. "Tentamos, com algumas abordagens, alcançar um efeito neuroprotetor, mas esse ainda é um dos grandes desafios no tratamento do Parkinson e representa uma lacuna importante", informa.
Essas terapias ajudam a reduzir o chamado “on-off”, em que o paciente alterna entre momentos de bom controle dos sintomas e períodos de grande limitação motora. A estimulação contínua, segundo Rubens, permite manter o paciente em um estado motor mais estável ao longo do dia e da noite.
“Esse tipo de abordagem inovadora já existe em outros países, mas ainda não está disponível no Brasil. Hoje, no mundo, já contamos com terapias dopaminérgicas contínuas capazes de oferecer esse controle mais uniforme, o que representa um avanço significativo e, ao mesmo tempo, uma lacuna importante no cuidado dos pacientes brasileiros pois ainda não dispomos dessa alternativa de tratamento para a doença de Parkinson”, diz.
Embora ainda não exista uma cura definitiva, a ciência tem avançado de forma consistente no entendimento e no tratamento do Parkinson, abrindo caminhos promissores para o futuro. Ao mesmo tempo, inovações já adotadas em outros países indicam que há um horizonte de possibilidades a ser explorado no Brasil. Por essa razão, a comunidade médica defende que investir na incorporação dessas tecnologias e ampliar o acesso a terapias mais modernas são passos importantes para transformar o cenário da doença no país.
1. THE LANCET REGIONAL HEALTH – AMERICAS. Article (PIIS2667-193X(25)00056-0). Elsevier. Disponível em: https://www.thelancet.com/journals/lanam/article/PIIS2667-193X(25)00056-0/fulltext
2. ABOUT PARKINSON'S: Parkinson's 101. The Michael J. Fox Foundation for Parkinson's Research. Disponível em: https://www.michaeljfox.org/understanding-parkinsons/i-have-got-what.php#q2. Acesso em: 17 out. 2025.
