Uma perna só, um gorro vermelho e um cachimbo foram suficientes para transformar uma antiga lenda brasileira em marca de uma cidade inteira. Em Botucatu, no interior paulista, o Saci-Pererê deixou de ser apenas personagem de histórias contadas entre gerações e passou a ocupar espaço em eventos, pesquisas e iniciativas de preservação cultural. A cidade, localizada a cerca de 244 km de São Paulo, ganhou o título de Capital Nacional do Saci e mantém a figura folclórica associada às matas da Cuesta de Botucatu.
Como o Saci se tornou símbolo de Botucatu?
A ligação entre Botucatu e o personagem ganhou força a partir de iniciativas culturais desenvolvidas no fim do século XX. Projetos e eventos passaram a destacar o Saci como parte do patrimônio imaterial da região, enquanto a Associação Nacional dos Criadores de Saci (ANCS), fundada em 1990 por José Oswaldo Guimarães, assumiu a missão de preservar e divulgar a lenda do menino de uma perna só.
A mobilização ganhou novas iniciativas nos anos seguintes. Em 2003, surgiu o Observatório de Saci-Pererê e Lendas Folclóricas (O.S.A.C.I.), dedicado ao estudo do personagem, e, em 2004, a Lei Estadual nº 11.669 oficializou o Dia do Saci, celebrado em 31 de outubro. A cidade também realiza o Festival Nacional do Saci, que reúne shows, feiras, exposições e atividades culturais em torno do personagem.

Quais paisagens da Cuesta estão ligadas às lendas do Saci?
É nas áreas verdes que cercam Botucatu que o imaginário sobre os sacis ganha cenário. A tradição local coloca esses personagens nas matas da Cuesta de Botucatu, formação geológica que ajuda a cidade a ultrapassar os 800 metros de altitude. A própria ANCS mantém a curiosa tradição de criar pequenos sacis dentro de garrafinhas, enquanto o território ao redor reúne trilhas, quedas d’água e pontos de contemplação que podem ser visitados ao longo do ano.
Entre os lugares mais procurados estão a própria Cuesta de Botucatu, marcada por rochas de arenito e basalto, e a Cachoeira da Marta, cercada por vegetação e trilhas de dificuldade moderada. Dentro da área urbana, o Jardim Botânico Municipal Inocêncio Figueiredo oferece caminhos entre espécies nativas, enquanto a Rampa de Voo Livre, no alto da Cuesta, recebe praticantes de parapente e asa-delta nos fins de semana.
Onde encontrar as vistas mais bonitas do interior paulista?
O relevo acidentado transforma os pontos mais altos de Botucatu em verdadeiras janelas para o interior paulista. O Morro de Rubião Júnior é um dos principais mirantes, com vista panorâmica da região, enquanto as Três Pedras, também conhecidas como Gigante Adormecido, formam uma das paisagens mais reconhecíveis da Cuesta. A silhueta das rochas, que lembra um gigante deitado, alimenta o imaginário popular e as histórias associadas ao território.
Outras formações, como a Pedra do Índio e o Morro do Peru, completam os roteiros para quem deseja observar o relevo e a natureza local. Esses lugares também aparecem associados a narrativas sobre povos indígenas pré-cabralinos e ao Caminho do Peabiru, antiga rota que teria atravessado a América do Sul. Entre trilhas, mirantes e paredões rochosos, a paisagem ajuda a explicar por que Botucatu encontrou na própria Cuesta o cenário perfeito para manter vivas suas lendas.

O que fazer nos bairros rurais e no ecoturismo botucatuense?
Além do centro e das trilhas, Botucatu tem uma vocação rural que rendeu à cidade experiências únicas de ecoturismo, agricultura biodinâmica e produção agroecológica. Em 3 de dezembro de 2025, o município foi oficializado como Estância Turística de São Paulo pela Assembleia Legislativa, ampliando os investimentos no setor.
- Bairro Demétria: uma das primeiras experiências brasileiras de agricultura biodinâmica, com produção orgânica, feiras de produtores locais e iniciativas de educação ambiental.
- NUME Espaço Botânico: sítio a poucos quilômetros do centro que combina contato com a natureza e comercialização de produtos agroecológicos.
- Sítio Caliandras: propriedade rural que oferece cursos de apicultura, produção orgânica e oficinas para crianças e adultos.
- Polo Turístico Cuesta: rota criada em 2001 que integra Botucatu a municípios vizinhos como Anhembi, Avaré, Bofete, Itatinga, Pardinho e Conchas, rendendo roteiros de vários dias.
O que provar na gastronomia da Terra dos Bons Ares?
A cena gastronômica combina raiz caipira paulista, herança dos imigrantes italianos e alemães e a forte cultura de produção agroecológica dos bairros rurais. Restaurantes ficam concentrados no centro e nas estradas de acesso às propriedades rurais.
- Comida caipira: frango caipira, leitão à pururuca e arroz com pequi em restaurantes tradicionais, muitos com fogão a lenha.
- Massas artesanais: herança da colonização italiana da região, presentes em cantinas do centro histórico.
- Produtos orgânicos e biodinâmicos: pães artesanais, queijos, geleias e conservas produzidos no Bairro Demétria e em sítios da região.
- Doces caseiros: doce de leite, goiabada e paçoca, tradicionais das feiras de produtores locais.
- Café colonial: tradição paulista adaptada com produtos rurais botucatuenses, presente em cafeterias temáticas.

Como é o clima e a melhor época para visitar Botucatu?
O clima é tropical de altitude, com estações bem marcadas. Verão quente e chuvoso, inverno ameno com noites frias, temperatura média anual em torno de 20°C. Os ventos constantes deram à cidade o apelido de Terra dos Bons Ares.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
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Qual é o caminho para chegar à cidade do Saci?
Para quem sai de São Paulo, o trajeto de carro até Botucatu pode ser feito pela Rodovia Castello Branco (SP-280) e, depois, pela Rodovia Marechal Rondon (SP-300). São aproximadamente 244 km, em uma viagem que leva cerca de três horas. A localização central no estado também facilita o deslocamento para outros municípios que integram o Polo Cuesta.
A cidade recebe ônibus regulares vindos da capital e de diferentes pontos do interior paulista. Outra alternativa é desembarcar no Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas, a aproximadamente 190 km, e completar o percurso por estrada. Já o Aeroporto Estadual Domingos Pignatari, em Botucatu, atende principalmente a voos executivos.
Por que Botucatu se tornou inseparável do Saci?
Folclore, natureza e características próprias do território fizeram de Botucatu um destino com identidade difícil de reproduzir. A cidade é reconhecida como Capital Nacional do Saci, tem a Cuesta de Botucatu como um dos seus principais cartões-postais, reúne mirantes e áreas rurais ligadas à agricultura biodinâmica e possui ainda o título de Estância Turística do Estado de São Paulo. Em poucos lugares, ciência, tradição, fé e paisagem conseguem dividir o mesmo cenário.
O visitante encontra uma cidade onde a lenda do menino de uma perna só ultrapassou os livros e passou a fazer parte da cultura local. Caminhar pelas matas da Cuesta no fim do dia, observar o relevo e conhecer as histórias transmitidas pelos moradores ajuda a entender por que Botucatu, conhecida também como Cidade dos Bons Ares, transformou o Saci-Pererê em uma de suas marcas mais fortes.




