Antes dos serviços de streaming, os domingos de muitas famílias brasileiras acompanhavam o ritmo da televisão aberta. O programa da tarde, a partida de futebol e a atração da noite funcionavam como marcos de horário. Mas o significado daquele costume ia além de esperar a próxima transmissão: a programação ajudava a organizar encontros, refeições e conversas que davam identidade ao fim de semana.
Por que a televisão aberta parecia marcar o ritmo dos domingos?
Nas décadas de 1990 e 2000, bastava reconhecer a abertura de um programa dominical para perceber em que parte do dia a família estava. Algumas pessoas associavam a tarde aos programas de auditório; outras esperavam o futebol ou uma atração noturna. A grade televisiva oferecia referências compartilhadas para organizar o domingo.
O hábito, porém, não consistia apenas em obedecer ao relógio da emissora. Havia quem preparasse o almoço antes de determinado programa ou aproveitasse os intervalos para conversar. A televisão podia marcar o tempo enquanto a família atribuía sentido à rotina, transformando horários repetidos em oportunidades de convivência reconhecidas por todos.

O que a psicologia explica sobre os rituais construídos em família?
Na psicologia familiar, um ritual não se resume a repetir uma atividade: ele ganha importância quando os participantes reconhecem algum significado naquele encontro. Assistir à televisão no domingo podia criar um horário previsível para estar junto, comentar acontecimentos e negociar preferências. Essa combinação de regularidade e participação ajudava a dar continuidade à vida familiar durante a semana.
Pesquisas sobre rituais familiares apoiam essa interpretação. Em um estudo publicado no Journal of Family Psychology em 2011, com 713 duplas de adolescentes e responsáveis na Nova Zelândia, Carla Crespo e colaboradores encontraram relações ao longo do tempo entre significado dos rituais e coesão familiar. A coesão também se relacionou indiretamente ao bem-estar dos adolescentes.
Quais momentos da televisão aberta ficaram guardados na memória afetiva?
A televisão era uma referência visível, mas a rotina dominical se construía nos detalhes ao redor dela. O cheiro do almoço, a disputa pelo controle remoto e os comentários sobre uma partida podiam se repetir durante anos. Esses gestos davam aos encontros uma familiaridade que permanece nas lembranças de quem cresceu naquele ambiente.
Algumas situações ajudam a reconhecer os pequenos rituais que marcavam aqueles domingos:
- O almoço antes dos programas de auditório: reunir a família à mesa criava uma transição entre a manhã e as atrações aguardadas durante a tarde.
- A disputa entre Faustão e Gugu: escolher entre os programas dominicais podia render conversas e negociações sobre as preferências de cada integrante da casa.
- As partidas de futebol na televisão: acompanhar o time favorito reunia torcedores da família em momentos de expectativa, comemoração e comentários.
- O café preparado no meio da tarde: o cheiro vindo da cozinha podia ficar associado à programação e às conversas entre parentes.
- O controle remoto compartilhado: decidir qual canal assistir exigia considerar os interesses de quem estava reunido na sala.
- O Fantástico anunciando o fim do domingo: a chegada da atração noturna podia representar a aproximação da segunda-feira e o encerramento do descanso.
Por que esses domingos não tinham o mesmo significado para todas as famílias?
O mesmo domingo podia representar aconchego para uma criança e monotonia para outra. Algumas famílias assistiam juntas e conversavam; outras deixavam a televisão ligada enquanto cada pessoa fazia algo diferente. A presença diante da mesma tela não garantia proximidade, especialmente quando havia discussões constantes ou pouco espaço para que todos expressassem suas preferências naquele ambiente.
Também existiam diferenças de renda, horários de trabalho e acesso aos aparelhos. Nem todas as casas tinham a mesma programação como referência, e muitas famílias passavam o domingo fora ou trabalhavam nesse dia. Por isso, o valor afetivo da televisão aberta não deve ser confundido com uma regra universal sobre a infância brasileira em diferentes regiões.

O que a saudade da programação dominical revela sobre os vínculos familiares?
A lembrança da programação dominical mostra que compartilhar o tempo pode ser tão importante quanto compartilhar uma atividade. Um programa conhecido sinalizava a hora de voltar do passeio, preparar o lanche ou reunir os parentes. Quando essas experiências eram agradáveis, os horários da televisão podiam se tornar parte da memória afetiva da família ao longo dos anos.
Hoje, o streaming permite escolher o que assistir e quando começar, mas não impede a criação de rituais. Uma sessão combinada, um almoço de domingo ou a conversa depois de um filme podem desempenhar papel semelhante. O que permanece significativo não é a programação obrigatória, mas o hábito de reservar momentos reconhecíveis para estar com pessoas importantes.




