Uma floresta ancestral com um cenário úmido e quase mágico se forma entre a vegetação densa da Ilha da Madeira, em Portugal, onde a neblina desliza pelos vales como uma cortina natural. Troncos centenários cobertos de musgo, samambaias gigantes e a atmosfera preservada da Floresta Laurissilva revelam o maior remanescente de um tipo de mata que, há milhões de anos, cobria o sul da Europa.
O que faz desta floresta uma verdadeira relíquia da natureza?
Há entre 15 e 40 milhões de anos, vastas florestas de loureiros se espalhavam pelo sul da Europa e pela região do Mediterrâneo. Com o avanço das eras glaciais, quase toda essa vegetação desapareceu do continente, restando apenas pequenos refúgios em áreas isoladas do Atlântico. Esses vestígios sobreviveram nos arquipélagos da Macaronésia, que incluem Madeira, Açores, Canárias e Cabo Verde.
Na Ilha da Madeira, a Floresta Laurissilva é o maior e mais bem conservado desses remanescentes. Conforme dados da UNESCO, cerca de 90% de sua área permanece em estado primário, ou seja, sem ter sido desmatada ao longo do tempo. Esse nível de preservação garantiu seu reconhecimento como Patrimônio Mundial Natural em 1999. O nome deriva do latim, unindo laurus (loureiro) e silva (floresta).

Quais espécies únicas vivem na Floresta Laurissilva?
A Floresta Laurissilva reúne uma biodiversidade rara, com ao menos 76 espécies de plantas e mais de 500 espécies de invertebrados que não são encontradas em nenhum outro lugar do planeta. Entre as árvores que formam o dossel da floresta estão espécies da família dos loureiros, como o til, o loureiro, o vinhático e o barbusano, muitas delas com exemplares que ultrapassam centenas de anos de idade.
Na fauna, o grande destaque é o pombo-trocaz, ave endêmica da Ilha da Madeira que desempenha um papel essencial no ecossistema ao se alimentar dos frutos e dispersar sementes pela floresta. Outro símbolo da região é o bis-bis, uma das menores aves da Europa e também exclusiva da ilha. De acordo com o Instituto das Florestas e Conservação da Natureza (IFCN), a população de pombos-trocaz já supera os 12 mil indivíduos.
O vídeo é do canal World Wonders, com mais de 37 mil inscritos, e exibe a natureza preservada e as trilhas desse patrimônio mundial:
O que são as levadas e por que elas atraem tantos visitantes?
As levadas são antigos canais de irrigação que começaram a ser construídos na Ilha da Madeira a partir do século XVI. O objetivo era simples e prático: transportar a água das áreas mais chuvosas do norte da ilha para o sul, que é mais seco. Junto a esses canais, foram abertos pequenos caminhos usados para manutenção, que com o tempo acabaram se transformando em rotas de caminhada.
Hoje, essas trilhas somam mais de 2.100 km e estão entre as mais conhecidas da região. Muitas delas atravessam a própria Floresta Laurissilva, oferecendo paisagens únicas. Como seguem a curva de nível do terreno, os percursos são, em geral, pouco inclinados, o que facilita as caminhadas até para quem não tem grande experiência em trilhas.

Quais trilhas fazer dentro da floresta?
Existem opções para todos os níveis. Algumas pedem lanterna (há túneis escuros) e calçado com boa aderência. Confira as mais procuradas.
- Vereda do Fanal: começa no planalto do Paul da Serra e leva até um bosque de tis centenários. Quando o nevoeiro envolve os troncos retorcidos, o cenário vira cena de filme de fantasia.
- Vereda dos Balcões: trilha curta e fácil a partir do Ribeiro Frio, com mirante sobre o vale da Laurissilva e os picos centrais da ilha. Boa opção para famílias.
- Levada das 25 Fontes (PR6): 8,6 km ida e volta, saindo do Rabaçal. Nível moderado. Termina numa lagoa alimentada por 25 nascentes que escorrem pela rocha. Dá para combinar com a Levada do Risco, cuja cascata despenca de 100 metros.
- Levada do Caldeirão Verde (PR9): 13 km ida e volta, saindo do Parque Florestal das Queimadas. Passa por quatro túneis escavados na pedra e termina numa cascata cercada de paredões verdes.

A floresta que ajuda a garantir o abastecimento de água da ilha
Com cerca de 15 mil hectares, a Floresta Laurissilva ocupa aproximadamente 20% do território da Ilha da Madeira. Ela se estende entre 300 e 1.300 metros de altitude, concentrando-se sobretudo nas encostas voltadas para o norte. Um dos aspectos mais impressionantes, segundo a Comissão Nacional da UNESCO, é a forma como o ecossistema capta água: mesmo sem chuva, o nevoeiro se condensa nas folhas, formando gotículas que escorrem até o solo e alimentam aquíferos subterrâneos responsáveis por abastecer a ilha.
Toda essa área está inserida no Parque Natural da Madeira e conta com diferentes níveis de proteção ambiental. Além de ser Reserva Biogenética do Conselho da Europa, também integra a rede Natura 2000 e possui um plano de gestão específico. Em 2024 e 2025, o Instituto das Florestas e Conservação da Natureza (IFCN) celebrou os 25 anos do reconhecimento pela UNESCO com atividades especiais, trilhas temáticas e eventos abertos ao público.
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Quando visitar e o que esperar do clima
A Madeira tem clima subtropical oceânico, com temperaturas agradáveis o ano inteiro. Dentro da floresta, a umidade costuma passar dos 85%, e o nevoeiro é frequente nas encostas norte. O período mais seco vai de junho a setembro.
Temperaturas aproximadas para o Funchal e zona de média altitude, com base no Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA). Dentro da floresta, pode fazer 5°C a 8°C a menos.

Como chegar à Laurissilva saindo de Funchal?
A partir de Funchal, capital da Ilha da Madeira, o acesso às principais áreas da Floresta Laurissilva é relativamente simples. O Rabaçal fica a cerca de 45 km, seguindo pela ER110; o Parque das Queimadas está a aproximadamente 35 km pela ER103; e o Ribeiro Frio é o ponto mais próximo, a cerca de 17 km. A opção mais prática para visitar esses locais costuma ser o aluguel de carro, embora também existam empresas que oferecem transfers e caminhadas guiadas com saída da cidade.
O Aeroporto da Madeira (FNC) conecta a ilha diretamente a Lisboa e a diversas cidades europeias, facilitando o acesso de turistas.
Uma floresta que existia antes da configuração atual da Europa
Explorar a Laurissilva é caminhar por um ecossistema que já existia muito antes de o continente europeu assumir sua forma atual. Entre a neblina, o som característico do pombo-trocaz, a luz filtrada pelas copas de loureiros e o aroma constante de terra úmida criam uma atmosfera difícil de reproduzir em imagens.
Com boas botas nos pés, basta seguir uma das levadas pelas encostas do norte da Madeira para entrar em uma floresta que atravessou milhões de anos e ainda resiste ao tempo.









