Um jesuíta ergueu uma capela nas margens do Rio de Contas em 1720 e batizou o povoado com o nome do arcanjo São Miguel. Três séculos depois, Itacaré vive quase inteiramente do ecoturismo, é conhecido como a “Capital do Surf” e tem a última grande faixa de Mata Atlântica costeira do Brasil.
Do porto do cacau à capital do surf baiano
A ocupação começou com aldeias dos índios Pataxós e Tupiniquins às margens do Rio de Contas. Em 1720, o jesuíta Luís da Grã ergueu uma capela dedicada a São Miguel Arcanjo e fundou o povoado de São Miguel da Barra do Rio de Contas, elevado a município em 1732. O nome atual só chegou em 1931 e significa jacaré de pedra em tupi, segundo a Prefeitura de Itacaré.
Na segunda metade do século XIX, a economia toda passou a girar em torno do cacau. O porto local escoava toneladas do fruto para o mundo pelo sistema cabruca, técnica agroflorestal que planta o cacau sob a sombra das árvores nativas, o que preservou a Mata Atlântica enquanto outras regiões desmatavam.
A vassoura-de-bruxa devastou as lavouras nos anos 1980 e a economia entrou em colapso. Sem estrada asfaltada e com o porto assoreado, a vila ficou isolada por 54 km de estrada de terra. Segundo o Instituto Tijuípe, foi só em 1998 que a BA-001 Estrada Parque Ilhéus-Itacaré foi inaugurada, considerada a primeira estrada ecológica do país. O isolamento salvou a paisagem, e os surfistas chegaram logo depois.

O que fazer entre as 20 praias e as trilhas na Mata Atlântica?
A cidade tem mais de 20 praias entre urbanas e selvagens. Muitas exigem trilha na mata ou acesso de barco, e o roteiro clássico combina caminhada, banho e ondas em um só dia.
- Praia da Concha: a mais próxima do centro, formada pelo encontro do Rio de Contas com o mar. Ideal para famílias, com quiosques e ponto de pôr do sol no Mirante da Ponta do Xaréu.
- Praia da Tiririca: palco do primeiro Centro de Treinamento público de surfe da Bahia, recebe etapas do circuito brasileiro e sediou etapas do circuito mundial da World Surf League em 2017 e 2018.
- Prainha: enseada protegida por morros, acessível por trilha de 30 minutos na mata. Considerada uma das mais bonitas da Costa do Cacau.
- Jeribucaçu: rio de mesmo nome deságua na areia e forma uma praia de água doce e salgada, com barracas rústicas de peixe fresco na brasa.
- Trilha das Quatro Praias: percurso de dificuldade média pela mata, ligando Engenhoca, Havaizinho, Camboinha e Itacarezinho. O passeio mais completo da região.
- Cachoeira do Tijuípe: acesso fácil pela BA-001, com piscina natural cercada por pedras e restaurante ao lado.
Uma reserva mundial da Mata Atlântica protege 62 mil hectares
A Área de Proteção Ambiental Costa de Itacaré/Serra Grande foi criada em 1993 pelo governo baiano e protege 62.960 hectares de floresta, praias e manguezais. A região faz parte da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica, reconhecida pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).
A floresta abriga espécies ameaçadas como o mico-leão-de-cara-dourada e a preguiça-de-coleira. Segundo a Prefeitura, o ecoturismo responde por mais de 90% do Produto Interno Bruto do município, o que faz da conservação um pilar direto da economia.
Fora da mata, o rafting nas corredeiras do Rio de Contas, em Taboquinhas, é uma das experiências mais procuradas. A 30 km do centro, o passeio combina corredeiras com visita a fazendas de cacau, onde é possível ver a produção artesanal de chocolate.
Moqueca premiada e chocolate de fazenda no cardápio
A herança baiana aparece no dendê, no coco e nos frutos do mar, mas Itacaré também tem cardápios cosmopolitas por causa da força do turismo internacional. Em 2025, o restaurante Mirantes Marina venceu o Concurso da Moqueca da Bahia, competição que reuniu 13 zonas turísticas do estado.
- Moqueca de peixe ou camarão: prato símbolo da culinária baiana, servido com pirão e arroz branco em várias casas do centro.
- Peixe na telha: preparo tradicional das casas caiçaras da região, servido em telha de barro sobre folha de bananeira.
- Bobó de camarão: creme à base de mandioca com leite de coco e dendê, herança direta da cozinha ancestral africana.
- Cacau fresco e chocolate artesanal: presente em fazendas como a Vila Rosa, com tours guiados da colheita à barra, e na tradicional caipirinha de cacau, invenção local.
- Peixe grelhado nas praias selvagens: servido em barracas rústicas em Jeribucaçu e Havaizinho, direto da brasa.

Quando o clima favorece cada tipo de passeio?
O clima tropical úmido garante calor o ano inteiro, com temperatura média de 25°C. Não existe estação completamente seca, mas os meses de setembro a fevereiro concentram menos chuva. Julho e agosto trazem o melhor swell de surf de inverno.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar à Costa do Cacau saindo de Ilhéus?
O aeroporto mais próximo é o Aeroporto Jorge Amado, em Ilhéus, a 70 km da vila. O trajeto é feito pela BA-001 Estrada Parque, com mirantes e travessias por rios ao longo do caminho. Os voos para Ilhéus costumam ter escala em Salvador, São Paulo ou Rio de Janeiro.
De Salvador, o trajeto é de 460 km pela BR-101 e a BA-001. A rodovia é a primeira estrada ecológica do país e corta a APA Costa de Itacaré, com áreas de mata preservada dos dois lados.
A vila que a Mata Atlântica salvou
A cidade prova que o isolamento pode virar patrimônio. Poucos destinos do Brasil guardam três séculos de história colonial, praias reconhecidas mundialmente pelo surf e a última grande faixa de Mata Atlântica costeira em um mesmo endereço.
Você precisa conhecer Itacaré e caminhar pela mata que preservou a paisagem enquanto a economia do cacau desmoronava.




