Poucas cidades brasileiras conseguem batizar um lanche nacional, formar o único astronauta do país e ainda receber a infância de Pelé em raio de poucas quadras. Bauru, a cerca de 330 km de São Paulo, é a exceção. Fundada em 1896 em pleno ciclo cafeeiro, a cidade emprestou o apelido de um estudante universitário ao Sanduíche Bauru em 1937, deu ao Brasil Marcos Pontes em 1963 e formou o Bauru Atlético Clube, onde o Rei do Futebol começou a carreira ao lado do pai Dondinho.
Como o sanduíche Bauru nasceu por acaso em 1937 e virou patrimônio imaterial?
A resposta começa em um bar do centro de São Paulo. Em 1937, o estudante de Direito Casimiro Pinto Neto, aluno da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, entrou no restaurante Ponto Chic, no Largo do Paissandu, e pediu ao chapeiro uma combinação sem precedente no cardápio: pão francês com o miolo removido, queijo derretido no banho-maria, fatias de rosbife, tomate e picles. Casimiro havia se inspirado no livreto Livro das Mamãezinhas, de Wladimir de Toledo Piza, sobre alimentação equilibrada em albumina, proteína e vitamina.
Um amigo que acompanhava a preparação virou-se para o chapeiro e pediu “me vê um desse do Bauru”, em referência ao apelido do próprio Casimiro, nascido na cidade paulista. O nome pegou e o lanche virou marca registrada do estabelecimento. Em dezembro de 2018, a Lei Estadual nº 16.914 declarou o Sanduíche Bauru patrimônio imaterial do estado de São Paulo. Poucos locais são autorizados a servir a receita original, entre eles o próprio Bar Ponto Chic e o Bar Skinão, em Bauru, que virou ponto turístico da cidade.

Por que o único astronauta brasileiro nasceu em Bauru?
A resposta está em uma trajetória iniciada no Jardim Bela Vista. Segundo o site oficial da Fundação Astronauta Marcos Pontes, Marcos Cesar Pontes nasceu em 11 de março de 1963, filho do servente Vergílio e da escriturária Zuleika Navarro Pontes. Aos 14 anos, começou a trabalhar como eletricista aprendiz na Rede Ferroviária Federal para custear os estudos.
Formou-se no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e virou piloto de caças na Força Aérea Brasileira (FAB), chegando ao posto de tenente-coronel. Em 1998, foi selecionado pela NASA para integrar o corpo de astronautas, tornando-se o primeiro brasileiro a conquistar essa posição. Em 30 de março de 2006, embarcou na nave russa Soyuz TMA-8, partindo do Cosmódromo de Baikonur, no Cazaquistão, e virou o primeiro cidadão da América do Sul a orbitar a Terra em uma missão espacial tripulada. Batizada de Missão Centenário em homenagem aos 100 anos do voo do 14-Bis de Santos Dumont, a viagem levou oito experimentos científicos brasileiros à Estação Espacial Internacional (ISS), onde Pontes permaneceu por oito dias e orbitou a Terra 155 vezes. Ele mais tarde tornou-se Ministro da Ciência, Tecnologia e Inovações (2019-2022) e senador por São Paulo.
O que ver no complexo ferroviário que fez de Bauru o maior entroncamento da América do Sul?
A resposta está em três décadas de expansão dos trilhos. Segundo a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, o desenvolvimento de Bauru foi marcado pela chegada da Estrada de Ferro Sorocabana em 1905, seguida pela Estrada de Ferro Noroeste do Brasil em 1906 e pela Companhia Paulista de Estradas de Ferro em 1910. Juntas, as três linhas transformaram a cidade no maior entroncamento ferroviário da América do Sul.
- Complexo Ferroviário de Bauru: tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico do Estado de São Paulo (Condephaat) em 2018, preserva a arquitetura das três estações e a memória do transporte de café, imigrantes e mercadorias entre o interior paulista e o Centro-Oeste do país.
- Museu Ferroviário Regional: fundado em 26 de agosto de 1989 na antiga estação, desativada para passageiros em 2001, abriga locomotivas a vapor, vagões, fotografias e documentos que narram a expansão do oeste paulista pelos trilhos.
- Bauru Atlético Clube: fundado em 1º de maio de 1919 como Luzitana Futebol Clube, foi o time onde Dondinho, pai de Pelé, foi campeão paulista do interior em 1946. Foi também o primeiro clube de futebol de Pelé, ainda nas categorias juvenis.
- Cultura ferroviária: a herança dos trilhos trouxe imigrantes japoneses, italianos e nordestinos que moldaram a cultura da cidade. O apelido Cidade Sem Limites nasceu no auge dessa expansão e ganhou força nos anos 1950.

Quais atrações naturais e culturais visitar em Bauru?
Além do circuito ferroviário e da história do sanduíche, Bauru mantém áreas verdes, marcos religiosos e curiosidades arquitetônicas que complementam o roteiro cultural. Boa parte fica em raio curto do centro.
- Zoológico Municipal de Bauru: reconhecido nacionalmente pela excelência no manejo da fauna e pelo programa de educação ambiental, uma das atrações mais visitadas do interior paulista.
- Jardim Botânico Municipal: ao lado do zoológico, mantém coleção de plantas nativas e exóticas, com trilhas ecológicas, lagos e espaços para observação da flora regional.
- Parque Vitória Régia: principal cartão-postal urbano, com lago artificial, anfiteatro a céu aberto e área verde ampla, frequentado por famílias nos fins de semana.
- Catedral do Divino Espírito Santo: na Praça Rui Barbosa, marco religioso do centro, com arquitetura imponente e vitrais coloridos.
- Torre Eiffel de Bauru: réplica em escala construída em 1978 em frente à Instituição Toledo de Ensino (ITE), virou marca visual da cidade e cenário de fotos.
- Templo Tenrikyo: sede missionária da religião no Brasil, destaca-se pela arquitetura oriental e reforça a herança dos imigrantes japoneses.
Onde provar o Bauru original e a gastronomia local?
A cena gastronômica de Bauru gira em torno do sanduíche que leva o nome da cidade, mas também combina raízes caipiras, herança dos imigrantes italianos e a influência japonesa consolidada no século XX.
- Bar Skinão: um dos poucos estabelecimentos oficialmente autorizados a servir o Sanduíche Bauru na receita original, com pão francês sem miolo, rosbife, queijo derretido, tomate e picles.
- Mercado Municipal: reúne produtos frescos, pratos típicos e uma boa amostra da culinária regional, com bancas de doces, embutidos e queijos.
- Culinária japonesa: herança da forte comunidade nikkei, presente em restaurantes especializados espalhados pelos bairros.
- Comida caipira: frango caipira, leitão à pururuca e feijão tropeiro em restaurantes tradicionais, muitos com preparo em fogão a lenha.
- Doces caseiros: goiabada, doce de leite e paçoca, herança do ciclo do café, vendidos em feiras e confeitarias do centro.
Como é o clima e a melhor época para visitar Bauru?
O clima é tropical de altitude, com verões intensos e invernos com noites mais frescas. A cidade fica a 537 m de altitude, e o inverno seco entre junho e agosto é uma das melhores épocas para visitar o zoológico, os parques e o Complexo Ferroviário.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.

Como chegar a Bauru?
De carro, o acesso a partir de São Paulo é pela Rodovia Castello Branco (SP-280), seguindo pela Rodovia Marechal Rondon (SP-300), com trajeto de cerca de 330 km e viagem média de quatro horas. A cidade fica em posição estratégica no interior paulista, com conexões diretas para Marília, Jaú e o oeste do estado.
Ônibus regulares saem várias vezes ao dia da capital paulista e de outras cidades do interior. Quem prefere avião pode desembarcar no Aeroporto Estadual Moussa Nakhl Tobias, o Aeroporto de Bauru-Arealva, com voos regulares para São Paulo e outras capitais, ou no Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas, com trecho final por rodovia.
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A cidade sem limites do interior paulista
Bauru reúne uma combinação difícil de encontrar em outro município brasileiro: a origem do sanduíche mais famoso do país, o berço do único astronauta brasileiro, o primeiro clube de futebol de Pelé e um complexo ferroviário que já foi o maior entroncamento da América do Sul. A cidade que cresceu sobre trilhos virou um dos polos culturais e educacionais mais importantes do interior paulista, com IDHM classificado como muito alto e vocação para o turismo científico.
Você precisa conhecer Bauru e provar um Sanduíche Bauru original no Bar Skinão, caminhar pelo Complexo Ferroviário ao entardecer e entender por que a cidade que batizou um lanche, formou um astronauta e viu Pelé começar no futebol continua sendo a Cidade Sem Limites do interior paulista.




