Renato Russo tinha 17 para 18 anos quando escreveu “Que País É Este”. A música existia, era conhecida, e a banda a tocava nos shows havia anos. Mesmo assim, ele se recusava a gravá-la, e o motivo não era medo da censura. Era esperança. Ele acreditava que o Brasil ia melhorar a ponto de a canção virar obsoleta e não fazer mais sentido. Em 1987, cedeu. E o que o fez ceder não foi a política: foi o risco de outra banda gravar antes. Aqui está a história.
Quando ela foi escrita?
A data importa porque muda completamente a leitura da letra.
A música foi composta em 1978, quando Renato tinha 17 para 18 anos e ainda pertencia a outra banda, o Aborto Elétrico. Ou seja, ela é anterior à Legião Urbana, que só se formaria em 1982. A canção existe desde antes da banda que a tornou famosa.

Ela era secreta?
Não, e este é o ponto que desfaz o mito da gaveta trancada.
Quando a Legião Urbana se formou e começou a se apresentar fora de Brasília, em cidades como Rio e São Paulo, a banda incluiu a música no repertório dos shows. Ela era cantada ao vivo, o público conhecia. O que não passava pela cabeça de Renato era gravá-la e deixá-la eternizada em disco. A resistência era ao registro, não à execução.
Por que ele não queria gravar?
Aqui está a explicação, e ela veio do próprio autor, por escrito.
No encarte do disco, Renato Russo escreveu que a música nunca havia sido gravada antes porque sempre havia a esperança de que algo mudasse de fato no país, tornando a canção obsoleta. E completou: isso não aconteceu, e ainda era possível fazer a pergunta do título sem erro. Ele não guardava a música por medo. Guardava torcendo para que ela envelhecesse mal.
O que fez ele mudar de ideia?
A razão é bem menos poética do que a lenda sugere, e envolve concorrência.
Os fatores que destravaram a gravação:
- Pressão da gravadora, com a banda já fora do prazo contratual.
- O contrato exigia três discos em 36 meses, e o prazo estourou.
- Renato temia que o Capital Inicial gravasse as músicas antes.
- O Capital era formado por ex-membros do Aborto Elétrico.
- Faltava repertório inédito para um disco novo.
Por que o Capital Inicial era uma ameaça?
Porque as músicas do Aborto Elétrico não tinham dono claro, e os dois lados vinham da mesma origem.
Quando o Aborto Elétrico acabou, seus integrantes se dividiram: Renato foi para a Legião, outros fundaram o Capital Inicial. As canções daquela época, como “Que País É Este”, “Conexão Amazônica” e “Tédio”, ficaram no limbo. Renato se cobrava para gravá-las logo, antes que a outra banda o fizesse. Nove anos de espera terminaram por causa de uma corrida.
Que disco é esse?
O próprio nome do álbum entrega a natureza do projeto.
Ele se chama “Que País É Este 1978/1987”, e as datas são o recado: reúne canções compostas ao longo de nove anos. A ideia de um disco de inéditas foi abandonada em favor de uma espécie de antologia. O repertório foi completado com faixas do período em que Renato se apresentava sozinho com um violão, como Trovador Solitário, de onde saiu “Faroeste Caboclo”. O disco vendeu mais de um milhão de cópias.
Como a crítica recebeu?
Foi o primeiro disco da banda a não ter unanimidade, e o motivo era justamente a origem das músicas.
Conforme o registro sobre o álbum, ao contrário dos dois lançamentos anteriores, ele não alcançou unanimidade na crítica. Tárik de Souza, n’O Globo, e Arthur Dapieve, no Jornal do Brasil, foram simpáticos, ainda que reconhecendo tratar-se de repertório antigo e disperso. Outros críticos foram menos generosos. O disco que virou clássico foi recebido como colcha de retalhos.
O Brasil de 1987 justificava a música?
Justificava, e é isso que dá razão trágica à decisão de gravar.
O país tinha acabado de sair da ditadura, mas atravessava uma crise econômica severa: o governo Sarney enfrentava hiperinflação, que em 1987 chegou a 366,41% no ano e continuaria subindo por mais dois. A música escrita sob a ditadura seguia fazendo sentido numa democracia recém-nascida. Renato apostou que ela ficaria obsoleta e perdeu a aposta.

Por que ela nunca envelhece?
Porque a pergunta do título não tem resposta definitiva, e é essa a genialidade acidental.
A letra reflete o momento histórico de 1978, não o de 1987. Mas do jeito como foi escrita, serve para contar diversos momentos políticos do Brasil, inclusive recentes, quase cinquenta anos depois. É um texto que sobrevive trocando de contexto. E há uma ironia amarga nisso: o autor queria justamente o contrário. Esse desejo de que algo mude, atravessando gerações, é terreno que a psicologia observa nos processos de expectativa e frustração.
O que essa história ensina?
Que o valor de uma obra às vezes está no que ela denuncia sobre nós, não sobre ela.
Uma canção escrita por um adolescente de 17 anos continua respondendo por décadas de país. Ela não é boa porque envelheceu bem: é dolorosa porque não precisou envelhecer. Renato esperou nove anos por uma mudança que teria tornado sua música inútil, e teria preferido isso. A paciência dele foi de outra natureza, não a que o provérbio japonês descreve ao dizer que a água não corta a pedra pela força, mas a de quem esperava que a pedra se movesse sozinha.
O que convém lembrar sobre “Que País É Este”
Renato Russo escreveu a música em 1978, aos 17 anos, ainda no Aborto Elétrico, e a banda a tocava nos shows há anos: ela não estava escondida. Ele se recusava a gravá-la porque esperava que o Brasil melhorasse e a canção ficasse obsoleta. Cedeu em 1987 por pressão da gravadora e por temer que o Capital Inicial gravasse antes. O disco reuniu repertório de nove anos, dividiu a crítica e vendeu mais de um milhão de cópias.
Este conteúdo tem finalidade informativa e reúne informações públicas sobre a obra. Os versos da canção são protegidos por direitos autorais e não são reproduzidos aqui.




