Pixinguinha compôs “Carinhoso” por volta de 1917 e fez algo difícil de imaginar hoje: guardou a música na gaveta. Não por modéstia nem por acaso, mas porque tinha certeza de que ninguém aceitaria aquilo. A peça que hoje é chamada de segundo hino nacional brasileiro passou quase duas décadas esperando a letra que a tornaria cantável, e o primeiro letrista que tentou fracassou completamente. Aqui está a história de como uma música rejeitada virou patrimônio.
Por que Pixinguinha engavetou a própria música?
A razão é técnica, e ele mesmo explicou décadas depois, sem rodeios.
Em depoimento ao Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, em 1968, Pixinguinha contou que fez “Carinhoso” em 1917 e o encostou, porque o meio musical da época não admitia choro de duas partes: choro tinha que ter três. Nas suas palavras, tocar aquilo naquele ambiente era impensável, porque ninguém iria aceitar.

O que havia de errado com ela?
Nada, e esse é justamente o ponto. O problema era o tamanho da régua da época.
A música tinha duas partes em vez de três, o que a colocava fora do padrão. Pixinguinha, então com cerca de 20 anos, não se atrevia a contrariar o esquema adotado nos choros do período. A peça foi primeiro classificada como polca lenta, ou polca vagarosa, e só mais tarde passou a ser tratada como chorinho. Ela não cabia em nenhuma gaveta, então ficou na gaveta.
Ela era moderna demais?
Era, e a crítica da época registrou isso com desconfiança.
Quando “Carinhoso” finalmente apareceu em gravação instrumental, nos anos 1920, o efeito foi de estranhamento. O crítico de discos Cruz Cordeiro, da revista Phonoarte, observou que a introdução parecia um verdadeiro fox-trot e que a peça apresentava combinações de música popular americana. Era o que se chamava de “jazzificação” de Pixinguinha. A música que hoje soa como a essência do Brasil foi acusada de soar americana demais.
Quem tentou escrever a letra primeiro?
Aqui está o capítulo que a versão oficial costuma esquecer.
Segundo o biógrafo de Pixinguinha, Sérgio Cabral, o primeiro compositor a escrever uma letra para “Carinhoso” foi Benoit Certain, que chegou a cantá-la num programa de rádio. Não funcionou. A tentativa passou em branco e a música seguiu sem dono verbal. O nome que a história guardou veio depois, e por acidente.
Como a letra definitiva surgiu?
Foi encomenda de última hora, feita às pressas, e o motivo é quase banal.
Os fatos, conforme o relato do próprio Braguinha:
- Em outubro de 1936, o Teatro Municipal do Rio encenava o espetáculo “Parada das Maravilhas”.
- O evento era beneficente, promovido pela primeira-dama Darcy Vargas.
- A cantora Heloísa Helena pediu ao amigo Braguinha uma canção nova para marcar sua presença no palco.
- Ele não tinha nenhuma pronta e aceitou a sugestão dela: pôr versos no choro “Carinhoso”.
- Braguinha procurou Pixinguinha, que lhe mostrou a melodia no dancing Eldorado, onde estava tocando.
Quanto tempo levou para escrever?
Uma noite. E o pagamento foi ainda mais modesto que o prazo.
No dia seguinte, Braguinha entregou a letra a Heloísa Helena, que, segundo ele, ficou muito satisfeita e o presenteou com uma gravata italiana. Foi esse o preço da letra de uma das canções mais importantes da música brasileira. Ela nasceu escrita às pressas e sem maiores pretensões.
A Longa Espera: Cronologia de “Carinhoso”
Clique nas décadas para entender a trajetória deste patrimônio brasileiro:A letra é boa?
A resposta honesta é: nem é a melhor do autor, e mesmo assim mudou tudo.
Analistas costumam apontar que a letra de “Carinhoso” é simples e não alcança o melhor nível de João de Barro, autor de mais de 420 títulos. Mas foi fator primordial para a popularização da composição. A música moderna demais para 1917 finalmente encontrou o que faltava: alguém para cantá-la. Sem a letra, a peça provavelmente não teria alcançado tamanha popularidade.
Quando ela finalmente estourou?
A gravação tem data, selo e um intérprete no auge.
Em 28 de maio de 1937, Orlando Silva, o Cantor das Multidões, gravou “Carinhoso” em disco Victor. Foi a música mais tocada no ano do lançamento. Vinte anos depois de composta, a peça engavetada virou fenômeno. Em 1950 ganhou até versão em inglês, “Love Is Like This”, de Ray Gilbert, para o filme Romance Carioca.
Qual é o tamanho do legado?
Os números e os nomes falam sozinhos.
“Carinhoso” recebeu mais de duzentas gravações, passando por Dalva de Oliveira, Elizeth Cardoso, Elis Regina, Baden Powell, Paulinho da Viola e Marisa Monte. É chamada de segundo hino nacional e figura entre as canções mais lembradas pelos brasileiros. Vale notar a ironia: o que quase a matou, ser diferente do padrão, é exatamente o que a fez durar. Esse tipo de persistência silenciosa é o que descreve o provérbio japonês sobre paciência: a água não corta a pedra pela força, mas por insistir.

Afinal, ela é mesmo de 1917?
Convém uma ressalva honesta, porque a data mais repetida não é certeza.
O pesquisador José Silas Xavier, em programa do Instituto Moreira Salles dedicado à obra de Pixinguinha, explica as dificuldades de apontar o ano exato da composição, e admite que 1917, a data mais falada, pode não ser a verdadeira. Há até debate sobre quem assinou o arranjo da versão de Orlando Silva: Pixinguinha, Radamés Gnattali ou os dois. A música mais conhecida do país guarda mistérios básicos.
O que essa história ensina?
Que reconhecimento e qualidade raramente andam no mesmo horário.
Pixinguinha não guardou “Carinhoso” por achá-la ruim. Guardou porque sabia que o mundo à volta não estava pronto. Levou vinte anos, uma cantora com pressa, um letrista sem canção na gaveta e uma gravata italiana para que a peça encontrasse seu lugar. Quem constrói sozinho chega antes, mas quem espera o parceiro certo chega mais longe, algo que o provérbio árabe sobre construir com outros resume bem.
O que convém lembrar sobre “Carinhoso”
Pixinguinha compôs a música por volta de 1917 e a engavetou porque tinha duas partes, e o choro da época exigia três. Ela circulou instrumental nos anos 1920 e foi criticada por soar americana demais. Benoit Certain tentou escrever a primeira letra e fracassou. Só em 1936, a pedido de Heloísa Helena, Braguinha escreveu em uma noite os versos que a consagraram, e recebeu uma gravata italiana pelo trabalho. Orlando Silva gravou em 1937 e a canção virou a mais tocada do ano.
Este conteúdo tem finalidade informativa e reúne informações públicas sobre a obra. Os versos da canção são protegidos por direitos autorais e não são reproduzidos aqui.


