E se o tratamento do câncer começasse pela pessoa, e não pela doença?
A pergunta parece simples, mas resume uma transformação que vem redesenhando a oncologia em todo o mundo. Se, durante décadas, o foco esteve concentrado quase exclusivamente no combate ao tumor, hoje a medicina passa a olhar também para quem vive a doença: suas dúvidas, seus medos, sua rotina, sua família e sua qualidade de vida.
"É exatamente a esse questionamento que o conceito de jornada do paciente responde", afirma o diretor-geral dos hospitais Anchieta, Marcello Caio de Souza Reis. "Tratar o tumor é uma parte do processo. A outra, tão decisiva quanto, é organizar a experiência de quem enfrenta a doença, do diagnóstico ao acompanhamento."
Não por acaso, lembra o médico e executivo, o tema esteve entre os mais debatidos na edição de 2026 da reunião anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO), considerada o principal congresso mundial da especialidade. "Um dos grandes destaques deste ano não foi necessariamente um novo medicamento, mas o olhar para a qualidade de vida e para a experiência do paciente", observa.
Os avanços científicos continuam impressionando: terapias-alvo, imunoterapia, medicina personalizada e o uso crescente da inteligência artificial vêm ampliando as possibilidades terapêuticas e aumentando a sobrevida. Segundo o oncologista clínico do Hospital Anchieta e do Anchieta Unique, Rafael Botan, esses avanços trouxeram uma nova responsabilidade.
"É justamente porque mais pessoas vivem, e vivem bem após o câncer, que ficou evidente a necessidade de evoluir também na forma de cuidar", afirma.
Para o especialista, a transformação da oncologia passa por uma mudança profunda de perspectiva. "A oncologia mudou profundamente. Antes, tratávamos apenas o tumor. Hoje, tratamos a pessoa que tem o tumor, considerando suas dores, medos, relações familiares, saúde emocional e qualidade de vida", destaca.
Durante muito tempo, o percurso oncológico foi marcado por deslocamentos constantes, consultas fragmentadas e incertezas sobre os próximos passos -fatores que ampliam ainda mais o desgaste emocional inerente ao tratamento.
"A maior angústia, muitas vezes, não está apenas na doença, mas na sensação de estar perdido dentro do sistema de saúde", observa Botan.
Uma jornada colocada em prática
É nesse contexto que nasce o Anchieta Unique, na 707/907 Sul, primeira atuação do hospital na região central de Brasília.
Segundo o diretor de Operações da Kora Saúde, Marcio Machado, a proposta da nova unidade é reorganizar toda a jornada do paciente, integrando etapas, simplificando fluxos e oferecendo um ambiente menos hospitalar e mais acolhedor.
Na prática, o paciente encontra, em um único espaço, assistência médica, suporte multiprofissional e acompanhamento contínuo ao longo de todo o tratamento.
Essa forma de cuidar não exige mudanças nos protocolos médicos, explica o diretor. O diferencial está na integração dos processos e das equipes. "Com frequência, inovação é associada a aumento de custos ou à incorporação de novas tecnologias. Neste caso, grande parte dos recursos já existe. O desafio é tornar o processo mais fluido, integrando diferentes áreas da assistência sem alterar os protocolos médicos", comenta.
Segundo ele, a proposta envolve uma mudança cultural importante: "a agenda do paciente passa a contemplar todos os profissionais necessários ao seu cuidado. Mais do que treinamento, buscamos profissionais alinhados a uma cultura de cuidado integral, colaborativo e centrado na pessoa".
Mais do que reunir serviços em um único endereço, o projeto arquitetônico do Anchieta Unique foi concebido para tornar a experiência do paciente menos desgastante e mais acolhedora.
Desde a chegada, o ambiente procura se afastar da atmosfera tradicionalmente associada aos espaços hospitalares. Salas de espera amplas, recepção acolhedora e ambientes desenhados para proporcionar conforto ajudam a reduzir a ansiedade comum ao tratamento oncológico.
Os boxes de infusão, onde muitos pacientes passam horas durante a administração de medicamentos, foram planejados para permitir a permanência de acompanhantes e contam com televisão individual. "Queremos que o paciente tenha autonomia para viver sua rotina da forma mais natural possível. Se ele quiser trabalhar, pode trabalhar. Se preferir assistir a um filme ou uma série durante a infusão, também pode", destaca o diretor geral, Marcello Caio.
A unidade dispõe ainda de quartos equipados para pacientes que necessitem de maior observação e de um espaço preparado para situações de maior complexidade, equipado para estabilização clínica. Em casos de emergência, uma ambulância realiza o transporte imediato para o Hospital Anchieta Taguatinga, garantindo continuidade assistencial dentro da própria rede.
Outro espaço estratégico é a sala de discussão clínica, equipada com telão e recursos para transmissões ao vivo. É nesse ambiente que médicos e profissionais das diferentes especialidades se reúnem regularmente para discutir casos e definir, de forma conjunta, as melhores estratégias terapêuticas para cada paciente.
Muito além do médico: um olhar para o todo
Um dos pilares desse novo modelo assistencial é a atuação transdisciplinar, que, segundo Marcello Caio, vai além do que é conhecido como multidisciplinar. "O tratamento transdisciplinar reúne profissionais de diferentes áreas da saúde em um processo unificado", explica. "Quando há um paciente sendo discutido por uma equipe transdisciplinar, a abordagem começa pela psicologia."
Na prática, médicos, enfermeiros, nutricionistas, psicólogos, fisioterapeutas, farmacêuticos e outros especialistas participam conjuntamente da construção do plano terapêutico.
Essa integração permite tratar não apenas o câncer, mas também os diversos impactos físicos, emocionais e sociais provocados pela doença.
"Quando diferentes especialistas trabalham juntos, o paciente deixa de receber apenas uma prescrição e passa a ser cuidado de forma verdadeiramente integral", destaca Rafael Botan.
Segundo Marcello Caio, a proposta vai além de minimizar efeitos colaterais. O objetivo é preservar autonomia, funcionalidade, saúde emocional e qualidade de vida.
Essa integração também permite identificar precocemente dificuldades nutricionais, limitações funcionais, sofrimento emocional e outras condições capazes de comprometer a adesão terapêutica e os resultados clínicos.
A importância de não caminhar sozinho
Outra inovação incorporada pelo Unique é a presença da enfermeira navegadora e de um serviço de concierge. Em um momento marcado por dúvidas, inseguranças e excesso de informações, a enfermeira navegadora atua como referência permanente para o paciente e sua família, acompanhando toda a trajetória assistencial.
É esta profissional que orienta, esclarece dúvidas, organiza etapas do tratamento, monitora a evolução clínica e facilita a comunicação entre paciente e equipe. "Muitas vezes, o paciente chega assustado e sem saber por onde começar. Nosso papel é caminhar ao lado dele durante toda a jornada", resume a enfermeira navegadora da unidade, Livia Bezerra.
Segundo os especialistas, contar com uma referência dentro do serviço reduz a ansiedade, melhora a adesão ao tratamento e traz mais segurança aos pacientes e familiares.
O cuidado personalizado também se estende ao serviço de concierge, responsável por auxiliar em questões práticas, como agendamentos, encaminhamentos e autorizações junto aos planos de saúde. Pequenos gestos, aparentemente simples, ajudam a reduzir o estresse e tornam a experiência do tratamento mais acolhedora.
"Acolhimento não é apenas um discurso bonito. Acolhimento significa organização, disponibilidade, comunicação clara e um plano de cuidado bem definido", reforça Botan.
Essa reorganização passa também pelo ambiente e pelos fluxos de atendimento. Espaços menos hospitalares, processos mais simples e acompanhamento contínuo ajudam a reduzir a ansiedade, que interfere diretamente na forma como o tratamento é vivido.
Para o oncologista clínico do Hospital Anchieta e do Unique, Caio Neves, a grande transformação da oncologia moderna está justamente na ampliação do olhar sobre o paciente. “Antes, o foco estava quase exclusivamente em combater a doença. Hoje, cuidamos da pessoa como um todo. Além dos avanços científicos, entendemos que aspectos emocionais, nutricionais, físicos e sociais influenciam diretamente os resultados do tratamento”, afirma. “O paciente deixou de ser apenas alguém que recebe um protocolo e passou a participar ativamente das decisões sobre seu cuidado.”
O novo perfil da especialidade: tecnologia e humanidade lado a lado
Os avanços científicos seguem impressionando: novas terapias, diagnósticos mais precisos e aumento da sobrevida. Mas a revolução não acontece apenas dentro dos laboratórios. Ela também está na forma de cuidar.
"O tratamento do câncer evoluiu de forma extraordinária. Antes, o foco estava quase exclusivamente em combater a doença. Hoje, cuidamos da pessoa como um todo. Além dos avanços científicos, entendemos que aspectos emocionais, nutricionais, físicos e sociais influenciam diretamente os resultados do tratamento", afirma o oncologista Caio Neves. "O paciente deixou de ser apenas alguém que recebe um protocolo e passou a participar ativamente das decisões sobre seu cuidado."
Os avanços terapêuticos também vêm transformando a história natural de diversos tipos de câncer. Terapias-alvo, imunoterapia e medicina personalizada permitem tratamentos cada vez mais individualizados, levando em consideração as características moleculares de cada tumor.
"O tratamento deixou de ser apenas uma quimioterapia igual para todos. Hoje conseguimos selecionar estratégias muito mais precisas, respeitando as particularidades de cada paciente e de cada doença", explica Rafael Botan.
A inteligência artificial também começa a ocupar espaço crescente na especialidade. "A inteligência artificial já está transformando a oncologia ao tornar processos mais rápidos e precisos, especialmente na análise de exames, imagens e dados clínicos. Mas a tecnologia é uma aliada poderosa, não substitui o médico", afirma o oncologista.
Segundo ele, a melhor assistência é aquela capaz de combinar inovação com proximidade. "A tecnologia amplia nossa capacidade de análise, mas o olhar humano continua sendo insubstituível", destaca. Para Botan, a excelência em oncologia nasce justamente da combinação entre ciência, integração e humanidade. “Um bom oncologista precisa unir excelência técnica e presença humana. Em oncologia, competência sem humanidade é insuficiente, assim como humanidade sem competência", afirma.
Caio Neves complementa: “há duas grandes transformações ocorrendo na oncologia. A primeira é científica: hoje conseguimos compreender muito melhor a biologia de cada tumor, identificar alterações moleculares e oferecer tratamentos direcionados, aumentando a eficácia e reduzindo efeitos adversos. A segunda é assistencial. O cuidado tornou-se multidisciplinar. Oncologista, cirurgião, radioterapeuta, enfermeiro, nutricionista, psicólogo, fisioterapeuta e outros profissionais trabalham de forma integrada para oferecer uma assistência mais completa. O objetivo já não é apenas prolongar a vida, mas preservar qualidade de vida em todas as fases do tratamento.”
Um legado de qualidade assistencial
Embora represente uma nova proposta de cuidado, o Anchieta Unique nasce apoiado em uma trajetória assistencial consolidada. "O Unique é uma extensão do padrão de qualidade do Anchieta", afirma o diretor Marcello Caio. "Levar esse rigor assistencial para um modelo mais acolhedor e centrado na experiência do paciente é o que torna o projeto diferente."
O Hospital Anchieta reúne algumas das principais certificações nacionais e internacionais de qualidade em saúde. Entre elas está a acreditação da Joint Commission International (JCI), considerada uma das mais rigorosas do mundo e concedida a instituições que atendem elevados padrões de segurança do paciente e excelência assistencial.
A instituição também possui acreditação nível 3 – Excelência, da Organização Nacional de Acreditação (ONA), reconhecimento máximo concedido a hospitais brasileiros que demonstram maturidade na gestão integrada e melhoria contínua dos processos.
Em 2026, o Hospital Anchieta figurou pela sexta vez no ranking World's Best Hospitals, elaborado pela revista norte-americana Newsweek em parceria com a Statista. O levantamento avaliou 120 hospitais brasileiros com base em critérios como qualidade assistencial, segurança do paciente, adoção de protocolos clínicos e recomendações de profissionais da saúde.
Referência em alta complexidade, o hospital mantém linhas de cuidado estruturadas para condições como AVC, sepse, infarto agudo do miocárdio e trauma, situações em que rapidez diagnóstica e organização dos fluxos podem ser decisivas para salvar vidas.
Recentemente, as UTIs do Hospital Anchieta Taguatinga também conquistaram o selo Top Performer 2026, concedido pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) em parceria com a Epimed Solutions, reconhecimento atribuído às unidades que apresentam elevado desempenho assistencial, segurança e eficiência no cuidado ao paciente crítico.
"Um centro oncológico moderno precisa reunir três pilares: precisão técnica, integração da equipe e cuidado humano", resume Rafael Botan. "No Anchieta Unique, o grande diferencial é oferecer alta complexidade sem transformar o paciente em número. A tecnologia é fundamental, mas a diferença real está em utilizá-la com inteligência, coordenação e humanidade", conclui.
