Longe de serem apenas um incômodo gástrico aleatório, os soluços representam um vestígio evolutivo fascinante que compartilhamos com girinos e animais aquáticos antigos. Esse espasmo involuntário revela uma “falha” no design do nosso sistema nervoso, herdada de uma época remota em que nossos antepassados precisavam coordenar a respiração através de brânquias, mantendo um circuito neural que ainda hoje dispara erroneamente em humanos.
O que dispara esse reflexo no corpo humano?
Fisiologicamente, o soluço é uma contração súbita e involuntária do diafragma (o músculo sob os pulmões), seguida imediatamente pelo fechamento das cordas vocais, o que cria o som característico de “hic”. Especialistas da Mayo Clinic explicam que esse evento é causado por uma irritação nos nervos que controlam a respiração, especificamente os nervos frênico e vago.
Quando esses nervos são estimulados por fatores como comer muito rápido, beber líquidos gaseificados ou mudanças bruscas de temperatura, eles enviam um sinal confuso ao diafragma. O resultado é um ciclo de espasmos que não cumpre nenhuma função respiratória útil para um ser humano adulto, servindo apenas como uma interrupção rítmica e irritante.
No vídeo a seguir, Paulo Jubilut, com mais de 3,7 milhões de inscritos, explica o motivo de soluçamos:
Qual é a conexão evolutiva com os anfíbios?
A teoria mais aceita na biologia evolutiva sugere que o padrão neural do soluço é idêntico ao mecanismo de respiração de anfíbios, como os girinos. Pesquisadores citados pela University of Chicago observam que girinos usam esse mesmo reflexo para respirar: eles engolem água e fecham a glote rapidamente para forçar o líquido a passar pelas brânquias, impedindo que entre nos pulmões em desenvolvimento.
Em nós, esse circuito neural foi conservado ao longo de milhões de anos, apesar de não respirarmos mais debaixo d’água. O “disparo” elétrico que causa o soluço em mamíferos é um eco desse antigo motor respiratório, provando que a evolução muitas vezes reaproveita ou simplesmente mantém estruturas antigas em vez de criar novos sistemas do zero.
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Por que o nervo vago é tão vulnerável?
Outra razão para a persistência dos soluços está na anatomia “desajeitada” dos nossos nervos, herança de nossos ancestrais peixes. Em peixes, o cérebro e as brânquias estão muito próximos, então os nervos têm um trajeto curto; já em humanos, o nervo vago e o frênico precisam viajar do crânio e pescoço até o diafragma, atravessando todo o tórax.
Essa longa jornada torna esses nervos suscetíveis a interrupções e irritações ao longo do caminho. Como destacado em publicações da Scientific American, qualquer coisa que interfira nesse longo “fio”, desde um estômago distendido até o estresse emocional, pode desencadear o curto-circuito que chamamos de soluço.

O soluço serve para alguma coisa em bebês?
Embora inútil para adultos, o soluço pode ter uma função vital no desenvolvimento infantil, ajudando o cérebro a aprender a controlar a respiração. Um estudo recente realizado pela University College London (UCL) descobriu que os soluços em recém-nascidos geram uma onda de sinais cerebrais que ajuda o bebê a mapear seu corpo e a fortalecer as conexões dos músculos respiratórios.
Além disso, existe a “Hipótese do Arroto”, que sugere que o soluço em mamíferos lactentes serve para expulsar o ar preso no estômago, permitindo que o bebê ingira mais leite. Isso explicaria por que os bebês passam cerca de 2,5% do tempo soluçando, muito mais do que qualquer adulto.
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O que fazer para parar uma crise comum?
Já que não podemos reescrever nossa evolução, a solução para parar os soluços envolve “resetar” os nervos vago e frênico através de estímulos físicos ou aumento de CO2 no sangue. A maioria das crendices populares (como levar um susto) tenta, sem saber, atingir esse objetivo biológico.
Métodos baseados em ciência para interromper o reflexo incluem:
- Prender a respiração: Aumenta o dióxido de carbono no sangue, o que pode relaxar o diafragma.
- Beber água gelada: O choque térmico estimula o nervo vago, interrompendo o ciclo do espasmo.
- Morder um limão: O sabor azedo intenso sobrecarrega os sensores nervosos da boca, distraindo o cérebro do soluço.
- Respirar em um saco de papel: Assim como prender a respiração, eleva o nível de CO2, forçando o corpo a priorizar a respiração normal.









