Uma cidade do interior mineiro trocou a iluminação a gás pela eletricidade antes de o Brasil inteiro entender o que era uma turbina hidráulica. Em 5 de setembro de 1889, a poucas semanas da Proclamação da República, uma usina no Rio Paraibuna começou a gerar energia elétrica em larga escala para uma fábrica têxtil e para as ruas de Juiz de Fora, na Zona da Mata mineira. Foi a primeira grande hidrelétrica da América do Sul, e transformou a cidade no que ficou conhecido como a Manchester Mineira.
Como um industrial construiu a hidrelétrica pioneira da América do Sul?
A ideia foi de Bernardo Mascarenhas, industrial mineiro que já havia fundado a Companhia Têxtil Bernardo Mascarenhas em Juiz de Fora. Segundo a Prefeitura de Juiz de Fora, ele queria substituir o querosene que movia sua fábrica por uma fonte de energia mais estável, e viu no Rio Paraibuna a solução para dois problemas ao mesmo tempo: alimentar a indústria e iluminar as ruas da cidade, até então dependentes de gás.
Em 1888, Mascarenhas fundou a Companhia Mineira de Eletricidade junto com o banqueiro Francisco Batista de Oliveira, e no ano seguinte inaugurou a Usina de Marmelos Zero. A primeira experiência com a eletricidade aconteceu em 22 de agosto de 1889. Duas semanas depois, a inauguração oficial marcou o início da geração de energia comercial em larga escala no Brasil.

Por que o pioneirismo rendeu o apelido de Manchester Mineira?
A eletricidade barata atraiu novas fábricas para a cidade, num movimento comparável ao que a Manchester inglesa vivia com o vapor um século antes. Juiz de Fora se tornou o principal parque industrial de Minas Gerais no fim do século XIX, com fábricas de tecidos, cervejarias, curtumes e usinas de açúcar operando com máquinas elétricas antes de qualquer capital brasileira.
Segundo o Instituto Estrada Real, o pioneirismo consolidou dois apelidos que ainda circulam pela cidade: Manchester Mineira e Farol de Minas. Nas primeiras décadas do século XX, o crescimento industrial fez de Juiz de Fora a cidade mais rica e populosa do estado, superando Ouro Preto, então capital, e antecipando o papel que Belo Horizonte assumiria depois da inauguração.
Como a usina virou museu aberto à visitação?
O conjunto arquitetônico e paisagístico da usina foi tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA) em 28 de março de 2005. Segundo o registro do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), o local abriga o Museu Usina de Marmelos Zero, com acervo que inclui a mesa particular de Bernardo Mascarenhas, livros de ata dos primeiros acionistas da Companhia Mineira de Eletricidade, planta original da usina, contas de luz do fim do século XIX e uma réplica de um gerador Westinghouse como o utilizado na inauguração.
O prédio original conserva paredes em alvenaria de tijolo aparente sobre embasamento de pedra, cobertura em telhas francesas com beirais decorados por lambrequim e uma pequena torre quadrada. A Companhia Energética de Minas Gerais (CEMIG) incorporou o conjunto em 1980, e desde então mantém convênio com a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) para cuidar do acervo museológico.

O que a Marmelos representa hoje na geração de energia?
A usina original foi desativada quando novas expansões, batizadas Marmelos I, II e III, ampliaram a capacidade de geração ao longo do início do século XX. O conjunto hoje é operado como uma Pequena Central Hidrelétrica (PCH), com potência instalada de 4 MW, segundo a classificação atual da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL). É pequena para os padrões modernos, mas continua ativa mais de 130 anos depois da inauguração.
A comparação de escala explica o pioneirismo da obra. Os 250 kW gerados em 1889 pela Marmelos Zero seriam suficientes para pouco mais do que iluminar um shopping médio hoje, mas foram capazes de acender uma cidade inteira e movimentar uma fábrica em plena virada para a República.
O que mais visitar em Juiz de Fora?
A cidade guarda um dos acervos museológicos mais importantes do interior brasileiro, ligado ao ciclo do café e à belle époque mineira. As atrações se distribuem entre o centro histórico, os antigos casarões da elite cafeeira e os espaços culturais construídos no auge da industrialização.
- Museu Mariano Procópio: um dos mais completos acervos de história do Brasil, com pinturas, mobiliário imperial e objetos pessoais de Dom Pedro II.
- Cine-Theatro Central: casa de espetáculos inaugurada em 1929, referência arquitetônica da cidade.
- Museu Ferroviário: instalado na antiga estação, conta a história da Estrada de Ferro Central do Brasil.
- Parque Halfeld: praça central com jardins do início do século XX, símbolo do urbanismo da belle époque.
- Morro do Cristo: mirante com vista panorâmica da cidade, cercado pelas serras da Mantiqueira.
- Igreja Matriz de Santo Antônio: templo em estilo neoclássico no coração do centro histórico.
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Como é o clima de Juiz de Fora ao longo do ano?
A cidade fica em altitude entre 670 e 940 metros e tem clima tropical de altitude, classificado como Cwa por Köppen. Os verões são chuvosos e quentes, os invernos secos e frescos, com noites que raramente descem abaixo dos 10°C.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Uma cidade que acendeu antes do resto do continente
Juiz de Fora nasceu como parada do Caminho Novo, o traçado aberto pela Coroa Portuguesa para escoar o ouro de Minas até o porto do Rio de Janeiro. Um século e meio depois, quando os últimos fios de gás ainda iluminavam as capitais brasileiras, uma pequena usina no Rio Paraibuna acendeu as ruas da cidade e antecipou em anos a chegada da eletricidade em larga escala ao país. A Manchester Mineira devia parte da fama à indústria têxtil, mas a origem da modernização estava na água que virou luz.
Debaixo da torre quadrada de tijolo aparente na Estrada União e Indústria, o Museu Usina de Marmelos Zero preserva o gerador Westinghouse e as contas de luz do fim do século XIX que abriram, no Brasil, o ciclo da energia elétrica em larga escala.




