A primeira água do feijão parece inofensiva, mas concentra compostos que atrapalham sua digestão e reduzem o aproveitamento dos minerais do grão. Entender o que acontece nessa água muda completamente a forma como você prepara o feijão.
O que torna a água de molho do feijão problemática?
Durante o período de molho, o feijão libera fitatos e oligossacarídeos na água. Esses compostos são classificados como antinutrientes: eles não causam intoxicação, mas interferem no trabalho do seu organismo de formas bem específicas.
Os fitatos, por exemplo, se ligam a minerais como ferro e zinco dentro do trato digestivo, formando complexos que o corpo simplesmente não consegue absorver. O mineral está lá no prato, mas parte dele passa direto.

Quais são os antinutrientes que saem com a água?
Os dois compostos que mais justificam o descarte são os fitatos e os oligossacarídeos. Cada um age de forma diferente no organismo.
Os principais compostos eliminados com o descarte da água são:
- Fitatos (ácido fítico): reduzem a biodisponibilidade de minerais como ferro, zinco e cálcio ao formar quelatos insolúveis no intestino.
- Oligossacarídeos (rafinose e estaquiose): carboidratos que o intestino delgado não digere; chegam ao cólon intactos, onde as bactérias os fermentam e produzem gases.
A flatulência do feijão tem mesmo explicação científica?
Tem, e ela está diretamente ligada aos oligossacarídeos. O intestino delgado humano não produz a enzima necessária para quebrar rafinose e estaquiose. Esses carboidratos chegam intactos ao intestino grosso, onde a microbiota os fermenta.
Esse processo de fermentação é natural e esperado, mas produz volumes consideráveis de gás. Reduzir a quantidade de oligossacarídeos que entra no cozimento é a forma mais eficaz de diminuir o desconforto intestinal associado ao consumo de feijão.
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Descartar a água realmente aumenta o valor nutritivo do feijão?
Pesquisa da Embrapa Arroz e Feijão publicada em 2018 mostrou que o descarte da água de molho eleva a biodisponibilidade de minerais em até 30%. Isso significa que o ferro e o zinco presentes no grão passam a ser absorvidos em proporção maior pelo organismo.
Estudos registrados no PubMed reforçam que técnicas de pré-preparo em leguminosas, incluindo o molho com descarte de água, são estratégias validadas para melhorar o perfil nutricional real do alimento consumido.

Como fazer o molho corretamente para aproveitar esse efeito?
O procedimento é simples e não exige equipamento especial. O tempo e a temperatura da água influenciam a eficiência do processo.
Para obter o melhor resultado, siga estas etapas:
- Cubra o feijão com água em temperatura ambiente, na proporção de três partes de água para uma de grão.
- Deixe de molho por no mínimo 8 horas (ou uma noite inteira).
- Descarte completamente a água de molho antes de cozinhar.
- Cozinhe em água nova, sem reaproveitar o líquido do remolho.
Vale perder tempo com isso se você usa feijão enlatado?
O feijão enlatado já passa por processos industriais que reduzem parte dos antinutrientes. Mesmo assim, especialistas em nutrição recomendam escorrer e lavar os grãos enlatados antes do uso, pelo mesmo princípio: o líquido de conserva concentra compostos que não precisam ir para o prato.
O hábito de descartar a água, portanto, não é um ritual sem fundamento transmitido de geração em geração. É uma prática com respaldo científico que melhora simultaneamente a digestão e o aproveitamento nutricional do feijão, um dos alimentos mais consumidos no Brasil e com maior potencial de contribuir para uma dieta equilibrada.










