A ansiedade é um dos transtornos psicológicos mais comuns no mundo, e uma linha de pesquisa intrigante da psicologia sugere que o mês de nascimento pode ter relação com a predisposição a esse tipo de sofrimento emocional. Estudos sobre comportamento humano apontam que fatores ambientais durante a gestação, como exposição à luz solar, níveis de vitamina D e variações no cortisol materno, podem influenciar o neurodesenvolvimento fetal e, consequentemente, a saúde mental na vida adulta.
Quais meses de nascimento estão mais associados à ansiedade?
Pesquisas publicadas em revistas científicas de psicologia e psiquiatria indicam um padrão recorrente: pessoas nascidas nos meses de outono e inverno apresentam risco ligeiramente maior de desenvolver transtornos de ansiedade. Um amplo estudo populacional conduzido em Taiwan e validado por meta-análise global, publicado no periódico Psychiatry and Clinical Neurosciences, analisou mais de 1,9 milhão de pacientes e identificou que transtornos ansiosos seguem uma periodicidade de 12 meses, com picos de risco entre agosto e fevereiro.
No hemisfério sul, onde o Brasil está localizado, isso corresponde aproximadamente aos nascidos entre os meses de fevereiro e agosto, que vivenciam o período gestacional final durante o inverno. A relação entre comportamento humano e sazonalidade é complexa, mas os dados sugerem que certas condições ambientais durante a gravidez podem deixar marcas duradouras no funcionamento emocional.
Por que o período gestacional influencia o comportamento humano?
A explicação mais aceita pela psicologia envolve o conceito de “origens desenvolvimentais da saúde e da doença”. Durante a gestação, o feto passa por janelas críticas de neurodesenvolvimento nas quais fatores externos exercem impacto significativo. Existem alguns mecanismos que ajudam a explicar essa relação:
- Níveis de vitamina D materna: a menor exposição ao sol nos meses frios reduz a produção de vitamina D, nutriente essencial para o desenvolvimento cerebral do bebê.
- Cortisol elevado: uma pesquisa publicada na revista Psychoneuroendocrinology, conduzida pela Universidade de Cardiff, revelou que mulheres que dão à luz no outono e inverno apresentam níveis de cortisol salivar até 20% mais elevados do que aquelas que têm filhos na primavera e verão.
- Infecções sazonais: gripes e outras doenças respiratórias, mais frequentes no inverno, podem provocar respostas inflamatórias na mãe que afetam o desenvolvimento do sistema nervoso fetal.
- Alterações no relógio biológico: pesquisadores da Universidade de Vanderbilt demonstraram que o ciclo de luz ao qual o recém-nascido é exposto pode causar um “imprinting sazonal” no relógio biológico, com efeitos persistentes sobre o humor e a regulação emocional.

O que dizem as pesquisas mais recentes sobre ansiedade e mês de nascimento?
Um estudo publicado em 2025 no periódico PLOS Mental Health, conduzido por pesquisadores da Kwantlen Polytechnic University no Canadá, investigou a associação entre estação de nascimento e sintomas de ansiedade e depressão em 303 adultos. Os resultados mostraram que, embora a relação direta entre estação de nascimento e ansiedade não tenha sido estatisticamente significativa, foram observadas diferenças relevantes quando o sexo biológico foi considerado como variável. Homens nascidos na primavera e no verão apresentaram escores mais altos de sintomas depressivos, enquanto mulheres nascidas no inverno e na primavera tiveram níveis mais elevados de sofrimento emocional.
Essa pesquisa reforça uma ideia central da psicologia contemporânea: o comportamento humano resulta de uma interação complexa entre fatores biológicos, ambientais e sociais. O mês de nascimento é apenas uma peça nesse mosaico, mas pode funcionar como um marcador indireto das condições às quais o feto foi exposto durante a gestação. Para aprofundar o entendimento sobre esse tema, o estudo completo pode ser consultado na revista PLOS Mental Health, onde os autores detalham a metodologia e discutem as limitações dos achados.
Nascer em determinado mês significa que a pessoa será ansiosa?
É fundamental esclarecer que nenhuma pesquisa séria em psicologia afirma que o mês de nascimento determina o destino emocional de alguém. Os efeitos encontrados nos estudos são estatisticamente pequenos e representam apenas uma tendência populacional. A saúde mental de uma pessoa é moldada por uma combinação de fatores que inclui:
- Genética e histórico familiar de transtornos emocionais.
- Qualidade dos vínculos afetivos na infância e estilo de apego.
- Condições socioeconômicas, acesso à alimentação e moradia.
- Experiências de vida, traumas e nível de suporte social.
Um grande estudo europeu publicado na revista Scientific Reports, que avaliou mais de 72 mil adultos, concluiu que a estação de nascimento teve efeito praticamente nulo sobre sintomas de ansiedade e depressão na terceira idade. Os pesquisadores sugerem que melhorias no acesso à nutrição e aos cuidados pré-natais ao longo das décadas podem ter atenuado o impacto sazonal sobre a saúde mental.
Como cuidar da saúde mental independentemente do mês de nascimento?
A psicologia baseada em evidências oferece caminhos eficazes para quem convive com a ansiedade, independentemente de quando nasceu. A terapia cognitivo-comportamental, por exemplo, é considerada padrão-ouro no tratamento de transtornos ansiosos e pode ajudar a reestruturar padrões de pensamento disfuncionais. Práticas de autocuidado, exercício físico regular e técnicas de regulação emocional também são recursos valiosos.
Compreender como fatores do início da vida influenciam o comportamento humano é um avanço importante para a psicologia. Ainda que o mês de nascimento não defina quem somos, ele nos lembra de que o cuidado com a saúde mental começa antes mesmo do primeiro respiro, reforçando a importância de políticas públicas voltadas ao bem-estar materno e ao acompanhamento pré-natal de qualidade.










