Cidade pequena raramente aparece no topo de índice nacional. Gavião Peixoto, a 305 km de São Paulo e com menos de 5 mil habitantes, faz o oposto: superou os outros 5.569 municípios brasileiros no Índice de Progresso Social (IPS) Brasil 2026 pelo terceiro ano consecutivo. É o retrato de uma cidade que combinou emancipação recente, uma unidade da Embraer e uma rede pública sem fila de espera para tirar o interior paulista das estatísticas médias.
Como uma cidade tão pequena chegou ao topo do ranking?
Combinando renda alta com serviços urbanos completos. De acordo com o IPS Brasil, plataforma que aplica no país a metodologia do Social Progress Imperative em parceria com o Imazon, Gavião Peixoto obteve 73,10 pontos na edição de 2026, quase dez pontos acima da média nacional de 63,40. O ranking mede o progresso social a partir de 57 indicadores divididos em três dimensões: necessidades humanas básicas, fundamentos do bem-estar e oportunidades.
O diferencial da cidade está na dimensão de oportunidades. Segundo o IPS Brasil, o município recebeu 85,67 pontos em Acesso ao Conhecimento Básico e 90,40 pontos em Acesso à Informação e Comunicação, indicadores que refletem a cobertura da rede escolar e da infraestrutura digital. É um patamar que dificilmente aparece em cidades da mesma faixa populacional.

Por que a Embraer mudou a economia da cidade?
Porque destravou uma faixa de renda incomum para o interior. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o PIB per capita do município chegou a R$ 369.126,50 em 2023, um dos maiores do Brasil, resultado direto da unidade Embraer instalada no município em outubro de 2001.
A fábrica produz aeronaves militares e componentes de aviões civis, entre eles o cargueiro tático C-390 Millennium, o caça F-39E Gripen em parceria com a sueca Saab e o A-29 Super Tucano. Também abriga o Centro de Ensaios em Voo da Força Aérea Brasileira. O complexo tem a maior pista de pouso e decolagem das Américas, com 4.966 metros de extensão, exigida pelos testes de aeronaves.
Quais bairros concentram a moradia local?
A cidade cabe em uma tarde de caminhada e o mapa residencial se organiza em torno de perfis definidos. Alguns bairros que estruturam a oferta de moradia:
- Vila Industrial: próximo à unidade da Embraer, com moradias de funcionários e comércio voltado à cadeia produtiva do complexo.
- Jardim Europa: área de expansão residencial recente, com lotes maiores e construções modernas para famílias em busca de espaço.
- Nova Pauliceia: bairro tradicional que preserva casarões antigos e o traçado típico da cidade do interior paulista, além das famosas coxinhas gigantes.
- Centro: concentra igreja matriz, Prefeitura, Câmara Municipal, escolas e o comércio principal.

Como funcionam a educação e a saúde na prática?
Educação com resultados acima da média nacional, saúde de porte municipal com apoio regional. Segundo dados do IBGE 2022, 98,6% das crianças e adolescentes entre 6 e 14 anos frequentam a escola, e a rede municipal tem Ideb 6,8 nos anos iniciais do ensino fundamental, acima da meta nacional de 6,0.
Na saúde, a estrutura hospitalar é limitada. As Unidades Básicas de Saúde (UBS) atendem demandas de baixa complexidade e realizam pré-natal de baixo risco. Partos e procedimentos de maior complexidade são encaminhados para Araraquara, a cerca de 35 km, mas os recém-nascidos recebem registro civil como naturais de Gavião Peixoto. É a limitação típica de município pequeno, compensada pela proximidade com polos regionais.
De onde vem o nome da cidade e quando ela nasceu?
Do conselheiro Bernardo Avelino Gavião Peixoto, antigo proprietário das terras onde o povoado se formou às margens do Rio Jacaré-Guaçu. Segundo a Prefeitura Municipal de Gavião Peixoto, o núcleo colonial foi criado em 12 de janeiro de 1907, dentro de um projeto de interiorização habitacional do governo de São Paulo que também impulsionou Nova Europa e Nova Pauliceia.
O povoado virou distrito em 31 de outubro de 1912, com o nome de Nova Paulicéia, no município de Araraquara. Em 1924, a sede foi transferida para o povoado de Gavião Peixoto e o distrito assumiu essa denominação. A emancipação como município veio em 27 de dezembro de 1995, com instalação oficial em 1º de janeiro de 1997. É, portanto, um município jovem que viveu duas transformações econômicas em três décadas.
O que sustenta a segurança e o dia a dia?
Baixa densidade populacional combinada com pleno emprego. O município tem apenas 19,29 habitantes por km², segundo o IBGE, número minúsculo se comparado à média paulista. A economia diversificada entre a indústria aeroespacial e a agricultura (com destaque para laranja, cana-de-açúcar, uva e pecuária) sustenta um mercado de trabalho ativo e um comércio local voltado aos moradores.
O salário médio dos trabalhadores formais chega a 5,7 salários mínimos, patamar bem acima da média nacional, resultado direto da concentração de mão de obra qualificada na cadeia da Embraer. É esse conjunto que aparece nos indicadores do IPS Brasil na forma de saneamento amplo, ruas cuidadas e serviços públicos consistentes.

Como chegar a Gavião Peixoto?
A cidade fica a cerca de 305 km da capital paulista, com acesso principal pela Rodovia Washington Luís (SP-310) em conexão com a Rodovia Anhanguera e a Rodovia dos Bandeirantes. O trajeto de carro leva em torno de quatro horas.
Gavião Peixoto está entre dois polos educacionais e tecnológicos importantes do interior: São Carlos, sede da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), e Araraquara, com a Unesp. Essa proximidade amplia as opções educacionais e de serviços para os moradores.
O modelo que a cidade construiu em duas décadas
Gavião Peixoto oferece uma combinação rara no mapa brasileiro: menos de 5 mil habitantes, PIB per capita entre os mais altos do país, cobertura escolar praticamente plena e um vizinho industrial que injeta tecnologia aeroespacial no cotidiano. A cidade que tinha IDH abaixo da média nacional há duas décadas hoje figura no topo de todos os indicadores sociais federais.
É um dos poucos municípios brasileiros que provam, na prática, que investimento industrial estratégico combinado com gestão de serviços públicos pode reescrever o mapa social de uma pequena cidade do interior em menos de uma geração.




