Poucas capitais brasileiras têm a origem tão colada à história ferroviária como Porto Velho. Fundada em 4 de julho de 1907 como acampamento dos operários da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, a capital de Rondônia é hoje o maior município capital do país em extensão e conserva às margens do Rio Madeira o complexo ferroviário que rendeu à obra o apelido de Ferrovia do Diabo.
Por que uma ferrovia deu origem a uma capital?
Porque a obra precisava de um porto de apoio na selva. Segundo a Governo do Estado de Rondônia, a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré foi acordada no Tratado de Petrópolis, assinado em 17 de novembro de 1903, entre Brasil e Bolívia para encerrar o litígio sobre o atual estado do Acre. O objetivo era escoar a borracha boliviana pelo Rio Madeira até o Amazonas, contornando as corredeiras que impediam a navegação.
A cidade nasceu como acampamento dos trabalhadores em torno da estação inicial da ferrovia, na cachoeira de Santo Antônio. Cresceu tão rápido que já em 1914 virou município, primeiro subordinado ao Amazonas, depois capital do Território Federal do Guaporé em 1943 e, finalmente, capital do estado de Rondônia quando o território foi elevado à categoria de estado em 1982.

Por que a ferrovia é chamada de Ferrovia do Diabo?
Pelas mortes na construção. Segundo o Governo do Estado de Rondônia, com informações do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), a obra empregou mão de obra indígena, nordestina, barbadiana e de várias nacionalidades em condições sanitárias extremas. Malária, febre amarela, beribéri e outras doenças tropicais mataram milhares de operários entre 1907 e 1912.
A alcunha vem de uma lenda popular que diz existir um homem morto para cada dormente assentado nos 366 km de trilhos entre Porto Velho e Guajará-Mirim. O empreendimento foi comandado pelo engenheiro norte-americano Percival Farquhar, mobilizou cerca de 30 mil trabalhadores e virou símbolo das obras de infraestrutura da era da borracha na Amazônia.
O que restou da ferrovia hoje?
Um complexo turístico às margens do rio. De acordo com a Prefeitura Municipal de Porto Velho, o Complexo Turístico da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré abriga a antiga estação, oficinas, locomotivas históricas e o Museu Ferroviário. A ferrovia foi desativada em 1972 após décadas de prejuízos e ficou abandonada até ser tombada pelo IPHAN em 2005.
Em julho de 2025, no aniversário de 118 anos da cidade, a Prefeitura retomou o tradicional passeio de barco Navegando pelas Origens, que sai do Complexo e percorre um trecho histórico do Rio Madeira. É a atração que sintetiza a origem da capital rondoniense e permite ver de perto os marcos que deram nome à cidade.
Quais atrações estruturam a visita?
O roteiro básico gira em torno do Rio Madeira e do centro histórico. Segundo o Governo do Estado de Rondônia, os principais pontos são:
- Estrada de Ferro Madeira-Mamoré: antiga estação, oficinas e locomotivas históricas do complexo tombado pelo IPHAN.
- Museu Ferroviário: acervo com documentos e objetos da construção da ferrovia e do ciclo da borracha.
- Memorial Rondon: complexo revitalizado às margens do Madeira que homenageia o Marechal Cândido Rondon.
- Mercado Cultural: prédio do início do século XX com boxes de comidas típicas, apresentações musicais e artesanato.
- Praça da Estrada de Ferro: com vista para o pôr do sol no Rio Madeira, um dos cartões-postais da cidade.
- Catedral Sagrado Coração de Jesus: templo histórico do centro urbano.
- Museu Internacional do Presépio: acervo com obras de mais de 50 países, um dos maiores do gênero no mundo.
- Passeio de barco no Rio Madeira: saídas do porto histórico, com trajeto rumo à ponte e à Usina de Santo Antônio.
O que provar na cozinha da fronteira amazônica?
A gastronomia porto-velhense combina peixes do Madeira, ingredientes amazônicos e temperos vindos da Bolívia, do Peru e do Nordeste brasileiro, resultado das ondas migratórias que ergueram a cidade. Alguns pratos e paradas típicas:
- Tambaqui assado: peixe amazônico servido na brasa, com farofa de banana e pirão.
- Tacacá: caldo indígena com tucupi, jambu e camarão seco, servido quente em cuia.
- Pato no tucupi: prato de raiz amazônica preparado com tucupi e jambu.
- Peixe frito com açaí: combinação regional servida com farinha de mandioca crocante.
- Salteñas bolivianas: espécie de esfiha caldosa herança da imigração boliviana, comum no comércio local.
- Café regional e sorvete de cupuaçu: paradas gastronômicas do Mercado Cultural.

Como chegar a Porto Velho?
A cidade é servida pelo Aeroporto Internacional Governador Jorge Teixeira de Oliveira, com voos diretos para Brasília, São Paulo, Manaus, Cuiabá e outras capitais brasileiras. Do aeroporto ao centro urbano são cerca de 8 km.
Por rodovia, o acesso principal é a BR-364, que liga a cidade a Cuiabá, no Mato Grosso, e segue até Rio Branco, no Acre, a aproximadamente 480 km. A BR-425 completa o acesso até Guajará-Mirim, na fronteira com a Bolívia. É a cidade brasileira com maior território entre as capitais, com mais de 34 mil km², o que exige planejamento para deslocamentos internos.
Uma capital que preserva o rastro da borracha
Porto Velho oferece o que raramente aparece em uma capital brasileira: origem cronologicamente registrada como acampamento ferroviário, um complexo tombado pelo IPHAN em pleno centro urbano e o segundo maior rio da Amazônia como fio condutor da história. É a cidade que carrega, em cada dormente preservado, o custo humano da ocupação da Amazônia no início do século XX.
Você precisa conhecer Porto Velho e reservar pelo menos três dias para atravessar a antiga estação, pegar um barco pelo Rio Madeira e provar tambaqui assado com vista para o pôr do sol amazônico.

