A psicóloga Lara Ferreiro alerta que a fama precoce pode transformar o sucesso de jovens atletas em uma cobrança permanente. Ela cita Lamine Yamal, atacante de 19 anos do Barcelona, como exemplo dessa exposição. O principal risco é passar a medir o próprio valor pelos resultados dentro de campo.
Por que Lara Ferreiro faz um alerta sobre Lamine Yamal?
A ascensão de Lamine Yamal ao futebol de elite trouxe responsabilidades que normalmente aparecem mais tarde na vida profissional. Em declarações reproduzidas pelo jornal espanhol OKDIARIO, em 16 de outubro de 2026, Lara Ferreiro explica que essa mudança acelerada pode interferir no desenvolvimento emocional de jovens que alcançam reconhecimento internacional.
A especialista utiliza a expressão adultização precoce para descrever situações em que adolescentes assumem compromissos, cobranças e responsabilidades típicas da vida adulta antes de consolidar sua identidade. No esporte profissional, isso pode envolver treinamentos intensos, viagens constantes, decisões financeiras e exposição pública, enquanto experiências comuns da juventude acabam perdendo espaço na rotina.
O perigo de acreditar que não existe permissão para errar
Um dos pontos centrais da análise de Ferreiro é a relação entre perfeccionismo e autoestima. Segundo a psicóloga, jovens como Yamal podem desenvolver a sensação de que não têm permissão para falhar e de que precisam continuar brilhando para preservar o reconhecimento recebido, transformando cada partida em uma possível avaliação de seu valor pessoal.
Essa percepção pode fazer com que uma derrota, uma atuação ruim ou uma crítica pública sejam interpretadas como ameaças muito maiores do que realmente são. O chamado perfeccionismo desadaptativo aparece quando a busca por bons resultados deixa de estimular o crescimento e passa a alimentar medo constante de cometer erros, preocupação excessiva e dificuldade para aceitar limitações.
Como a fama e o dinheiro podem afetar a identidade dos jovens?
A fama também modifica a maneira como um jovem se relaciona com outras pessoas. Para Lara Ferreiro, existe o risco de o atleta construir uma identidade baseada na imagem pública, sentindo necessidade de corresponder continuamente às expectativas de torcedores, patrocinadores e pessoas próximas, mesmo quando essas exigências entram em conflito com suas preferências pessoais.
O dinheiro acrescenta outra camada de complexidade, pois a independência financeira pode chegar antes da experiência necessária para administrar novas responsabilidades. Além disso, o reconhecimento pode despertar dúvidas sobre a autenticidade das relações, especialmente quando o jovem encontra dificuldade para distinguir amizades genuínas de aproximações motivadas pela popularidade ou pelos benefícios associados à sua carreira.

Redes sociais aumentam a pressão sobre atletas famosos
O ambiente digital amplia a exposição porque comentários sobre desempenho, aparência e comportamento circulam rapidamente, mesmo fora dos períodos de competição. Uma partida ruim pode gerar milhares de reações, enquanto acontecimentos da vida privada também se tornam assunto público, aumentando a necessidade de estabelecer limites entre carreira e intimidade para preservar o equilíbrio emocional.
Essa preocupação encontra respaldo em um documento de consenso do Comitê Olímpico Internacional publicado em 2026, que analisa a saúde mental de atletas de elite. O trabalho identifica associações entre determinados padrões de uso das redes sociais e ansiedade, baixa autoestima e pior qualidade do sono, embora reconheça que essas plataformas também podem oferecer apoio e conexões positivas.
O que a ciência mostra sobre saúde mental e sucesso precoce?
O reconhecimento esportivo não elimina os desafios emocionais comuns ao desenvolvimento dos jovens. Segundo a Organização Mundial da Saúde, aproximadamente um em cada sete adolescentes entre 10 e 19 anos apresenta algum transtorno mental, considerando a população geral, e fatores como pressão social, dificuldades nos relacionamentos e construção da identidade influenciam o bem-estar nessa fase.
No esporte de alto rendimento, as exigências competitivas podem acrescentar outros fatores de risco, como receio de perder espaço na equipe, desgaste provocado pela rotina e dificuldade para lidar com lesões. Isso não significa que Lamine Yamal tenha algum transtorno psicológico: as declarações de Ferreiro abordam riscos associados ao contexto de jovens talentos, e não representam um diagnóstico individual do jogador.
O que clubes e famílias podem fazer para proteger jovens atletas?
O primeiro cuidado é evitar que toda a rotina do atleta seja organizada exclusivamente em torno dos resultados esportivos. Clubes, familiares e profissionais de saúde podem contribuir ao preservar períodos de descanso, incentivar relações pessoais fora do ambiente competitivo e oferecer acompanhamento psicológico quando necessário, sem tratar o pedido de ajuda como sinal de fraqueza.
Também é necessário observar mudanças persistentes no sono, isolamento, irritabilidade, ansiedade ou perda de interesse por atividades antes prazerosas, buscando avaliação profissional quando esses sinais aparecerem. A mensagem central do alerta de Lara Ferreiro é que o valor de um jovem não depende de vencer sempre, e que construir uma identidade além do futebol pode ajudá-lo a enfrentar tanto os momentos de sucesso quanto as dificuldades da carreira.




