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A psicologia explica que pessoas que preferem mandar mensagem escrita em vez de áudio ou de ligação não são frias nem antissociais, mas escolhem um canal que deixa editar antes de enviar; num estudo de Chicago, 67% optaram pelo texto por um constrangimento que não se confirmou

Por João Victor
09/09/2026
Em Bem-Estar
Mulher hesita com o celular na mão antes de escolher entre ligar e escrever

Mulher hesita com o celular na mão antes de escolher entre ligar e escrever. Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.

Quando você precisa retomar contato com alguém de quem se afastou há anos, o que a sua mão procura primeiro: o teclado ou o botão de chamada? Pessoas que preferem mensagem escrita a áudio ou a uma ligação costumam responder isso quase sem pensar, e quase sempre a favor do teclado. A justificativa mais dita em voz alta é a praticidade: o outro lê quando puder e ninguém interrompe ninguém.

Existe uma segunda justificativa, menos confortável de assumir, que aparece quando o assunto fica delicado. Ligar expõe: a voz sai sem revisão, a pausa fica audível, a hesitação vira som. O canal escrito deixa reler, apagar e mandar só a versão que o remetente aprovou.

Esse cálculo foi testado por Amit Kumar, hoje na Universidade do Texas em Austin, e Nicholas Epley, da Universidade de Chicago, em dois experimentos publicados em 2021 no Journal of Experimental Psychology: General, volume 150, número 3, páginas 595 a 607, sob o título “It’s surprisingly nice to hear you”. Primeiro previam como seria a conversa; depois tinham de ter a conversa.

Por que tantas pessoas que poderiam ligar escolhem o teclado?

Toda conversa é uma aposta: pode render aproximação, pode render vergonha.

Kumar e Epley partem de um raciocínio de aversão a risco. Quando os dois canais aparecem lado a lado, o custo imaginado, o constrangimento, pesa mais na decisão do que o ganho imaginado, a sensação de ter reencontrado alguém. O meio mais íntimo passa a ser lido como o mais arriscado, e o menos íntimo vira padrão. Não é vontade menor de conversar: é uma conta feita antes da conversa, com números que ninguém volta para conferir. O hábito de ignorar a chamada e responder por escrito, aliás, já rendeu por aqui uma discussão sobre a ansiedade de falar sem tempo de preparo.

O que 200 estudantes de Chicago previram antes de retomar um contato?

Celular apagado sobre a mesa de madeira, ao lado de uma xícara
Celular apagado sobre a mesa de madeira, ao lado de uma xícara. Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.

O primeiro experimento foi de campo: a conversa aconteceria de verdade, na semana seguinte. Kumar e Epley recrutaram 200 estudantes da Universidade de Chicago e pediram que cada um pensasse em alguém de quem fora próximo e com quem não falava havia pelo menos dois anos. Antes de qualquer contato, cada um previu em escalas de 1 a 9 como seria reatar por telefone e por e-mail, e disse qual preferiria. Depois sorteava um papel de um pote com 200 fichas, metade telefone e metade e-mail, e ficava comprometido com o resultado.

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No artigo, os autores registram que 67% preferiram o e-mail. O constrangimento esperado no telefone ficou em 6,66, contra 4,89 no e-mail. E não era ignorância sobre o outro prato da balança: os mesmos participantes previram que se sentiriam bem mais reconectados por telefone, 6,08 contra 4,34. Dois terços escolheram, cientes disso, o canal que eles próprios apontaram como o mais fraco para reatar.

Quanto do constrangimento previsto realmente apareceu na conversa?

Uma semana depois, 120 pessoas deram notícia, e 103 delas, ou 51,5% do total, tinham de fato conseguido falar com o velho conhecido pelo canal sorteado. O constrangimento vivido no telefone ficou em 5,60, e o do e-mail, em 5,45, diferença que os autores registram como não significativa. O medo fora superestimado de um lado e subestimado do outro: o e-mail também constrange. Já a força do vínculo relatado se separou, 5,27 no telefone contra 4,62 no e-mail, dessa vez com significância estatística. O argumento do tempo tampouco se sustentou: 17,23 minutos ao telefone e 17,85 no e-mail. Prever o desconforto é barato; conferir a previsão é o que quase ninguém faz.

O resumo do artigo descreve o achado sem rodeio: interações que incluíram voz “criaram vínculos sociais mais fortes e nenhum aumento no constrangimento” quando comparadas às de texto.

O que aconteceu quando 302 desconhecidos conversaram em laboratório?

O segundo experimento trocou o velho amigo por um estranho e mudou uma peça do desenho.

Foram 302 participantes reunidos em pares nos laboratórios da Universidade de Chicago para uma versão do procedimento chamado fast friends, com cinco perguntas pessoais. Cada dupla foi sorteada para conversar por texto, por chat de voz ou por vídeo, e cada pessoa previa apenas o canal que lhe coubera, sem comparar. As previsões deram empate técnico: nenhuma diferença estatística entre os três canais, nem em conexão nem em constrangimento. Sem a comparação na frente, o canal sai do radar de quem prevê.

As experiências se separaram outra vez. Quem conversou com voz relatou ter conhecido melhor o parceiro, ter gostado mais dele e ter aproveitado mais a conversa do que quem ficou no texto, sem aumento de constrangimento. O vídeo não acrescentou nada em relação ao áudio puro, o que dá à voz um papel próprio. E todos erraram na mesma direção: o constrangimento previsto ficou em 5,08 e o vivido, em 3,37. Em entrevista publicada pela agência de notícias da Universidade do Texas em Austin, Kumar resume que as pessoas se sentem mais conectadas por meios com voz, mas carregam medos de constrangimento que as empurram para o texto.

Onde entra a autoapresentação seletiva que Walther descreveu em 1996?

A explicação do que o canal escrito oferece a quem escreve é bem mais antiga. Em 1996, Joseph B. Walther publicou na revista Communication Research, volume 23, número 1, páginas 3 a 43, o artigo “Computer-Mediated Communication: Impersonal, Interpersonal, and Hyperpersonal Interaction”, que apresentou o modelo hiperpessoal da comunicação mediada, catalogado na base de pesquisa em educação mantida pelo Departamento de Educação dos Estados Unidos. A ideia central: o texto pode soar mais intenso que o presencial porque o remetente controla o que sai. Três recursos fazem isso:

  • Edição antes do envio: dá para escrever, apagar e reescrever até a frase ficar do jeito que se quer ser lido.
  • Assincronia: o tempo de resposta é do remetente, e uma pergunta difícil pode esperar meia hora.
  • Menos pistas involuntárias: sem tom de voz e sem pausa, some o que o corpo entrega sem permissão.

Walther descreve um funcionamento de canal, não um tipo de pessoa. Vale a mesma cautela ao esticar os resultados: o primeiro experimento comparou telefone com e-mail, e os autores anotam que esses meios diferem também em sincronia, não só em voz contra texto. O áudio gravado do celular, centro da discussão no Brasil, é o caso híbrido que nenhum dos experimentos testou, porque tem voz e ainda permite regravar. Sobre o custo de falar sem revisão, o CB Radar já discutiu os limites da linguagem em uma conversa impulsiva.

O que convém lembrar sobre a preferência por mensagem escrita?

Separe os dois tipos de mensagem antes de decidir o canal. Para o que é operacional, endereço, horário, número de conta, o texto ganha por registro e precisão. Para reatar um vínculo parado ou tratar de algo que mexe com a relação, a previsão de constrangimento é a parte menos confiável da conta: no dado de Chicago, o incômodo antecipado no telefone foi maior que o vivido, e o e-mail constrangeu quase igual. Se for testar, observe o próprio termômetro no fim da ligação, não antes dela. Repare também no relógio: nos dois canais a interação levou cerca de 17 minutos, então economia de tempo raramente é o motivo real.

Quem escreve em vez de ligar não é uma pessoa fria nem antissocial, mas alguém guiado por uma previsão sobre o canal, e previsão se corrige com experiência. O registro de sempre: este texto é informativo e reúne dois experimentos publicados em periódico revisado por pares mais um modelo teórico da comunicação, nenhum deles feito para medir traço de personalidade. Se o desconforto de falar passar a organizar a rotina e limitar contatos importantes, quem avalia isso é alguém habilitado em saúde mental, e nenhum artigo ocupa esse lugar.

Tags: comunicaçãopsicologiaRelacionamentosUniversidade de Chicago
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