Agendar atendimentos, solicitar documentos e acompanhar benefícios pelo celular pode eliminar deslocamentos e reduzir esperas. Entretanto, a mesma transformação que torna serviços mais rápidos para parte da população cria obstáculos para quem não tem conexão, equipamento adequado ou familiaridade com aplicativos. No Brasil, a digitalização avança enquanto milhões de pessoas ainda precisam de caminhos acessíveis para resolver demandas essenciais com autonomia e segurança.
Por que um serviço digital pode continuar difícil mesmo para quem possui celular?
Ter um smartphone não significa conseguir concluir qualquer procedimento pela internet. Alguns serviços exigem cadastro, reconhecimento facial, envio de documentos e confirmação por códigos recebidos em outros aplicativos. Para quem utiliza um aparelho antigo, dispõe de poucos dados móveis ou não domina essas etapas, uma tarefa aparentemente simples pode se transformar em sucessivas tentativas.
A dificuldade também aparece na linguagem dos formulários e na organização das telas. Instruções pouco claras, arquivos com tamanho específico e mensagens de erro sem orientação tornam o processo cansativo. A inclusão digital não depende apenas de disponibilizar um aplicativo; o serviço precisa ser compreensível e utilizável por públicos com experiências e recursos diferentes.

O que os números revelam sobre quem ainda fica fora dos serviços online?
A expansão da conectividade é real, mas não elimina diferenças entre grupos sociais e regiões. Pessoas que vivem em áreas com sinal instável, têm menor familiaridade tecnológica ou dependem de equipamentos compartilhados podem encontrar obstáculos adicionais. Mesmo entre usuários frequentes da internet, acessar redes sociais não significa necessariamente saber realizar cadastros complexos ou recuperar uma conta bloqueada.
Segundo o IBGE, 17,7 milhões de brasileiros com 10 anos ou mais não utilizaram a internet nos três meses considerados pela pesquisa de 2025. Entre essas pessoas, 44,9% apontaram não saber utilizar a rede como principal motivo. Os dados mostram que ampliar a cobertura não resolve, sozinha, as barreiras de utilização dos serviços digitais em diferentes contextos.
Em quais situações a digitalização pode criar novos obstáculos no cotidiano?
A promessa de praticidade depende de etapas que nem sempre aparecem na divulgação dos serviços. Um atendimento pode começar pelo celular, mas exigir senha, fotografia de documento ou conexão estável para ser concluído. Quando essas condições não estão disponíveis, a pessoa pode precisar procurar ajuda ou recorrer a canais alternativos para finalizar sua solicitação.
Entre os problemas que podem surgir durante o uso de serviços digitais, destacam-se:
Quais dificuldades podem surgir no acesso aos serviços digitais?
Seis situações que mostram como exigências tecnológicas, limitações de acessibilidade e problemas de conexão podem dificultar procedimentos importantes do cotidiano.
| Situação | Dificuldade enfrentada |
|---|---|
| 01 Agendamento de consultas | Plataformas que concentram vagas pela internet podem dificultar o acesso de quem não consegue navegar pelo sistema ou concluir o cadastro. |
| 02 Emissão de documentos | Solicitações eletrônicas podem exigir fotografias, arquivos digitalizados ou validação de identidade que nem todos conseguem realizar sozinhos. |
| 03 Recuperação de contas | Códigos enviados a números antigos e etapas de reconhecimento podem impedir temporariamente o acesso a serviços importantes. |
| 04 Solicitação de benefícios | Formulários extensos e linguagem técnica podem dificultar o entendimento dos requisitos e o envio correto das informações. |
| 05 Acessibilidade | Páginas incompatíveis com leitores de tela ou com navegação por teclado podem criar barreiras para pessoas com deficiência. |
| 06 Conexão limitada | Interrupções de sinal e franquias pequenas de internet podem comprometer procedimentos que exigem várias etapas seguidas. |
Por que oferecer atendimento pela internet não elimina a necessidade de outros canais?
A digitalização pode reduzir filas presenciais, permitir acompanhamento de solicitações e diminuir o uso de papel. Esses ganhos, entretanto, não alcançam todos da mesma maneira. Quando um procedimento depende exclusivamente de uma plataforma difícil de acessar, o tempo economizado por alguns usuários pode se transformar em deslocamentos, novos custos e pedidos de ajuda para outros.
A Lei do Governo Digital prevê tecnologias de amplo acesso e preserva o direito ao atendimento presencial na prestação digital de serviços públicos. Essa diretriz reforça a importância de canais adequados a diferentes necessidades. Um serviço bem estruturado deve oferecer instruções claras, recursos de acessibilidade e alternativas de atendimento conforme suas características e seu público.

O que precisa mudar para que os serviços digitais sejam realmente acessíveis?
Interfaces simples, formulários compreensíveis e orientações durante cada etapa podem tornar serviços mais fáceis de utilizar de forma independente. Também ajudam pontos de atendimento assistido, acessibilidade para diferentes deficiências e opções para quem enfrenta instabilidade de conexão. O objetivo deve ser reduzir o esforço necessário para resolver uma demanda, sem transferir toda a responsabilidade tecnológica ao cidadão.
A modernização dos serviços tem potencial para economizar tempo e aproximar pessoas de direitos e informações. Para cumprir essa promessa, porém, precisa considerar quem não está conectado ou ainda encontra dificuldades para utilizar plataformas digitais. Eliminar uma fila física representa progresso quando não significa criar uma barreira invisível na tela para quem mais necessita do atendimento.




