Não é misticismo nem coincidência estatística isolada. A correlação entre paciência e mês de nascimento aparece em pesquisas de temperamento afetivo com base bioquímica, e os meses identificados são agosto, setembro e outubro.
O que são temperamentos afetivos e por que eles importam?
Temperamentos afetivos são padrões estáveis de resposta emocional que persistem ao longo da vida e têm base neurobiológica. Diferente de humor ou personalidade situacional, o temperamento é influenciado por fatores genéticos e pelo ambiente pré-natal.
Um dos instrumentos mais usados para mapeá-los é o TEMPS-A, questionário que identifica cinco perfis temperamentais. Entre eles está o ansioso-evitativo, o perfil mais associado à cautela, reflexão antes da ação e tolerância à espera.

O que o estudo da Universidade Semmelweis encontrou?
A pesquisadora Xenia Gonda e colaboradores da Universidade Semmelweis, em Budapeste, aplicaram o TEMPS-A em 366 estudantes e cruzaram os resultados com a estação de nascimento. O estudo publicado no PubMed identificou correlações consistentes entre estação de nascimento e perfil temperamental.
Os principais achados foram:
- Nascidos no outono (agosto, setembro e outubro no hemisfério norte) apresentaram escores mais altos no temperamento ansioso-evitativo moderado
- Esse perfil moderado se manifesta como cautela, reflexão antes de agir e tolerância à espera
- Nascidos no verão mostraram escores mais altos em temperamento ciclotímico, com oscilações de humor mais frequentes
- Nascidos no inverno tiveram associação mais forte com temperamento depressivo
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Como o temperamento ansioso-evitativo se manifesta como paciência?
Em níveis elevados, esse temperamento está associado a transtornos de ansiedade. Em níveis moderados, porém, seus traços centrais são lidos socialmente como virtudes. A diferença está inteiramente na intensidade do perfil.
No dia a dia, quem tem esse temperamento em grau moderado tende a apresentar comportamentos como:
- Pausar antes de reagir em situações de pressão
- Tolerar períodos longos de incerteza sem perder estabilidade
- Avaliar riscos antes de decidir, em vez de agir por impulso
- Manter comportamento consistente em relações de longo prazo
Por que o mês de nascimento afetaria o temperamento?
A explicação proposta pela pesquisa é bioquímica. A estação em que a gestação ocorre influencia variáveis mensuráveis que afetam o desenvolvimento cerebral do feto.
Os fatores identificados nos estudos incluem:
- Exposição materna à luz solar e síntese de vitamina D
- Variação sazonal nos níveis de dopamina e serotonina
- Ambiente hormonal durante o desenvolvimento do sistema nervoso central
Essa correlação vale para o hemisfério sul?
Este é o ponto de atenção para leitores brasileiros. O estudo foi conduzido no hemisfério norte, onde agosto, setembro e outubro correspondem ao fim do verão e início do outono. No Brasil, esses meses têm estações invertidas: agosto e setembro ainda são inverno, outubro marca o início da primavera.
A transposição direta dos meses não é automática. O que o estudo identifica é a influência da estação, não do mês calendário. Para o hemisfério sul, os meses equivalentes ao outono do hemisfério norte seriam abril, maio e junho. A literatura ainda não tem estudos equivalentes conduzidos especificamente em populações brasileiras ou do hemisfério sul.

O que essa pesquisa diz e o que ela não diz?
A própria Xenia Gonda foi explícita sobre os limites: os efeitos são pequenos, a amostra era universitária e nenhuma recomendação prática pode ser extraída diretamente dos dados. O objetivo era investigar se a correlação existia, não prescrever comportamentos ou prever características individuais.
O que a pesquisa efetivamente mostra é que o ambiente sazonal do nascimento deixa rastros mensuráveis no temperamento. Paciência não é um traço que aparece do nada: tem história biológica, contexto de desenvolvimento e, ao que tudo indica, também tem estação do ano.









