Quando o pescador trouxe os animais para análise, ninguém imaginava que aqueles tubarões carregariam uma marca tão incomum da poluição costeira. O caso aconteceu no Rio de Janeiro e envolveu uma espécie pequena, de hábitos próximos à costa. Dentro do laboratório, uma substância conhecida por circular entre pessoas apareceu em tecidos dos animais, levantando uma pergunta sobre o que chega ao mar.
O que os tubarões encontraram no ambiente costeiro?
A descoberta não significa que os tubarões estejam consumindo drogas como faria uma pessoa. Eles vivem em um ambiente onde resíduos podem chegar pela água e também podem entrar em contato com organismos contaminados. A espécie analisada permanece próxima da costa durante seu ciclo de vida, ficando exposta às condições ambientais da região onde vive.
Esse detalhe ajuda a colocar o achado em perspectiva. A presença da substância nos animais funciona como um sinal de que determinados contaminantes humanos conseguem alcançar a vida marinha. Não é uma história sobre tubarões “viciados”, mas sobre a capacidade de um ecossistema registrar aquilo que as cidades despejam, direta ou indiretamente, em suas águas.

Por que a cocaína pode chegar aos tecidos dos tubarões?
A cocaína e seu principal metabólito, a benzoilecgonina, podem chegar aos ambientes aquáticos depois de serem eliminados ou descartados e alcançarem sistemas de esgoto. Quando o tratamento não remove completamente determinados compostos, parte deles pode seguir para rios, canais e áreas costeiras. Animais que vivem nesses locais podem então entrar em contato com essas substâncias.
Pesquisas publicadas na revista Science of The Total Environment analisaram 13 tubarões-bico-fino-brasileiros coletados no litoral do Rio de Janeiro. Todos apresentaram cocaína nas amostras, enquanto 12 também tinham benzoilecgonina. O estudo, disponível no artigo científico original, foi o primeiro a relatar essas substâncias em tubarões de vida livre.
Quais sinais mostram que a contaminação chegou aos animais?
O resultado chama atenção principalmente porque os animais analisados não foram retirados de um ambiente experimental. Eles foram capturados por pescadores artesanais no Recreio dos Bandeirantes, entre setembro de 2021 e agosto de 2023. A análise encontrou cocaína tanto em músculo quanto em fígado, com concentração média maior no músculo, um tecido que pode acumular substâncias.
Alguns aspectos ajudam a visualizar o que foi encontrado:
Que papel o esgoto pode ter nessa contaminação?
Os pesquisadores consideram que uma das principais vias de exposição seja o lançamento de resíduos no ambiente marinho por esgoto, embora outras possibilidades também sejam discutidas. O estudo menciona, por exemplo, a possibilidade de contato com animais contaminados. Isso mostra por que um resultado positivo não permite apontar uma única origem para cada tubarão analisado.
Há também uma questão ecológica importante. Tubarões ocupam posições relevantes nas cadeias alimentares e podem ser usados como espécies sentinela para indicar alterações ambientais. A detecção da cocaína não prova, sozinha, que a substância esteja causando danos específicos à população estudada. Ela mostra, porém, que um contaminante associado à atividade humana chegou aos tecidos desses animais.

O que esse achado revela sobre a poluição do mar?
Para quem lê a notícia e imagina uma cena extraordinária no oceano, a explicação é bem mais cotidiana: o problema começa muito antes de o tubarão entrar em contato com a água contaminada. Resíduos humanos podem percorrer redes de esgoto, canais e rios até alcançar regiões costeiras. O animal acaba registrando parte dessa história ambiental em seu organismo.
O achado também ajuda a olhar a poluição marinha de maneira menos abstrata. O estudo analisou apenas 13 animais de uma espécie e de uma região específica, portanto não permite concluir que todos os tubarões da costa brasileira estejam contaminados. Ainda assim, mostra a utilidade do monitoramento ambiental para identificar substâncias que circulam silenciosamente entre áreas urbanas e ecossistemas marinhos.
