Em 1997, uma jovem paraense recém-formada em Ciências Contábeis leu num ônibus, em Belém, um folheto com duas palavras: conheça o mundo. Era o anúncio do concurso para a escola de oficiais da Marinha Mercante. Ela fez a prova, mas não por vocação: foi para acompanhar o irmão, que havia se inscrito. Doze anos depois, estava discursando no Píer Mauá como a primeira mulher a comandar um navio no Brasil. Aqui está como isso aconteceu.
Quem é Hildelene Lobato Bahia?
O ponto de partida dela não tinha nada a ver com o mar.
Hildelene formou-se em Ciências Contábeis pela Universidade Federal do Pará. Em 1997, prestou concurso para a Escola de Formação de Oficiais da Marinha Mercante, a EFOMM. Fez a prova apenas para acompanhar o irmão, que havia feito a inscrição. Ela integrou a primeira turma de mulheres a se formar na escola.

O que aconteceu em 28 de setembro?
A data entrou para a história da navegação brasileira.
Em 28 de setembro de 2009, aos 35 anos, Hildelene assumiu o comando do navio petroleiro Carangola, da frota da Transpetro, empresa de logística do Sistema Petrobras que opera a maior frota de petroleiros do Hemisfério Sul. Ela se tornou a primeira mulher a ocupar o posto mais alto da hierarquia marítima brasileira, que antes só era alcançado por homens.
O que ela disse na cerimônia?
Ela começou o discurso citando o folheto, e o resto fala por si.
Segundo o registro da solenidade, Hildelene abriu a fala lembrando a frase “conheça o mundo”, que lera doze anos antes num folheto dentro de um ônibus em Belém. Disse que, ali, como comandante, podia afirmar que conhecera o mundo: um mundo antes restrito a mapas e à imaginação, que tomou forma nas viagens pelo Brasil, Oriente Médio, Ásia, Europa e Caribe. E completou que, a bordo dos navios, conheceu um mundo quase totalmente masculino e ajudou a construir outro, onde a equidade de gêneros é fato.
Como foi o caminho até lá?
Não houve atalho. Foram doze anos subindo degrau por degrau.
A trajetória:
- 1997: presta o concurso da EFOMM, para acompanhar o irmão.
- 2001: já formada, é contratada pela Transpetro.
- 2003: passa em concurso e entra definitivamente no quadro da frota.
- 2009: assume o comando do Carangola.
- 2012: torna-se capitã de longo curso.
O que foi o navio da imediata?
Aqui está o apelido que resume sete anos de pioneirismo silencioso.
No navio Lorena, Hildelene passou sete anos decisivos. Tornou-se segundo e primeiro piloto, e depois a primeira mulher no Brasil a chegar a imediato, o segundo cargo na hierarquia de um navio. Foi também a primeira capitã de cabotagem. A embarcação acabou ficando conhecida como o navio da imediata. O apelido diz muito: ela era tão excepcional que virou a característica do barco.
O que ela comandava?
O Carangola não é embarcação simbólica, e a carga explica a responsabilidade.
O navio tem capacidade de 18 mil toneladas de porte bruto e transporta derivados escuros de petróleo entre portos da costa brasileira, uruguaia e argentina. Em 2012, ela assumiria o Rômulo Almeida, com capacidade de 47 mil toneladas de porte bruto, a quarta embarcação entregue por estaleiros brasileiros à Transpetro pelo programa de modernização da frota.
Quanto ela navegou?
Os números da folha de bordo dão a dimensão do preparo.
Ao assumir o comando, Hildelene já havia navegado 486 mil milhas, duas vezes e meia a distância da Terra à Lua. Foram 1.700 dias trabalhando no mar. Atravessou oito vezes o Estreito de Magalhães como encarregada da navegação do navio Lorena. Também esteve à frente da última viagem de um petroleiro gigante do Brasil a Cingapura e participou da docagem do navio Rodeio.
O que aconteceu no Golfo Pérsico?
Esta é a cena que melhor traduz o que significa ser pioneira.
Quando esteve no Bahrein, já como imediata, levou o navio ao estaleiro para reparos e percebeu que os trabalhadores locais ficaram surpresos ao ver uma mulher no comando do processo. O desfecho, contado por ela mesma, é o ponto central: eles ficaram tranquilos ao constatar que ela tinha qualificação para coordenar aquela ação. A competência resolveu o que o discurso não resolveria.

Ela parou por aí?
Não, e o pioneirismo virou padrão na carreira dela.
Em 2012, ao ser promovida a capitã de longo curso, tornou-se a primeira mulher no Brasil apta a navegar pelos mares do mundo inteiro, e não apenas na cabotagem. Em 2016, recebeu da Organização dos Estados Americanos o prêmio Mulher Destaque no Setor Portuário e Marítimo, na categoria de responsabilidade social e igualdade de gênero, na Cidade do Panamá, como única brasileira selecionada.
O que mudou depois dela?
A resposta está nos números da frota, e eles são eloquentes.
Até o ano 2000, a frota de petroleiros da companhia era um reduto masculino. O panorama começou a mudar sobretudo a partir de 2003. Hoje a empresa conta com mais de cem mulheres a bordo de seus navios, atuando como imediatas, oficiais de máquinas e de náutica, auxiliares de saúde, bombeadoras, eletricistas e auxiliares de convés. Uma porta que se abre raramente se fecha sozinha.
O que essa história ensina?
Que decisões enormes às vezes começam por motivos banais.
Ela não sonhava com o mar. Foi fazer uma prova por companhia, leu uma frase num ônibus e acabou atravessando o Estreito de Magalhães oito vezes. O que veio depois do acaso foi tudo menos acaso: foram doze anos de trabalho, 1.700 dias longe de casa e 486 mil milhas. É a diferença entre a sorte de começar e a constância de continuar, algo que o provérbio japonês sobre paciência descreve bem: a água não corta a pedra pela força. E a disposição de entrar num ambiente onde ninguém se parece com você é terreno que a psicologia estuda ao analisar hábitos de resiliência.
O que convém lembrar sobre Hildelene
Formada em Ciências Contábeis, ela prestou o concurso da Marinha Mercante em 1997 só para acompanhar o irmão, depois de ler “conheça o mundo” num folheto dentro de um ônibus em Belém. Foi da primeira turma de mulheres da EFOMM, tornou-se a primeira imediata do Brasil no navio Lorena, apelidado de navio da imediata, e em 28 de setembro de 2009 assumiu o Carangola, virando a primeira mulher a comandar um navio no país. Já havia navegado 486 mil milhas, duas vezes e meia a distância até a Lua.
Este conteúdo tem finalidade informativa e reúne informações públicas disponíveis na data de publicação. Hildelene Lobato Bahia é oficial da Marinha Mercante, carreira distinta da Marinha do Brasil.
