Crianças pequenas nem sempre conseguem colocar em palavras tudo o que lembram de uma experiência. Um recurso simples pode ajudar: pedir que desenhem o que aconteceu antes ou durante a conversa. Em estudos com crianças de 5 e 6 anos, o desenho esteve associado a relatos com mais informações, mostrando que a memória infantil pode ganhar apoio quando a expressão não fica restrita à fala.
Por que o desenho pode ajudar crianças pequenas a recuperar lembranças?
Quando uma criança tenta contar algo vivido, lembrar não depende apenas de saber o que aconteceu. Ela também precisa organizar acontecimentos, selecionar detalhes e transformá-los em palavras. O desenho oferece outra forma de representar a experiência, permitindo que objetos, pessoas, lugares e ações apareçam no papel enquanto a lembrança é reconstruída durante a conversa.
Esse recurso pode ser útil quando a criança hesita, muda de assunto ou afirma não lembrar de um detalhe. Ao desenhar, ela pode representar uma parte da situação e continuar falando. A imagem funciona como apoio à recuperação da lembrança, sem significar que tudo o que aparece no papel seja uma reprodução exata do ocorrido.

O que pesquisas com crianças de 5 e 6 anos mostram sobre esse recurso?
A possibilidade de desenhar pode ser especialmente relevante quando a criança precisa falar sobre uma experiência passada. Em vez de depender exclusivamente da linguagem verbal, ela ganha uma forma adicional de representar aquilo que recorda. Essa combinação pode facilitar a comunicação de informações que estavam difíceis de organizar ou expressar apenas pela fala.
Pesquisas registradas pela National Library of Medicine avaliaram 125 crianças de 5 e 6 anos que participaram de uma experiência e foram entrevistadas um mês depois. As crianças que tiveram oportunidade de desenhar durante a entrevista forneceram mais informações sobre o acontecimento do que aquelas que apenas responderam verbalmente, independentemente do nível socioeconômico.
Por que conversar enquanto a criança desenha pode trazer mais informações?
Os resultados sugerem que o benefício não está apenas no ato de desenhar, mas também na oportunidade de usar o desenho como ponto de partida para perguntas abertas e não sugestivas. Quando a criança mostra uma pessoa, objeto ou parte do cenário, o adulto pode pedir que conte mais sobre aquilo, sem indicar qual resposta deveria aparecer.
Essa diferença é importante porque uma entrevista cuidadosa precisa separar apoio à lembrança de indução de respostas. Perguntas abertas, pausas e escuta atenta ajudam a criança a conduzir o relato. O papel do adulto é facilitar a comunicação, não preencher lacunas por ela, especialmente quando o assunto envolve acontecimentos delicados ou situações que podem ter consequências importantes.
Veja a seguir um vídeo do YouTube do canal Juliana Rubio, que aborda a importância do desenho infantil como uma ferramenta fundamental de comunicação na infância:
Quais elementos do desenho podem ajudar a criança a organizar melhor aquilo que lembra?
Uma proposta simples pode favorecer a expressão sem exigir que a criança produza um desenho elaborado. O objetivo é criar espaço para que ela represente livremente aquilo que recorda e depois fale sobre o que colocou no papel. Alguns elementos podem servir como pontos de partida:
Que cuidados tornam o desenho mais útil sem influenciar a memória infantil?
Em contextos familiares, escolares ou clínicos, o desenho pode ser usado como uma porta de entrada para a conversa, respeitando o ritmo da criança. Em situações envolvendo suspeitas de violência, conflitos ou questões legais, porém, a condução precisa ser ainda mais cuidadosa e seguir métodos profissionais apropriados para entrevistas infantis, sem pressionar a criança e preservando sua segurança.
A principal contribuição prática dessa estratégia está em ampliar as possibilidades de expressão. Uma criança que encontra dificuldade para explicar pode conseguir mostrar, representar e depois contar o que recorda. O recurso não serve para fabricar lembranças, mas pode ajudar a recuperar informações que estavam difíceis de acessar pela fala, quando utilizado de maneira adequada.
