Imagine olhar para o céu e enxergar não apenas estrelas, mas um passado distante, quando o universo ainda estava “se organizando”. Foi assim em 2026, quando astrônomos observaram o Abell2744-QSO1, um quasar extremamente distante visto com o Telescópio Espacial James Webb. O que mais chama atenção é um buraco negro supermassivo surgindo em um universo ainda jovem, levantando uma dúvida intrigante: em alguns lugares, o buraco negro pode ter se formado antes da própria galáxia?
O que torna o buraco negro de Abell2744-QSO1 especial
Abell2744-QSO1 é visto como era cerca de 700 milhões de anos após o Big Bang, um intervalo muito curto na escala do cosmos. Nessa fase, os cientistas esperavam encontrar apenas galáxias “em crescimento” e buracos negros pequenos, mas os dados mostram algo bem diferente: um buraco negro supermassivo com cerca de 50 milhões de massas solares, um verdadeiro recordista em crescimento precoce.
Esse grande descompasso entre o tamanho do buraco negro e o porte do sistema em volta é um dos pontos mais comentados. Em galáxias mais próximas, o buraco negro costuma ser só uma pequena fração da massa total, mas em QSO1 ele representa uma parte enorme do que existe ali, sugerindo que cresceu rápido demais em comparação com o restante da estrutura, desafiando os modelos de formação tradicionais.

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Como o Telescópio James Webb revelou esse buraco negro distante
Para enxergar QSO1, o James Webb contou com uma ajudinha da própria natureza: o objeto está atrás de um aglomerado de galáxias que funciona como uma lente gravitacional. A gravidade desse aglomerado desvia e amplia a luz que vem de trás, como uma lupa cósmica, deixando o quasar mais visível e permitindo medições bem detalhadas desse sinal extremamente fraco.
Com essa luz amplificada, os pesquisadores usaram um espectrógrafo para separar a luz em cores e estudar o movimento do gás ao redor do centro de QSO1. Ao medir se o gás se aproxima ou se afasta, e a que velocidade, é possível estimar a massa do objeto que domina a região — e os números apontam para um buraco negro realmente gigantesco, cujo campo gravitacional molda todo o ambiente próximo.
No vídeo abaixo do canal NASA Goddard, é mostrado a galaxia em discussão:
O buraco negro de Abell2744-QSO1 surgiu antes da galáxia
Um dos aspectos mais curiosos em QSO1 é a composição do gás ao redor do buraco negro. Os dados mostram um ambiente dominado por hidrogênio e hélio, elementos que surgiram pouco depois do Big Bang, enquanto elementos mais pesados, produzidos no interior das estrelas, aparecem em quantidade bem menor do que se esperaria em uma galáxia mais evoluída.
Isso indica que a região é “jovem” do ponto de vista químico, mas já abriga um buraco negro desenvolvido, o que contrasta com os modelos clássicos. Em vez de muitas estrelas massivas vivendo e morrendo antes da formação de um grande núcleo, parece que uma parte importante da massa do sistema caiu de forma mais direta em um único buraco negro, num processo de acréscimo muito mais eficiente do que o visto em épocas posteriores.

Principais hipóteses para explicar um buraco negro tão grande tão cedo
Para tentar explicar esse crescimento tão rápido, os cientistas trabalham com alguns cenários que fogem um pouco da ideia de evolução lenta e gradual. Essas hipóteses ajudam a imaginar caminhos diferentes para a formação de buracos negros gigantes no universo jovem, sugerindo que existiram várias rotas de origem para esses objetos extremos.
- Colapso direto: nuvens enormes de gás poderiam perder estabilidade e desmoronar quase de uma vez, formando um buraco negro já muito massivo, sem passar por várias gerações de estrelas.
- Buracos negros primordiais: objetos hipotéticos criados por flutuações extremas de densidade nos instantes iniciais do universo, que poderiam servir como “sementes” já bem grandes para o crescimento rápido, influenciando desde cedo a formação de estruturas em grande escala.
- Alimentação intensa: períodos em que o buraco negro engole grandes quantidades de gás em pouco tempo, acelerando seu crescimento em relação ao restante da galáxia, talvez ultrapassando até o chamado limite de Eddington em fases mais turbulentas.
O que Abell2744-QSO1 muda no entendimento da formação de galáxias
A presença de um buraco negro tão massivo em um universo ainda em formação sugere que galáxias e seus núcleos podem seguir mais de um caminho de evolução. Em muitos casos, a galáxia cresce primeiro e o centro acompanha, mas QSO1 indica que, às vezes, o buraco negro pode surgir cedo e influenciar tudo ao redor, regulando ventos, jatos e a própria taxa de formação de estrelas.
O James Webb já encontrou outros objetos pequenos e avermelhados em regiões muito distantes, que podem esconder histórias parecidas. À medida que novas observações forem estudadas, será possível saber se Abell2744-QSO1 é um caso raro ou se faz parte de uma população maior — o que obrigaria os modelos de evolução cósmica a incluir cenários em que, em certos cantos do universo primordial, o buraco negro veio antes da galáxia completa, alterando nossa visão da cronologia do cosmos.








