Poucas cidades brasileiras concentram tantos títulos culturais e religiosos em tão pouco espaço. São Gonçalo do Amarante, no Rio Grande do Norte, é chamada de Berço da Cultura Popular pelo maior historiador potiguar, guarda o Monumento aos Santos Mártires canonizados pelo Papa Francisco em 2017, foi terra natal de Dona Militana considerada a maior romanceira do Brasil, e recebe quem chega ao estado pelo Aeroporto Internacional Aluízio Alves, o principal do RN.
Por que a cidade é chamada de Berço da Cultura Popular?
Por um título atribuído por autoridade máxima na área. Segundo a Prefeitura Municipal de São Gonçalo do Amarante, a denominação foi dada por Luís da Câmara Cascudo, o maior folclorista e historiador potiguar, autor do clássico Dicionário do Folclore Brasileiro. O reconhecimento se sustenta na densidade de manifestações que resistiram no município, como o Boi de Calemba Pintadinho, folguedo popular com mais de 100 anos de tradição, os Congos de São Gonçalo, o Bambelô da Alegria e uma cena viva de artesanato local.
Foi na cidade que nasceu Militana Salustino do Nascimento, conhecida como Dona Militana, considerada a maior romanceira do Brasil. Segundo a Prefeitura Municipal de São Gonçalo do Amarante, ela nasceu em 19 de março de 1925, no sítio Oiteiros, no distrito de Santo Antônio dos Barreiros, e foi descoberta pelo folclorista Deífilo Gurgel na década de 1990. Guardava mais de 55 romances ibéricos de tradição oral herdados do pai, o Mestre do Fandango. Em setembro de 2005, recebeu do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Ordem do Mérito Cultural, principal comenda cultural do país, entregue no Palácio do Planalto, em Brasília.

Como a cidade se tornou destino do Caminho dos Santos Mártires?
Pela história de dois massacres que originaram os primeiros santos brasileiros. Segundo o Vatican News, portal oficial da Santa Sé, no ano de 1645, durante as invasões holandesas no Nordeste, tropas calvinistas comandadas por Jacó Rabe massacraram fiéis católicos em dois episódios. O primeiro ocorreu em 16 de julho, na Capela de Nossa Senhora das Candeias, no antigo Engenho de Cunhaú (atual Canguaretama). O segundo aconteceu em 3 de outubro, na comunidade de Uruaçu, distrito de São Gonçalo do Amarante.
Os 30 mártires, incluindo os padres André de Soveral e Ambrósio Francisco Ferro e o leigo Mateus Moreira, foram beatificados pelo Papa João Paulo II em 5 de março de 2000 e canonizados pelo Papa Francisco em 15 de outubro de 2017, na Praça de São Pedro, em Roma. Os Santos Mártires de Cunhaú e Uruaçu são reconhecidos oficialmente como os Protomártires do Brasil, ou seja, os primeiros santos brasileiros, e padroeiros do Rio Grande do Norte. A festa litúrgica é celebrada em 3 de outubro, data do martírio de Uruaçu.
O que se encontra no Monumento aos Santos Mártires?
Um santuário aberto para peregrinação. Segundo a Prefeitura Municipal, o Monumento aos Santos Mártires foi erguido em 2002, na comunidade de Uruaçu, no local exato do massacre histórico. O complexo religioso inclui santuário, cruz monumental e área para as celebrações que reúnem milhares de fiéis durante as festividades de outubro.
O município integra o Caminho dos Santos Mártires, roteiro oficial de peregrinação com cerca de 300 km distribuídos por 11 municípios do Rio Grande do Norte. O trajeto passa por Canguaretama, Espírito Santo, Arez, Georgino Avelino, São José de Mipibu, Nísia Floresta, Parnamirim, Natal, Extremoz, Macaíba e São Gonçalo do Amarante, combinando pontos de fé, cultura e patrimônio regional.
Quais atrações estruturam o roteiro urbano?
O centro urbano concentra igrejas coloniais, casarões e monumentos culturais que compõem o roteiro cultural da cidade. Os principais pontos são:
- Igreja Matriz de São Gonçalo do Amarante: tombada pelo IPHAN em 1964, com frontão datado de 1882 e características que remontam ao barroco popular do fim do século XIX.
- Igreja Nova: fundada em 1867 por Joaquim Félix de Lima, dedicada à Imaculada Conceição, em estilo barroco.
- Casarão Olho d’Água do Lucas: construído em 1853, na metade do século XIX, em homenagem à família Lucas.
- Monumento ao Galo Branco: erguido em 2016, com 12 metros de altura, homenageia o símbolo do folclore norte-rio-grandense adotado nos anos 1950.
- Teatro Municipal Prefeito Poti Cavalcanti: inaugurado em 2003, com capacidade para 238 pessoas, é o principal templo cultural da cidade.
- Museu Municipal: preserva memórias de Dona Militana e do folclore local.

O que provar na cozinha tradicional da região?
A gastronomia combina peixes e crustáceos do estuário do Rio Potengi com a culinária sertaneja e a herança portuguesa. Alguns pratos essenciais:
- Camarão: pescado da região, servido em receitas locais como o casadinho e o na moranga.
- Galinha caipira: prato tradicional das mesas rurais, com dendê ou molho ferrugem.
- Carne de sol: preparo típico do sertão nordestino, servida com macaxeira, feijão-verde ou queijo coalho.
- Carneiro torrado: pedida frequente nos restaurantes de cozinha regional.
- Buchada: prato tradicional do interior do RN feito com o bode.
- Tapioca: iguaria da culinária indígena, servida em barracas e cafeterias.
Como chegar a São Gonçalo do Amarante?
A cidade fica a cerca de 18 km do centro de Natal, na Região Metropolitana da capital potiguar, com acesso principal pela BR-406. O município abriga o Aeroporto Internacional Aluízio Alves, também conhecido como Aeroporto de Natal, em operação desde maio de 2014. É o principal terminal aéreo do Rio Grande do Norte, com voos comerciais nacionais e internacionais.
De Natal, o trajeto de carro leva cerca de 30 minutos. A cidade também é servida por linhas municipais de ônibus que fazem a integração com a capital e com os municípios vizinhos da Grande Natal. Muitos visitantes combinam o roteiro cultural de São Gonçalo do Amarante com as praias urbanas da capital potiguar, como Ponta Negra, e com os passeios de dunas de Genipabu.
A cidade que une fé, folclore e chegada do estado ao mundo
São Gonçalo do Amarante oferece a combinação rara de patrimônio religioso reconhecido pelo Vaticano, folclore vivo preservado por gerações, terra natal da maior romanceira do país e a principal porta de entrada aérea do estado. É o município que mostra, sem depender apenas de sol e praia, a riqueza cultural do Rio Grande do Norte.
Você precisa reservar pelo menos dois dias em São Gonçalo do Amarante, começar pela peregrinação ao Monumento aos Santos Mártires em Uruaçu, seguir para o museu que preserva a memória de Dona Militana e terminar com uma refeição em algum restaurante do centro histórico com a carne de sol e a macaxeira típicas do interior potiguar.



