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Início Cidades

A vila baiana do cacau que virou capital do surf tem mais de 20 praias e a primeira estrada ecológica do país

Por Maura Pereira
12/07/2026
Em Cidades, Turismo
O Havaí Baiano ficou escondido por décadas e hoje abriga mais de 20 praias cercadas por Mata Atlântica

Itacaré oferece mais de 20 praias entre urbanas e acessíveis apenas por trilha. / Imagem ilustrativa

Um jesuíta ergueu uma capela nas margens do Rio de Contas em 1720 e batizou o povoado com o nome do arcanjo São Miguel. Três séculos depois, Itacaré vive quase inteiramente do ecoturismo, é conhecido como a “Capital do Surf” e tem a última grande faixa de Mata Atlântica costeira do Brasil.

Do porto do cacau à capital do surf baiano

A ocupação começou com aldeias dos índios Pataxós e Tupiniquins às margens do Rio de Contas. Em 1720, o jesuíta Luís da Grã ergueu uma capela dedicada a São Miguel Arcanjo e fundou o povoado de São Miguel da Barra do Rio de Contas, elevado a município em 1732. O nome atual só chegou em 1931 e significa jacaré de pedra em tupi, segundo a Prefeitura de Itacaré.

Na segunda metade do século XIX, a economia toda passou a girar em torno do cacau. O porto local escoava toneladas do fruto para o mundo pelo sistema cabruca, técnica agroflorestal que planta o cacau sob a sombra das árvores nativas, o que preservou a Mata Atlântica enquanto outras regiões desmatavam.

A vassoura-de-bruxa devastou as lavouras nos anos 1980 e a economia entrou em colapso. Sem estrada asfaltada e com o porto assoreado, a vila ficou isolada por 54 km de estrada de terra. Segundo o Instituto Tijuípe, foi só em 1998 que a BA-001 Estrada Parque Ilhéus-Itacaré foi inaugurada, considerada a primeira estrada ecológica do país. O isolamento salvou a paisagem, e os surfistas chegaram logo depois.

A vila baiana do cacau que virou capital do surf tem mais de 20 praias e a primeira estrada ecológica do país
Itacaré combina Mata Atlântica, rios e litoral recortado, oferecendo praias de surf, trilhas, cachoeiras e ecoturismo. // Créditos: depositphotos.com / PedroTruffi

O que fazer entre as 20 praias e as trilhas na Mata Atlântica?

A cidade tem mais de 20 praias entre urbanas e selvagens. Muitas exigem trilha na mata ou acesso de barco, e o roteiro clássico combina caminhada, banho e ondas em um só dia.

  • Praia da Concha: a mais próxima do centro, formada pelo encontro do Rio de Contas com o mar. Ideal para famílias, com quiosques e ponto de pôr do sol no Mirante da Ponta do Xaréu.
  • Praia da Tiririca: palco do primeiro Centro de Treinamento público de surfe da Bahia, recebe etapas do circuito brasileiro e sediou etapas do circuito mundial da World Surf League em 2017 e 2018.
  • Prainha: enseada protegida por morros, acessível por trilha de 30 minutos na mata. Considerada uma das mais bonitas da Costa do Cacau.
  • Jeribucaçu: rio de mesmo nome deságua na areia e forma uma praia de água doce e salgada, com barracas rústicas de peixe fresco na brasa.
  • Trilha das Quatro Praias: percurso de dificuldade média pela mata, ligando Engenhoca, Havaizinho, Camboinha e Itacarezinho. O passeio mais completo da região.
  • Cachoeira do Tijuípe: acesso fácil pela BA-001, com piscina natural cercada por pedras e restaurante ao lado.

Uma reserva mundial da Mata Atlântica protege 62 mil hectares

A Área de Proteção Ambiental Costa de Itacaré/Serra Grande foi criada em 1993 pelo governo baiano e protege 62.960 hectares de floresta, praias e manguezais. A região faz parte da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica, reconhecida pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).

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A floresta abriga espécies ameaçadas como o mico-leão-de-cara-dourada e a preguiça-de-coleira. Segundo a Prefeitura, o ecoturismo responde por mais de 90% do Produto Interno Bruto do município, o que faz da conservação um pilar direto da economia.

Fora da mata, o rafting nas corredeiras do Rio de Contas, em Taboquinhas, é uma das experiências mais procuradas. A 30 km do centro, o passeio combina corredeiras com visita a fazendas de cacau, onde é possível ver a produção artesanal de chocolate.

Moqueca premiada e chocolate de fazenda no cardápio

A herança baiana aparece no dendê, no coco e nos frutos do mar, mas Itacaré também tem cardápios cosmopolitas por causa da força do turismo internacional. Em 2025, o restaurante Mirantes Marina venceu o Concurso da Moqueca da Bahia, competição que reuniu 13 zonas turísticas do estado.

  • Moqueca de peixe ou camarão: prato símbolo da culinária baiana, servido com pirão e arroz branco em várias casas do centro.
  • Peixe na telha: preparo tradicional das casas caiçaras da região, servido em telha de barro sobre folha de bananeira.
  • Bobó de camarão: creme à base de mandioca com leite de coco e dendê, herança direta da cozinha ancestral africana.
  • Cacau fresco e chocolate artesanal: presente em fazendas como a Vila Rosa, com tours guiados da colheita à barra, e na tradicional caipirinha de cacau, invenção local.
  • Peixe grelhado nas praias selvagens: servido em barracas rústicas em Jeribucaçu e Havaizinho, direto da brasa.

Leia também: Fundada por 182 casais açorianos, hoje essa cidade figura entre as 21 melhores do Brasil, é a 8ª mais verticalizada do país e cresceu sem perder a olaria colonial.

A vila baiana do cacau que virou capital do surf tem mais de 20 praias e a primeira estrada ecológica do país
Ruas charmosas, clima descontraído e gastronomia típica fazem de Itacaré um destino leve e acolhedor o ano todo.​ // Créditos: depositphotos.com / Cristian_Lourenco

Quando o clima favorece cada tipo de passeio?

O clima tropical úmido garante calor o ano inteiro, com temperatura média de 25°C. Não existe estação completamente seca, mas os meses de setembro a fevereiro concentram menos chuva. Julho e agosto trazem o melhor swell de surf de inverno.

☀️ Verão Dez – Fev
Média: 23-30°C
Chuva: 🌦️ Média
O calor vibrante e o clima movimentado ditam o ritmo da alta temporada, sendo a época ideal para aproveitar as praias urbanas e vida noturna.
🍂 Outono Mar – Mai
Média: 22-28°C
Chuva: ⛈️ Alta
O aumento das precipitações garante o volume máximo dos rios, transformando a estação no momento perfeito para explorar as cachoeiras cheias e rafting.
🧣 Inverno Jun – Ago
Média: 20-26°C
Chuva: 🌦️ Média
O clima mais ameno e os fortes ventos trazem as ondulações certas e ilustres visitantes, formando o cenário exato para o surf de inverno e baleias-jubarte.
🌸 Primavera Set – Nov
Média: 22-29°C
Chuva: ☀️ Baixa
O tempo firme e a baixa probabilidade de chuva garantem o máximo aproveitamento ao ar livre, excelente para a Trilha das Quatro Praias e Jeribucaçu.
💡 Dica do especialista: Para aproveitar o agito máximo e o sol intenso, o verão é a escolha definitiva para curtir as praias urbanas e vida noturna. O outono exige um espírito aventureiro, aproveitando as chuvas para descer as cachoeiras cheias e rafting. O inverno muda a dinâmica do litoral e se consagra como a temporada espetacular para o surf de inverno e baleias-jubarte. Já a primavera, com sua rara estabilidade climática, é de longe a melhor janela para caminhadas longas na Trilha das Quatro Praias e Jeribucaçu.

Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.

Como chegar à Costa do Cacau saindo de Ilhéus?

O aeroporto mais próximo é o Aeroporto Jorge Amado, em Ilhéus, a 70 km da vila. O trajeto é feito pela BA-001 Estrada Parque, com mirantes e travessias por rios ao longo do caminho. Os voos para Ilhéus costumam ter escala em Salvador, São Paulo ou Rio de Janeiro.

De Salvador, o trajeto é de 460 km pela BR-101 e a BA-001. A rodovia é a primeira estrada ecológica do país e corta a APA Costa de Itacaré, com áreas de mata preservada dos dois lados.

A vila que a Mata Atlântica salvou

A cidade prova que o isolamento pode virar patrimônio. Poucos destinos do Brasil guardam três séculos de história colonial, praias reconhecidas mundialmente pelo surf e a última grande faixa de Mata Atlântica costeira em um mesmo endereço.

Você precisa conhecer Itacaré e caminhar pela mata que preservou a paisagem enquanto a economia do cacau desmoronava.

Tags: Bahiaitacaré
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