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A pequena cidade da Serra Gaúcha que produz mais uvas que qualquer outra da América Latina e mantém um idioma único

Por Maura Pereira
10/07/2026
Em Cidades, Turismo
A pequena cidade da Serra Gaúcha que produz mais uvas que qualquer outra da América Latina e mantém um idioma único

Monte Belo do Sul preserva a essência da imigração italiana de forma quase intocada, sendo o maior produtor de uvas per capita da América Latina. / Imagem ilustrativa

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No alto de uma colina da Serra Gaúcha, Monte Belo do Sul preserva uma das identidades italianas mais marcantes do Brasil. Com cerca de 2.700 habitantes, o município reúne milhares de hectares de parreirais, vinícolas familiares e uma paisagem que lembra vilarejos do norte da Itália. Integrante do Vale dos Vinhedos, a cidade se destaca pela produção de uvas, vinhos naturais e pela tradição mantida por gerações.

A colônia italiana que manteve o dialeto e a cultura vivos

A história de Monte Belo do Sul começou em 1877, quando 416 famílias italianas chegaram à região vindas de diferentes áreas do norte da Itália, incluindo Udine, Mantova, Veneza, Treviso e outras províncias. O município se tornou um caso raro de colonização formada exclusivamente por imigrantes italianos em sua origem, preservando costumes que continuam presentes no cotidiano.

O dialeto vêneto, as cantinas familiares e as festas comunitárias ainda fazem parte da rotina local. A tradição vitivinícola cresceu junto com a comunidade: em 1913, a Família Franzoni já produzia milhares de litros de vinhos e licores, mostrando que a relação entre a cidade e as uvas começou há mais de um século. Hoje, as certificações de Indicação de Procedência e Denominação de Origem do Vale dos Vinhedos reforçam a qualidade dos produtos feitos na região.

A pequena cidade da Serra Gaúcha que produz mais uvas que qualquer outra da América Latina e mantém um idioma único
Visite vinícolas, Piazza Schiavon e trilhas em Monte Belo do Sul: um refúgio sereno na rota dos vinhos italianos. / Créditos: depositphotos.com / lltrarbach

A terra dos espumantes que conquistou o Brasil

A vocação de Monte Belo do Sul aparece principalmente nos parreirais que cobrem as encostas da cidade. Dos 2.270 hectares cultivados, uma grande parte é dedicada a variedades nobres usadas na produção de vinhos de alta qualidade. O município se tornou um dos principais polos de uvas brancas do Rio Grande do Sul, matéria-prima essencial para espumantes finos que chegam a diferentes regiões do país.

Além da produção tradicional, a cidade ganhou destaque pelo movimento dos vinhos naturais, com pequenos produtores que apostam em práticas como agricultura biodinâmica e fermentações espontâneas. Essa busca por métodos menos industrializados transformou Monte Belo do Sul em uma referência para quem procura rótulos autorais e com identidade própria.

A tradição também aparece fora das garrafas. A Vinícola Monte Bello ficou marcada por registrar uma das primeiras marcas de vinho comercializadas no Brasil, enquanto a Tanoaria Mesacaza se tornou referência na fabricação artesanal de barricas de carvalho francês. Grandes produtores, como Chandon e Valduga, também utilizam uvas cultivadas no município para seus rótulos, reforçando a importância da pequena cidade no cenário vitivinícola nacional.

No documentário de Diogo Elzinga, a cidade é revelada como um lugar onde a tradição não é apenas para turistas, mas faz parte do cotidiano dos seus cerca de 2.700 habitantes:

O que fazer entre vinhedos e capitéis?

Monte Belo do Sul é destino de enoturismo e slow travel. As atrações ficam distribuídas entre o centro, as linhas rurais e as estradas que cortam os vinhedos.

  • Vinícola Calza: referência em espumantes de método tradicional e vinhos de boutique. Projeto de castas italianas com degustação.
  • Famiglia Tasca: museu que narra a história da imigração, com piquenique ao ar livre entre parreirais, sucos e geleias artesanais.
  • Casa Marques Pereira: nasceu de uma paixão familiar por vinho. Degustação de linhas Reserva, Gran Reserva e espumantes.
  • Tanoaria Mesacaza: ateliê onde se acompanha a fabricação artesanal de barricas de carvalho. Visita com agendamento.
  • Mirante de Monte Belo: na praça central, com vista panorâmica do Vale do Rio das Antas e de Bento Gonçalves.
  • Igreja Matriz de São Francisco de Assis: construída entre 1959 e 1965, com torres de 65 metros. Seus sinos foram adquiridos em Pádova em 1920 e se chamam Belina, Becker e Scalabrina.

A polenta que virou espetáculo na Serra Gaúcha

Em Monte Belo do Sul, a herança italiana vai muito além dos vinhedos. O maior símbolo dessa ligação aparece no Polentaço, evento que transforma um prato simples dos imigrantes em uma grande celebração comunitária. Durante a programação da Festa do Agricultor, moradores e visitantes acompanham o famoso “tombo da polenta gigante”, quando uma peça de 800 kg é virada de uma só vez diante do público.

A tradição representa a importância da polenta na história das famílias que colonizaram a região, alimento que atravessou gerações e permaneceu como marca da cultura local. Além do desafio gastronômico, a festa reúne apresentações musicais, concurso de esculturas feitas com polenta e outras atrações ligadas às raízes italianas.

O calendário cultural também inclui o Vieni Vivere la Vita Festival e a Festa de Abertura da Vindima, realizada entre janeiro e março, período em que os visitantes acompanham a colheita das uvas e experimentam o mosto recém-produzido. Na mesa, a tradição aparece em receitas como massas artesanais, galeto al primo canto, queijos coloniais, polenta frita e pratos preparados com os sabores da imigração italiana.

Uma pequena Itália no interior do Sul com apenas 2.600 moradores preserva sua cultura intocada e recebe turistas com hospitalidade
Monte Belo do Sul, RS, Vale dos Vinhedos com parreirais, mirante Dal Castel e colonização italiana preservada. / Créditos: depositphotos.com / lltrarbach

Leia também: A ilha portuguesa eleita 11 vezes seguida a melhor do mundo guarda uma floresta de 20 milhões de anos.

Quando ir a Monte Belo do Sul e como é o clima na serra?

O clima é temperado de altitude, com invernos frios e verões amenos. A vindima (colheita da uva) acontece entre janeiro e março. O inverno é ideal para degustações com fondue e sopas nas cantinas.

☀️ Verão
Dezembro a Fevereiro
16°C a 28°C
Temperatura
Época da Vindima. Participe da colheita e pisa das uvas, contemplando os vinhedos em seu verde mais intenso.
🌦️ Chuva Média
🍂 Outono
Março a Maio
10°C a 22°C
Temperatura
Clima ameno e romântico. Ideal para o tradicional Polentaço e para degustar os vinhos da safra nova nas vinícolas.
🌦️ Chuva Média
❄️ Inverno
Junho a Agosto
4°C a 16°C
Temperatura
O frio da serra convida às cantinas. Aproveite as fondutas e os vinhos encorpados à beira do fogão a lenha.
☀️ Chuva Baixa
🌸 Primavera
Setembro a Novembro
10°C a 23°C
Temperatura
Veja os parreirais em brotação e aproveite o céu limpo para visitar os mirantes com vista para o Vale dos Vinhedos.
🌦️ Chuva Média

Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar conforme a altitude.

Como chegar ao borgo italiano da Serra Gaúcha

Monte Belo do Sul fica a cerca de 170 km de Porto Alegre e está integrado ao Vale dos Vinhedos, próximo de Bento Gonçalves. O principal acesso é pela RS-444, estrada que corta paisagens de parreirais e conecta diferentes roteiros turísticos da região. O aeroporto com voos comerciais mais próximo é o Aeroporto Hugo Cantergiani, em Caxias do Sul, a aproximadamente 50 km.

Como as vinícolas e propriedades rurais ficam espalhadas pelo interior do município, o carro é praticamente indispensável para explorar a região. Algumas estradas de acesso são de chão batido, principalmente nas áreas mais afastadas, exigindo cuidado extra em períodos de chuva.

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Monte Belo do Sul mostra que uma cidade pequena pode carregar uma identidade gigante. Entre colinas cobertas por vinhedos, cantinas familiares e construções que lembram o interior italiano, o município preserva uma relação rara entre território, vinho e memória.

Quem visita a cidade encontra produtores que ainda recebem visitantes de forma próxima, moradores que mantêm o dialeto vêneto vivo e uma gastronomia que transforma receitas simples em símbolos culturais. Entre uma taça de espumante, uma fatia de polenta e a vista dos parreirais descendo pelo vale, fica evidente por que as famílias italianas que chegaram há mais de um século construíram ali uma das comunidades mais autênticas da Serra Gaúcha.

Tags: monte belo do sulSerra Gaúcha
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