A 32 km de São Luís, do outro lado da Baía de São Marcos, uma cidade de ruas calçadas em pedra e casarões sem telhado divide seu território com a base de lançamento de foguetes mais próxima da linha do Equador nas Américas. Alcântara, no Maranhão, é Cidade Monumento Nacional desde 1948 e já acumula 500 lançamentos realizados pelo Centro de Lançamento de Alcântara (CLA).
Foguetes perto do Equador e economia de 30% em combustível
O CLA opera a 2°18′ de latitude sul, posição que aproveita a velocidade de rotação da Terra para impulsionar foguetes com até 30% menos combustível do que bases em latitudes maiores. Inaugurado em 1983 e operacional desde 1989, o centro é administrado pela Força Aérea Brasileira (FAB) e integra a Agência Espacial Brasileira (AEB).
Em março de 2023, o CLA alcançou seu 500º lançamento com a Operação Astrolábio, parceria com a empresa sul-coreana Innospace. O foguete HANBIT-TLV levou carga útil desenvolvida no Brasil e marcou o primeiro voo com veículo comercial estrangeiro a partir de território brasileiro. Em dezembro de 2025, uma nova tentativa com o HANBIT-Nano buscou colocar cinco satélites em órbita, consolidando a entrada do país no mercado global de lançamentos espaciais.
A base não está aberta a visitação civil, mas a Casa de Cultura Aeroespacial, na área urbana, conta parte dessa história com maquetes e painéis sobre o programa espacial.

Ruínas que contam três séculos de opulência e abandono
Antes dos foguetes, Alcântara foi um dos centros mais ricos do Maranhão colonial. Fundada como vila em 1648 sobre a antiga aldeia tupinambá de Tapuitapera, a cidade enriqueceu com engenhos de açúcar, sal e lavouras de algodão exportado para a Europa. Os filhos dos barões eram enviados para estudar em Coimbra, e voltavam com influências que moldaram palacetes, igrejas e fontes.
A abolição da escravatura e o fim do ciclo algodoeiro esvaziaram Alcântara na segunda metade do século XIX. Os ricos partiram, as construções ficaram. O isolamento preservou o conjunto: em 1948, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) tombou a cidade inteira, reconhecendo cerca de 400 imóveis de valor histórico. Alcântara é considerada a mais importante cidade histórica da Amazônia Legal.
Caminhar pelas ruas de Alcântara é como viajar no tempo entre casarões coloniais e ruínas que contam a história do Maranhão. O vídeo é do canal DEVA NO AR, que foca em viagens e curiosidades, e apresenta os principais pontos históricos, como a Praça da Matriz e a Ladeira do Jacaré: foca em viagens e curiosidades.
O que visitar nas ruas de pedra da cidade monumento?
O centro histórico se percorre a pé. A subida começa no Porto do Jacaré e segue pela Ladeira do Jacaré, com calçamento de pedras em desenho geométrico. As principais atrações se concentram na Praça da Matriz e arredores.
- Ruínas da Igreja de São Matias: cartão-postal da cidade. A construção do século XVII nunca foi concluída e suas paredes abertas emolduram o céu maranhense ao lado do pelourinho colonial.
- Igreja e Convento de Nossa Senhora do Carmo: erguida a partir de 1660, restaurada pelo Programa Monumenta. Abriga painéis de azulejos, esculturas e um retábulo com talha dourada em estilo rococó.
- Museu Casa Histórica de Alcântara: sobrado do IPHAN com acervo de 900 peças inventariadas e restauradas, incluindo mobiliário, louças e objetos do período colonial.
- Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos: construída em 1780, também conhecida como Igreja do Galo. Foi benzida em 1803, quando recebeu as imagens de Nossa Senhora e São Benedito.
- Casa do Divino: espaço dedicado à Festa do Divino Espírito Santo, celebração que acontece 50 dias após a Páscoa e é uma das mais tradicionais do Maranhão.

Praias desertas e revoada de guarás vermelhos
Além do patrimônio edificado, Alcântara guarda praias acessíveis por barco. A Ilha do Livramento é considerada a mais bonita da região, com faixa de areia clara cercada por mangue. Passeios de barco pelos igarapés amazônicos permitem observar a revoada dos guarás, aves de plumagem vermelha intensa que se reúnem ao entardecer nos manguezais.
Alcântara abriga também o maior número de comunidades quilombolas do Brasil, com mais de 150 comunidades certificadas pela Fundação Cultural Palmares. Em setembro de 2024, um acordo histórico mediado pela Advocacia-Geral da União (AGU) pôs fim a 40 anos de disputa e garantiu a titulação de 78 mil hectares como território quilombola, convivendo com a área de 9.256 hectares do centro espacial.
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Quando o clima favorece cada tipo de passeio?
O período seco, de julho a dezembro, oferece céu aberto e menos lama nas ladeiras de pedra. A temporada de chuvas, de janeiro a junho, traz paisagem mais verde e rios cheios para os passeios de barco.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.

Como chegar à cidade monumento do Maranhão?
A travessia de São Luís a Alcântara é feita de catamarã ou lancha, com duração de cerca de 1h20. As embarcações partem do Terminal Hidroviário da Praia Grande e os horários dependem da tábua de marés, já que o porto do Jacaré opera apenas em maré alta. O ideal é consultar os horários na véspera. Não há aeroporto na cidade.
Onde foguetes e ruínas dividem o mesmo horizonte
Alcântara é provavelmente o único lugar do planeta onde uma base de lançamento de foguetes convive com ruínas coloniais do século XVII e comunidades quilombolas centenárias. A cidade monumento oferece, em poucas horas de caminhada, uma síntese rara da história brasileira, do período colonial ao programa espacial.
Você precisa subir a Ladeira do Jacaré de manhã cedo, quando o sol ainda não apertou, e parar na Praça da Matriz para entender como três séculos cabem em uma cidade de ruas de pedra a poucos quilômetros de uma plataforma de lançamento.









