A água brota do chão a mais de 50 °C no meio do Cerrado, e quem chega a Caldas Novas pela primeira vez estranha o vapor que sobe das piscinas mesmo em noites de julho. A 170 km de Goiânia, a cidade goiana abriga o maior manancial hidrotermal do mundo.
Cães de caça numa lagoa escaldante em 1722
O bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva, o filho, encontrou nascentes quentes na fralda da serra enquanto procurava ouro em 1722. As fontes ficaram esquecidas por décadas. Em 1777, o paulista Martinho Coelho de Siqueira redescobriu o fenômeno durante uma caçada: seus cães uivaram ao entrar numa lagoa de água escaldante, a Lagoa de Pirapitinga.
Martinho ergueu sua casa às margens do Córrego das Lavras, construção que sobrevive até hoje dentro do Sesc Caldas Novas. A vila cresceu ao redor das fontes e do ouro. Em 1911, o povoado se emancipou de Morrinhos. O turismo ganhou força nos anos 1970, quando hotéis com piscinas termais começaram a transformar a Capital das Águas Quentes num dos destinos mais visitados do Centro-Oeste.

De onde vem o calor que aquece as águas?
Durante décadas, moradores acreditaram que um vulcão adormecido esquentava as nascentes. A explicação real é outra. A chuva que cai sobre a Serra de Caldas infiltra-se por fendas nas rochas sedimentares, desce a centenas de metros de profundidade e se aquece pelo contato com o gradiente geotérmico. Depois, retorna à superfície por diferença de pressão, com temperaturas entre 37 °C e 57 °C.
Esse processo leva décadas e garante um fluxo constante de água com propriedades terapêuticas. Em 2005, a Serra de Caldas Novas foi incluída entre os sítios geológicos mais importantes do Brasil pela Comissão Brasileira de Sítios Geológicos e Paleobiológicos. Em 2025, a NASA publicou uma imagem aérea da serra captada pelo satélite Landsat 9, descrevendo o oval coberto de Cerrado como um ecossistema rico em biodiversidade.
Caldas Novas é o paraíso das águas termais e diversão para todas as idades no coração de Goiás. O vídeo é do canal 3em3, que conta com mais de 270 mil inscritos, e detalha o diRoma Acqua Park, o Hot Park e a paz do Jardim Japonês:
Como é morar numa cidade que recebe milhões de turistas?
Caldas Novas alcançou 98.622 habitantes no Censo 2022, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), um crescimento de quase 40% em doze anos. O turismo aquece a economia o ano inteiro e mantém o comércio, a rede hoteleira e os serviços em constante expansão.
A altitude de 686 metros ameniza as noites e torna o clima mais agradável que o de boa parte do interior goiano. A infraestrutura de saúde atende não só os moradores, mas também a população flutuante de visitantes. Quem escolhe a cidade para viver encontra um ritmo tranquilo fora da alta temporada, com ruas arborizadas e custo de vida abaixo do praticado nas capitais da região.
O que fazer além dos parques aquáticos?
As piscinas termais são o cartão-postal, mas a Capital das Águas Quentes guarda opções que muitos turistas não chegam a conhecer.
- Parque Estadual da Serra de Caldas Novas (PESCaN): a mais antiga unidade de conservação de Goiás, criada em 1970, protege 12.315 hectares de Cerrado. Duas trilhas levam a cachoeiras de água fria, a Cascatinha (716 m) e a do Paredão (1,1 km), com mirantes a mais de 1.000 m de altitude. Entrada gratuita, conforme a Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (SEMAD).
- Lagoa de Pirapitinga (Lagoa Quente Park): nascente histórica onde a água chega a 57 °C. O “poço do ovo”, que cozinha um ovo em poucos minutos, é a atração mais curiosa do complexo.
- Lago de Corumbá: represa às margens da cidade, procurada para passeios de lancha, jet-ski e pesca esportiva.
- Jardim Japonês: projetado pelo paisagista Toshiyuki Murai nos anos 1980, reúne pontes arqueadas, lagos com carpas coloridas e uma das casas mais antigas da cidade.
- Santuário de Nossa Senhora da Salete: no Morro do Capão, oferece vista panorâmica de Caldas Novas e é procurado para meditação.

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Pequi no arroz e empadão na panela de barro
A mesa calda-novense carrega o tempero forte do interior goiano. O pequi domina os pratos principais, e quem nunca provou recebe um aviso dos locais: nunca morda o caroço, pois é recheado de espinhos minúsculos.
- Arroz com pequi: o clássico goiano, com aroma marcante e cor amarela intensa.
- Empadão goiano: torta salgada recheada com frango, linguiça, queijo e guariroba, o palmito amargo típico do Cerrado.
- Pamonha: doce ou salgada, feita de milho verde fresco, vendida em pamonharias espalhadas pela cidade.
- Peixe na telha: servido em restaurantes ao redor do Lago de Corumbá, com temperos regionais.

Quando o clima favorece cada tipo de programa?
O clima tropical quente permite aproveitar as termas em qualquer época. O inverno seco é a alta temporada: o contraste do ar fresco com a água quente torna o banho termal irresistível.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar à Capital das Águas Quentes?
Caldas Novas fica a 170 km de Goiânia pela GO-020, rodovia duplicada com viagem de cerca de 2h30. De Brasília, são 308 km pela BR-040 e GO-139. O Aeroporto de Caldas Novas (CLV) recebe voos regionais, mas a opção mais prática para quem vem de longe é voar até Goiânia e seguir de carro ou transfer.
Mergulhe na cidade que ferve de dentro para fora
Caldas Novas é rara por natureza: uma cidade inteira erguida sobre águas que a Terra esquenta há milhões de anos. A serra que alimenta as nascentes guarda trilhas, cachoeiras e um Cerrado que a NASA achou bonito o bastante para fotografar do espaço.
Você precisa sentir a água quente brotando do chão, provar o arroz com pequi num restaurante de beira de estrada e entender por que tanta gente escolheu Caldas Novas para ficar.










