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Início Cidades

A “favela mais antiga do mundo” tem 9 mil anos, fica na Itália e virou cenário de Hollywood antes de entrar na lista da UNESCO

Por Maura Pereira
08/03/2026
Em Cidades, Turismo
Como a favela mais antiga do mundo se tornou uma das cidades mais fascinantes da Europa. / Créditos: depositphotos.com / MassimoParisi

Como a favela mais antiga do mundo se tornou uma das cidades mais fascinantes da Europa. / Créditos: depositphotos.com / MassimoParisi

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Sem água encanada, sem luz elétrica e com famílias dividindo grutas com animais de criação, os bairros-caverna de Matera já foram o maior assentamento precário da Europa. A cidade no sul da Itália atravessou milênios de ocupação, décadas de abandono forçado e uma reinvenção que a transformou em Patrimônio Mundial da UNESCO e Capital Europeia da Cultura, além de ser mencionada e conhecida como a “favela mais antiga do mundo”.

Por que Matera é chamada de favela mais antiga do mundo?

A ocupação dos Sassi di Matera remonta ao Paleolítico, por volta de 7000 a.C., segundo a UNESCO. A entidade classifica o lugar como o exemplo mais completo de assentamento troglodita do Mediterrâneo. Durante séculos, os moradores escavaram o tufo calcário às margens do desfiladeiro do rio Gravina e construíram uma cidade vertical onde o teto de uma casa era o piso da vizinha.

O sistema funcionou por milênios, mas o crescimento populacional entre os séculos XVIII e XIX trouxe superlotação. Famílias de até dez pessoas ocupavam uma única gruta ao lado de cabras e galinhas. Não havia rede de esgoto nem ventilação adequada. A malária se espalhava com facilidade. Até meados do século XX, os Sassi reuniam todas as características de um assentamento informal, só que com quase 9 mil anos de existência.

A “favela mais antiga do mundo” tem 9 mil anos, fica na Itália e virou cenário de Hollywood antes de entrar na lista da UNESCO
Matera é a prova de que um assentamento pode atravessar milênios, enfrentar o esvaziamento completo e renascer sem perder sua identidade. / Créditos: depositphotos.com / pandionhiatus3

O livro que expôs as cavernas ao mundo

Em 1935, o escritor e ativista Carlo Levi foi exilado pelo regime fascista na Basilicata e visitou Matera. O que encontrou virou o livro Cristo Parou em Éboli, publicado em 1945, que descreveu com crueza as condições de vida nas grutas. A obra colocou a cidade no centro do debate nacional sobre pobreza no sul italiano.

Na década de 1950, o primeiro-ministro Alcide De Gasperi visitou os Sassi e deu início a um plano de relocação. Cerca de 16 mil moradores foram transferidos para novos bairros com infraestrutura moderna. As cavernas ficaram vazias por quase trinta anos. A medida resolveu a questão sanitária e, sem querer, preservou intacta a arquitetura milenar dos Sassi.

Matera é um destino italiano fascinante que revela como a resiliência transformou a antiga “vergonha nacional” em um Patrimônio Mundial da UNESCO. O vídeo do canal Comer Rezar Viajar, que conta com mais de 71 mil inscritos, mergulha na história e o impressionante renascimento cultural da região:

Como a cidade-caverna se reinventou em quatro décadas

Nos anos 1980, artistas e antigos moradores começaram a reocupar as grutas abandonadas. Uma lei de 1986 formalizou o processo: quem bancasse uma reforma conservativa poderia habitar os espaços novamente. Currais viraram ateliês, depósitos de vinho se tornaram restaurantes e cisternas ganharam iluminação cenográfica.

Em 1993, a UNESCO inscreveu os Sassi e o Parque das Igrejas Rupestres como Patrimônio Mundial da Humanidade, o primeiro sítio do sul da Itália a receber o título. Em 2019, Matera foi escolhida Capital Europeia da Cultura, dividindo o posto com Plovdiv, na Bulgária. O turismo na região cresceu 176% entre 2012 e 2017. A tabela abaixo resume os marcos dessa transformação:

1945

Cristo Parou em Éboli

A obra de Carlo Levi tira a cidade do isolamento e atrai atenção nacional para a realidade dos Sassi.

1952

Relocação e Preservação

Moradores deixam as cavernas para novos bairros, mantendo a estrutura milenar preservada e intacta.

1964

Pasolini e o Cinema

O olhar artístico do diretor promove a redescoberta estética da paisagem rupestre de Matera.

1993

Patrimônio Mundial UNESCO

Consagração como o primeiro sítio da UNESCO no sul italiano, símbolo de resiliência e história.

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2004

A Paixão de Cristo

O longa de Mel Gibson traz projeção internacional definitiva, transformando a cidade em cenário bíblico.

2019

Capital da Cultura

O apogeu como Capital Europeia da Cultura impulsiona o turismo em 176% e consolida a economia local.

150 igrejas dentro da rocha e um set natural para Hollywood

Monges beneditinos e bizantinos transformaram dezenas de cavernas em templos entre a Alta Idade Média e o século XIX. São mais de 150 igrejas rupestres catalogadas na região, conforme o portal Italia.it. A Cripta do Pecado Original, com afrescos do período lombardo, é conhecida como a “Capela Sistina das igrejas rupestres”.

A paisagem atemporal também atraiu o cinema. Pier Paolo Pasolini filmou O Evangelho Segundo São Mateus nos Sassi em 1964. Mel Gibson usou as ruelas como Jerusalém em A Paixão de Cristo (2004), longa que arrecadou mais de 600 milhões de dólares. Em 2017, Matera virou a fictícia Themyscira em Mulher-Maravilha. E em 2025, Gibson retornou para rodar A Ressurreição de Cristo na mesma locação.

Matera foi do Paleolítico ao selo da UNESCO. / Créditos: depositphotos.com / Ragemax

Leia também: O Havaí Baiano ficou escondido por décadas e hoje abriga mais de 20 praias cercadas por Mata Atlântica.

O pão milenar com selo de origem protegida

A cidade conta sua história também pela gastronomia. O Pane di Matera recebeu o selo de Indicação Geográfica Protegida (IGP) e só pode ser produzido na província, com pelo menos 20% de trigo duro da variedade Senatore Cappelli e fermento natural feito com polpa de frutas frescas. A forma cônica reproduz o relevo da Murgia Materana, e um pão de 1 kg se conserva fresco por até sete dias.

Até os anos 1950, cada família marcava sua massa com um carimbo de madeira antes de levá-la ao forno comunitário. Muitos desses carimbos estão hoje no Museu Arqueológico Nacional Domenico Ridola. A culinária local preserva outros pratos da tradição camponesa:

  • Pane di Matera IGP: pão cônico de trigo duro com fermento de frutas, assado em forno a lenha.
  • Crapiata: sopa ancestral com grão-de-bico, lentilha, fava e trigo, símbolo da cozinha da Basilicata.
  • Peperoni cruschi: pimentões desidratados e fritos, crocantes e levemente adocicados.
  • Vinho DOC Matera: tintos encorpados de uvas Primitivo e Aglianico, cultivadas nas colinas ao redor da cidade.

A favela que virou patrimônio da humanidade

Matera é a prova de que um assentamento pode atravessar milênios, enfrentar o esvaziamento completo e renascer sem perder sua identidade. Do Paleolítico ao selo da UNESCO, das cisternas comunitárias aos hotéis-caverna, cada camada de rocha guarda um capítulo diferente da presença humana no Mediterrâneo.

Você precisa caminhar pelos Sassi ao entardecer, quando a luz dourada transforma o calcário em cenário de outro tempo, para entender como a favela mais antiga do mundo se tornou uma das cidades mais fascinantes da Europa.

Tags: Itáliamatera
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