O fortalecimento do mercado de capitais é essencial para o desenvolvimento do país. Por isso, torna-se prioritário que o próximo governo tenha como preocupação medidas que garantam a estabilidade econômica e a confiança dos investidores, defende a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).
“O mercado de capitais ganha cada dia mais espaço no financiamento ao setor produtivo, mostrando-se como alternativa ou complemento ao financiamento bancário ou de agentes de fomento. Para dar continuidade a esse movimento, é fundamental que se crie um ambiente de negócios compatível aos desafios atuais e futuros”, afirma Zeca Doherty, CEO da Anbima.
Ele lembra que o mercado de capitais atua como uma ponte direta, entre quem tem recursos e quem precisa financiar projetos produtivos. Tornou-se um instrumento complementar e estratégico ao financiamento da economia, além do crédito liberado pelos bancos.
Funciona assim: em vez de ir ao banco pegar um empréstimo caro, uma empresa que precisa crescer ou produzir motores, por exemplo, vai direto ao mercado pedir dinheiro emprestado. E pessoas comuns ou grandes fundos com dinheiro guardado passam a financiar essa empresa, diretamente. Como? Comprando ações (ou pedacinhos de empresas representados por títulos) e títulos de dívida (debêntures), chamados de valores mobiliários. Esperando que a empresa cresça e dê lucro, os investidores emprestam o dinheiro em troca de juros no futuro.
O investidor dessas negociações de títulos de valores mobiliários acaba possibilitando que, não só as grandes empresas recebam os recursos, mas também o agronegócio para a produção de alimentos; as grandes obras de infraestrutura, como estradas e ferrovisas; as empresas de tecnologia que avançam na inovação, além de médias e pequenas empresas em geral.
Financiamento à economia real
Trata-se de um mercado gigante. Cerca de R$ 8 trilhões foi o estoque de recursos financiados pelo mercado de capitais, até dezembro de 2025. Algo equivalente a 68,5% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. De acordo com a Anbima, as empresas não financeiras (todos os setores fora as instituições financeiras) já recorrem um pouquinho mais ao mercado de capitais, com 33,6% das captações, do que aos empréstimos bancários (33,3%).
Nesse mesmo período, o estoque de títulos bancários e não bancários com lastro no agronegócio somou somou R$ 1,37 trilhão. Em todo o ano passado, a Anbima - que representa as instituições do mercado financeiro brasileiro, como bancos, corretoras e outras - informa que mais de 3,5 mil companhias receberam financiamento por meio de instrumentos do mercado de capitais. Além disso, foram captados cerca de R$ 497,1 bilhões em debêntures incentivadas (que isentam o investidor de Imposto de Renda) no intervalo de oito anos terminados em 2025, dos quais 86% destinados à infraestrutura.
“O mercado de capitais brasileiro avançou muito nas últimas décadas”, pontua Doherty. “Hoje, temos mais investidores, mais empresas captando recursos e uma participação cada vez maior no financiamento da economia”, continua.
Por toda essa importância é que a Anbima, refletindo anseios do mercado de capitais, destaca a necessidade de medidas para fortalecer a segurança jurídica, aumentar a previsibilidade regulatória e ampliar os investimentos de longo prazo no Brasil. Propostas nesse sentido foram entregues aos assessores econômicos dos candidatos à eleição majoritária deste outubro.
Em síntese, o mercado de capitais contribui para financiar iniciativas de longo prazo, estimular a geração de empregos, aumentar a competitividade e apoiar o crescimento sustentável do Brasil. Por isso, governos não podem negligenciar diretrizes que induzam a cenários propositivos de estímulo à continuada geração de investimentos na economia real brasileira.
Para isso, é preciso reduzir o chamado Custo Brasil, aqueles entraves que encarecem o investimento - ampliar a participação do mercado de capitais no financiamento da economia, expandir a base de investidores e criar um ambiente institucional mais favorável aos investimentos, recomenda a entidade. Isso porque o fortalecimento dos mecanismos de financiamento de longo prazo amplia a capacidade de investimento do país e cria condições para um crescimento mais sustentável, diz a Anbima.
Agronegócio no mercado de títulos
Um bom exemplo de crescimento com o suporte da diversificação das fontes de recursos, citado pela Anbima, é o agronegócio. Desde que passou a contar com injeções de recursos via mercado de capitais, nas últimas décadas, o segmento agrícola criou impulso e mantém uma expansão continuada. Tradicionalmente financiado pelo crédito público, o setor passou a contar cada vez mais com recursos captados por meio de instrumentos como CRA e Fiagro, ampliando as alternativas de financiamento para produtores e empresas da cadeia agroindustrial.
Contribuição que o setor agradece, uma vez que há safras em que ocorrem dificuldades de diversas ordens, e há redução nos desembolsos do Plano Safra do governo via bancos.
A importância do agronegócio na economia brasileira é estratégica em todas as dimensões: na geração de renda e emprego, na tecnologia, nos arranjos de crédito e na sustentabilidade. Dados oficiais apontam contribuição do segmento em cerca de 29,4% do PIB, até março de2025.
Segundo a Anbima, o mercado de capitais fortalece o agronegócio de forma significativa, ao diversificar as fontes de recursos e reduzir a dependência do crédito rural oficial. Vejam os dados: de acordo com o Ministério da Agricultura e Pecuária, o estoque de títulos bancários e não bancários com lastro agropecuário soma R$ 1,37 trilhão em dezembro de 2025.
Desse total, a maior participação é de títulos bancários, que representam 43,7%. Mas o estoque de Certificado de Recebíveis do Agronegócio (CRA) e de Fundos de Investimentos nas Cadeias Produtivas Agroindustriais (Fiagro) representava 33% do crédito rural em mercado no período, um bom aumento se comparado aos 19% registrados em 2021.
Para a Anbima, entretanto, a participação dos ativos do agronegócio ainda é pequena no total do mercado de capitais, ficando em apenas 2,5%. O que mostra espaço significativo de crescimento para o setor.
