Na margem direita do Rio Madeira, o maior afluente do Rio Amazonas, Porto Velho guarda uma das histórias mais duras e fascinantes da Amazônia. A capital de Rondônia nasceu em 1907 como base de construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (EFMM), obra prevista no Tratado de Petrópolis para escoar a borracha amazônica e ligar o Brasil à Bolívia. Um pedaço da floresta que virou capital de 518 mil habitantes com pôr do sol mundialmente conhecido sobre o rio.
Tratado de Petrópolis, borracha e a origem da capital
A história começa na diplomacia. Em 17 de novembro de 1903, Brasil e Bolívia assinaram o Tratado de Petrópolis, que encerrou uma disputa antiga pelo território do Acre. Em troca da anexação da região ao Brasil, o país assumiu o compromisso de construir uma ferrovia que superasse o trecho encachoeirado do Rio Madeira, cerca de 380 km sem navegação. Era a única forma de escoar a borracha amazônica boliviana pelos portos brasileiros.
A obra começou em 1907, sob a responsabilidade da empresa americana Madeira-Mamoré Railway Company. Ao redor do canteiro, formou-se um núcleo urbano que atraiu trabalhadores das mais diversas nacionalidades: barbadianos, nordestinos, italianos, alemães, gregos, bolivianos e centenas de outros pontos do planeta. A vila cresceu tanto que, em 2 de outubro de 1914, foi oficialmente criado o município de Porto Velho. Segundo a Assembleia Legislativa de Rondônia, o passado ferroviário é o alicerce direto da identidade rondoniense.

A saga ferroviária da cidade
A EFMM foi inaugurada em 1º de agosto de 1912, com 366 quilômetros entre Porto Velho e Guajará-Mirim, na fronteira com a Bolívia. Considerada por historiadores a maior saga ferroviária do mundo em condições adversas, ganhou dos próprios trabalhadores o apelido de Ferrovia do Diabo. Segundo os registros oficiais, 1.522 mortes foram documentadas no Hospital da Candelária, principal unidade médica do canteiro. As estimativas conservadoras de historiadores apontam mais de 6 mil óbitos ao longo da obra por malária, febre amarela, beribéri, ataques de animais e acidentes de construção.
A ferrovia funcionou por 60 anos e foi desativada em 1972, quando o governo federal assumiu a operação e concluiu que não era mais economicamente viável. O complexo ferroviário foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em janeiro de 2008 e teve inscrição adicional no Livro do Tombo Arqueológico em 2018. Em 4 de maio de 2024, o complexo foi reaberto ao público depois de anos de revitalização, com galpões restaurados, locomotivas originais e um deck panorâmico sobre o Rio Madeira.
As Três Marias: símbolo da capital, tombadas em 1988
Bem no centro histórico, três caixas d’água de ferro dominam a paisagem urbana. Conhecidas carinhosamente como Três Marias, foram projetadas e fabricadas pela empresa americana Chicago Bridge & Iron Works. A primeira chegou de navio em 1910, e as outras duas em 1912. Cada uma tem capacidade para armazenar 200 mil litros de água, e juntas abasteceram a cidade em construção e os primeiros moradores até 1957.
Segundo a Secretaria Municipal de Turismo de Porto Velho, as Três Caixas d’Água foram tombadas como patrimônio histórico municipal pelo Decreto nº 4.045 de 26 de dezembro de 1988. Ocupam uma praça central de mesmo nome, cercada por comércio popular, e podem ser vistas de vários pontos do centro. As estruturas cilíndricas de ferro estampam a bandeira do município e viraram réplicas em artesanato local, ícone reconhecível de Porto Velho.
O que fazer na capital de Rondônia?
O roteiro turístico gira em torno do Rio Madeira, do patrimônio ferroviário e da natureza amazônica ao redor. Os principais pontos ficam a curta distância uns dos outros no centro.
- Complexo da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré: às margens do Rio Madeira, com galpões históricos, locomotivas originais, museu e deck panorâmico para o pôr do sol.
- Museu da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré: acervo com ferramentas, documentos, fotografias e a Locomotiva 18, fabricada na Alemanha em 1936 e em processo de restauração.
- Praça das Três Caixas d’Água: no coração da cidade, com as Três Marias e eventos culturais frequentes, especialmente aos fins de semana.
- Mercado Cultural: espaço revitalizado que reúne shows, feiras de artesanato e programação cultural regular.
- Complexo Memorial Rondon: às margens do Rio Madeira, no Bairro Militar, com maquetes dos antigos postos telegráficos e homenagem ao Marechal Rondon.
- Passeios de barco pelo Rio Madeira: com paradas para observação de botos, ilhas fluviais e a Cachoeira de Santo Antônio.

Como viver em Porto Velho no dia a dia?
A capital combina o ritmo de cidade grande do Norte brasileiro com o cotidiano ribeirinho. Alguns pontos ajudam a entender a rotina local.
- População multiétnica: descendentes de barbadianos, nordestinos, bolivianos, indígenas e ribeirinhos formam o mosaico cultural da cidade.
- Economia diversificada: agronegócio, comércio, indústria de mineração e serviços movimentam a maior cidade do estado.
- Universidade Federal de Rondônia: com sede em Porto Velho e cursos que atraem estudantes de estados vizinhos.
- Bairros consolidados: Areal, Rio Madeira, Nossa Senhora das Graças e Novo Horizonte estão entre os mais residenciais.
- Custo de vida amazônico: preços de moradia mais acessíveis que capitais do Sudeste, mas transporte e produtos importados encarecem por causa da distância logística.
O que se come em Porto Velho?
A cozinha portovelhense mistura influências ribeirinhas, indígenas, nordestinas e amazônicas. O Mercado Central concentra as versões mais tradicionais dos pratos.
- Tambaqui na brasa: peixe amazônico servido inteiro com farofa de banana, arroz e pirão, prato símbolo da cozinha regional.
- Tacacá: caldo quente de tucupi com goma de tapioca, jambu e camarões secos, tradição servida em cuia de coco no fim de tarde.
- Pato no tucupi: pato desossado cozido no caldo amarelado da mandioca brava, com folhas de jambu, herança comum ao Norte.
- Frutas amazônicas: açaí puro, cupuaçu, bacuri, buriti e taperebá aparecem em sorvetes, sucos e mesas do café da manhã.
Como é o clima ao longo do ano
Porto Velho tem clima equatorial, quente e úmido o ano inteiro. As temperaturas ficam acima de 30°C na maior parte do ano, e a estação de chuvas se concentra entre outubro e abril.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.

Como chegar a Porto Velho
O Aeroporto Internacional Governador Jorge Teixeira recebe voos diários de São Paulo, Brasília, Manaus e Cuiabá, com tempo médio de voo de 3h30 a partir de São Paulo. Por rodovia, Porto Velho é acessada pela BR-364, que corta todo o estado e liga a cidade a Cuiabá, no Mato Grosso, num percurso de aproximadamente 1.450 km. Também há linhas de ônibus interestaduais partindo de várias capitais da Amazônia.
A capital que virou monumento à sua própria fundação
Porto Velho é uma dessas cidades que respiram a própria história em cada esquina. Do Complexo Ferroviário revitalizado às Três Marias no centro, tudo lembra os operários que ergueram a cidade e a ferrovia sob condições que já não existem no país. Nenhuma outra capital brasileira carrega um passado tão físico e tão presente ao mesmo tempo.
Você precisa conhecer Porto Velho num fim de tarde de julho, sentar no deck do Complexo Ferroviário e ver o pôr do sol descer sobre o Rio Madeira para entender por que a Ferrovia do Diabo virou orgulho de todo um estado.




