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Início Cidades

A “pequena Itália” no Brasil, com apenas 2.700 moradores que está atraindo turistas de todo mundo, além de exportar 3 mil barris de vinho ao exterior

Por Maura Pereira
18/09/2026
Em Cidades, Turismo
A pequena cidade da Serra Gaúcha que produz mais uvas que qualquer outra da América Latina e mantém um idioma único

Monte Belo do Sul preserva a essência da imigração italiana de forma quase intocada, sendo o maior produtor de uvas per capita da América Latina. / Imagem ilustrativa

No alto de uma colina da Serra Gaúcha, Monte Belo do Sul preserva tradições trazidas pela imigração italiana e uma atividade artesanal que está desaparecendo no Brasil. Em um galpão da cidade, três gerações da mesma família continuam fabricando barris de carvalho manualmente, mantendo vivo há mais de 60 anos um ofício ligado diretamente à produção de vinhos.

Como uma família mantém viva a antiga arte de fabricar barris?

A história da Tanoaria Mesacaza começou na década de 1960, quando Miguel Arcângelo Mesacaza fundou a oficina. Atualmente, o trabalho é conduzido pelo filho Eugênio e pelo neto Mauro, ao lado de sete funcionários. A produção utiliza carvalhos francês e americano, além de madeiras brasileiras como castanheira do Pará, jequitibá-rosa, grápia e cabreúva.

A oficina também acumula uma relação estreita com grandes produtores de vinho. Somente para a Vinícola Miolo, já foram fabricadas mais de 3 mil barricas. Hoje, a capacidade chega a 30 barris de 225 litros por semana, com peças enviadas para os Estados Unidos, Escócia, Irlanda, Polônia, França e Bélgica. As visitas guiadas ao local precisam ser agendadas previamente.

Uma pequena Itália no interior do Sul com apenas 2.600 moradores preserva sua cultura intocada e recebe turistas com hospitalidade
Monte Belo do Sul, RS, Vale dos Vinhedos com parreirais, mirante Dal Castel e colonização italiana preservada. / Créditos: depositphotos.com / lltrarbach

Como Monte Belo do Sul se transformou em destino do enoturismo italiano?

Com aproximadamente 2.700 moradores, Monte Belo do Sul mantém cerca de 80% da população vivendo na área rural. A formação do município começou em 1877, quando 416 famílias originárias de Udine, Mantova, Cremona, Veneza, Vicenza, Treviso, Bérgamo, Modena e Belluno ocuparam as colinas da serra e deram origem a uma forte presença da cultura italiana.

A produção de uvas se tornou uma das marcas econômicas do município. Segundo a Secretaria de Turismo do Rio Grande do Sul, Monte Belo do Sul é a maior produtora de uva per capita da América Latina. A primeira vinícola registrada no estado, a Francioni, surgiu no município, enquanto a estrutura turística começou a ganhar forma somente em 2017, anos depois da emancipação de Bento Gonçalves, ocorrida em 1992.

Quais experiências valem entrar no roteiro entre vinhedos e cantinas?

Integrado ao Vale dos Vinhedos, Monte Belo do Sul reúne propriedades que trabalham com diferentes estilos de vinho e preservam elementos da colonização italiana. A região possui Indicação de Procedência e Denominação de Origem, enquanto os principais atrativos estão distribuídos entre o centro e as linhas rurais.

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  • Tanoaria Mesacaza: oferece visita guiada pela oficina familiar, showroom com diferentes tipos de madeira e venda de pequenas barricas como lembrança.
  • Vinícola Calza: recebe visitantes para degustações de espumantes elaborados pelo método tradicional e vinhos boutique, em uma construção que ocupa o antigo galpão Capoani, de 1995.
  • Famiglia Tasca: reúne um museu dedicado à imigração italiana, produção de sucos artesanais e área para piqueniques em meio aos parreirais.
  • Domínio Vicari e Faccin Vinhos: destaque na produção de vinhos naturais, elaborados sem o uso de aditivos químicos durante a vinificação.
  • Igreja Matriz São Francisco de Assis: suas duas torres, com 65 metros de altura, podem ser vistas de longe e dominam a paisagem da praça central.
Uma pequena Itália no interior do Sul com apenas 2.600 moradores preserva sua cultura intocada e recebe turistas com hospitalidade
Monte Belo do Sul, RS, Vale dos Vinhedos com parreirais, mirante Dal Castel e colonização italiana preservada. / Créditos: depositphotos.com / lltrarbach

Quais sabores preservam a herança italiana de Monte Belo do Sul?

A gastronomia de Monte Belo do Sul mantém características da culinária do norte da Itália e adapta receitas tradicionais aos ingredientes encontrados na serra. O dialeto vêneto ainda aparece nas conversas das cantinas, enquanto preparos transmitidos ao longo de gerações continuam chegando às mesas com referências que remetem à vida dos primeiros imigrantes.

  • Polenta brustolada: preparada na chapa de ferro até ficar tostada e servida com queijo derretido e copa.
  • Cappellacci di zucca: massa recheada com abóbora, acompanhada de manteiga e sálvia, especialidade do Francesco Trattoria.
  • Galeto al primo canto: frango jovem assado no espeto, tradicional nos finais de semana da serra e associado às influências mineiras e gaúchas da região.
  • Café colonial italiano: mesa generosa com pães, geleias, salames e queijos servida na Casa Biasotto, local que também foi cenário de um filme dirigido por Selton Mello.

Qual a melhor época para visitar a cidade dos parreirais?

O clima temperado de altitude tem invernos frios e verões amenos. A vindima, colheita das uvas, atrai visitantes entre janeiro e março, e o inverno enche as cantinas para fondues e sopas.

☀️ Verão
Dez – Fev
17-30°C
Média
É a época mais esperada do ano para vivenciar a Vindima e a tradicional pisa das uvas diretamente nos parreirais.
🍇 Colheita
🍂 Outono
Mar – Mai
11-25°C
Média
Com a queda das temperaturas, o destaque fica para o Polentaço e as diversas sessões de degustações de vinhos e queijos.
🧀 Gastronomia
❄️ Inverno
Jun – Ago
4-18°C
Média
O frio intenso convida para noites de fondue e visitas às históricas cantinas, aproveitando o aconchego da estação.
🍷 Cantinas
🌸 Primavera
Set – Nov
10-26°C
Média
A paisagem se renova com os vinhedos em brotação; momento perfeito para visitar os mirantes e fotografar a região.
🌱 Paisagens

Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.

Uma pequena cidade no Sul com apenas 2.600 moradores preserva até mesmo um idioma próprio e cultura rara no Brasil
Visite vinícolas, Piazza Schiavon e trilhas em Monte Belo do Sul: um refúgio sereno na rota dos vinhos italianos. / Créditos: depositphotos.com / lltrarbach

Leia também: Uma cidade gaúcha onde flamingos chilenos pousam após voar 8 mil km e o sol nasce no oceano.

Qual é o caminho para chegar a Monte Belo do Sul?

A pequena cidade da serra está a 18 km de Bento Gonçalves e aproximadamente 122 km de Porto Alegre, com acesso pelas rodovias BR-116 e RS-470. Para quem chega de outras regiões, o percurso costuma começar no Aeroporto Internacional Salgado Filho, seguido de um trajeto de carro pela Serra Gaúcha.

Uma viagem de três dias permite incluir Monte Belo do Sul, Bento Gonçalves e Garibaldi no mesmo roteiro, formando o triângulo do Vale dos Vinhedos. No interior do município, as estradas que passam pelos vinhedos são sinalizadas e, em sua maioria, contam com pavimentação asfáltica.

Onde a tradição dos barris ainda ecoa entre os parreirais?

Em poucos pontos do Brasil ainda é possível encontrar barris produzidos artesanalmente, e são ainda mais raros os lugares onde o visitante consegue acompanhar esse trabalho de perto. Entre os vinhedos e a igreja de torres altas, Monte Belo do Sul preserva uma atividade que integra o patrimônio material brasileiro.

A passagem pela Tanoaria Mesacaza ajuda a compreender a relação entre a produção de uvas e uma das práticas mais antigas ligadas à história do vinho. É ali que a cidade reconhecida pela maior produção de uva per capita da América Latina também mantém vivo um ofício ancestral da cultura vinícola.

Tags: monte belo do sulRio Grande do Sul
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