Na Coreia do Sul, a diferença salarial entre homens e mulheres chama atenção por permanecer muito acima da média internacional. Em 2023, o indicador chegou a 29,3% entre trabalhadores em tempo integral. Um novo estudo, porém, aponta uma fotografia diferente no início da carreira: entre recém-formados, a diferença condicional estimada fica perto de 4%, sugerindo que a distância cresce ao longo da vida profissional.
O que significa uma diferença salarial de 29,3% na Coreia do Sul?
A taxa de 29,3% mede a distância entre os ganhos medianos de homens e mulheres que trabalham em tempo integral. É um indicador amplo, útil para comparar países e acompanhar tendências, mas não significa que duas pessoas com a mesma formação, ocupação e experiência recebam necessariamente valores 29,3% diferentes pelo mesmo trabalho.
O dado ganha outra dimensão quando a carreira é observada desde a entrada no mercado. Recém-formados tendem a ter trajetórias mais parecidas em idade e experiência, enquanto diferenças ligadas a setor, cargo, jornada e responsabilidades familiares ainda estão menos acumuladas. Por isso, comparar esse grupo ajuda a localizar quando a desigualdade salarial aumenta.

Por que a diferença salarial pode ser menor entre recém-formados?
A diferença não surge necessariamente inteira no primeiro emprego. Ao longo dos anos, escolhas ocupacionais, promoções, tamanho das empresas, interrupções profissionais e responsabilidades familiares podem separar trajetórias que começaram relativamente próximas. Na Coreia do Sul, esse processo é especialmente relevante porque a distância salarial geral continua sendo a maior entre os países da OCDE.
Pesquisas recentes do economista Dongwoo Kim indicam que, entre recém-formados universitários sul-coreanos, a diferença salarial condicional ficou em torno de 4,3% no período de 2008 a 2019. O estudo também estima que ela caiu de 5,0% para 3,0%, enquanto a distância aumenta várias vezes entre trabalhadores em fases posteriores da carreira, especialmente entre os mais bem remunerados.
Por que a diferença salarial pode crescer depois da entrada no mercado?
Uma possível explicação está na combinação de decisões profissionais e condições do mercado. Setores, empresas e ocupações oferecem salários diferentes, e a progressão também depende de promoções, permanência no emprego e acesso a posições de maior remuneração. Quando essas diferenças se acumulam durante anos, uma pequena distância inicial pode se transformar em uma diferença ampla.
Na Coreia do Sul, a passagem para os 30 anos é particularmente relevante para as trajetórias de trabalho das mulheres. Dados da OCDE mostram uma diferença crescente nas taxas de emprego por gênero nessa fase da vida. O mesmo período pode concentrar decisões relacionadas à família, deixando marcas sobre continuidade profissional, experiência acumulada e oportunidades de avanço.
Veja a seguir um vídeo do YouTube do Canal Foco, que apresenta um trecho de um debate sobre a questão da disparidade salarial entre homens e mulheres:
Que fatores podem ampliar a diferença salarial ao longo da carreira?
Quando os dados são ajustados para características observáveis, a diferença inicial fica bem menor que o indicador bruto. Isso não elimina desigualdades no mercado de trabalho, mas muda a pergunta central: em vez de perguntar apenas quanto homens e mulheres ganham, passa a ser importante observar em que momento as trajetórias começam a se afastar.
Alguns indicadores podem ajudar a acompanhar essa transformação ao longo da carreira:
O que a diferença entre 29,3% e 4% revela sobre o mercado de trabalho?
Os dois números respondem a perguntas diferentes. Os 29,3% representam uma medida não ajustada da diferença salarial mediana entre homens e mulheres em tempo integral. Já a estimativa de cerca de 4% procura comparar recém-formados levando em conta características observadas e mecanismos de seleção. Portanto, os indicadores podem coexistir sem que um invalide o outro.
A distância entre os números é justamente o ponto mais importante. Ela sugere que olhar apenas para uma fotografia do mercado pode esconder mudanças ocorridas ao longo da carreira. A desigualdade salarial pode ser pequena na entrada e muito maior depois, especialmente quando oportunidades, escolhas ocupacionais e vínculos profissionais passam a divergir entre os grupos.
