O dinheiro colocado por adolescentes dentro dos jogos está muito mais concentrado do que parece. Um estudo sobre gastos em games mostra por que moedas virtuais, passes e compras rápidas merecem atenção dentro de casa. E renda familiar alta, curiosamente, não explicou quem mais gastava.
Uma pequena parcela respondeu por quase dois terços do dinheiro
Pesquisadores analisaram respostas de 2.308 estudantes austríacos com idades entre 10 e 19 anos. Desse total, 1.952 jogavam títulos que permitiam compras internas e 818 disseram ter colocado dinheiro nesses jogos durante os 12 meses anteriores à pesquisa.
Esses 818 adolescentes declararam gastos somados de €138.952,50. Só 85 deles, equivalentes a 10,4% dos pagantes, responderam por €85.385,90, ou 61,4% de todo o valor. A diferença fica ainda mais clara quando se olha quanto cada integrante desse grupo gastou.

Alguns adolescentes declararam até 12 mil euros em um ano
Os pesquisadores classificaram como grandes gastadores quem declarou entre €400 e €12 mil em compras dentro de jogos no período de um ano. Nesse grupo, o gasto médio chegou a cerca de €1.005 por adolescente, enquanto a média entre todos que fizeram alguma compra foi de €169,90.
O ponto importante é que o estudo usou valores informados pelos próprios estudantes, e não registros de bancos ou empresas de games. Portanto, os números não permitem medir cada transação com precisão absoluta, mas revelam um padrão de concentração difícil de ignorar. E ele ficou mais forte em uma idade específica.
O pico de gastos apareceu aos 15 e 16 anos
Os adolescentes de 15 a 16 anos gastaram em média €215,60 por ano, valor superior ao observado em todas as outras faixas analisadas. Entre os 85 grandes gastadores, 41,2% também estavam justamente nesse intervalo de idade, embora eles representassem menos de um terço dos pagantes.
Isso contraria uma ideia simples de que os gastos cresceriam continuamente conforme o adolescente ficasse mais velho e tivesse mais dinheiro disponível. Os jovens de 17 a 19 anos, por exemplo, declararam média de €196,80. Na prática, a metade da adolescência apareceu como um ponto de atenção.
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Ter uma família com mais dinheiro não explicou o excesso
Os pesquisadores mediram a situação econômica familiar com perguntas sobre moradia, férias e bens disponíveis em casa. O resultado chamou atenção: não houve diferença significativa entre a condição econômica dos grandes gastadores e a dos adolescentes que gastavam menos.
Isso significa que compras altas não ficaram restritas a famílias com maior poder aquisitivo. Além disso, 17,6% dos jovens que compravam itens usavam cartão de crédito ou débito dos pais, enquanto cartões pré-pagos apareceram em 63,8% das respostas. O problema, portanto, não se resume simplesmente a “dar dinheiro demais”.

Moedas virtuais e passes tornam o preço menos óbvio
Os jogos atuais misturam skins, vantagens, loot boxes, moedas próprias e passes que oferecem recompensas conforme o jogador avança. Quando um pacote custa 1.200 moedas virtuais em vez de um valor direto em reais ou euros, fica mais difícil perceber rapidamente quanto aquela compra representa no orçamento.
- Moedas virtuais escondem a conversão imediata para dinheiro real.
- Ofertas por tempo limitado aumentam a pressão para decidir rápido.
- Passes ligam pagamento a progresso e recompensas contínuas.
- Compras repetidas podem parecer pequenas quando vistas isoladamente.
O próprio estudo cita mecanismos como escassez artificial e manipulação da relação entre dinheiro e moedas virtuais como estratégias usadas no setor. Mas cuidado com uma conclusão apressada: gastar muito não significa automaticamente ter um transtorno. A associação encontrada precisa ser lida com mais cuidado.
O que pais podem observar sem transformar o jogo em vilão
Entre os grandes gastadores, 14,1% atingiram o critério usado para provável gaming disorder, contra 4,2% entre os demais pagantes. Isso mostra uma associação entre gasto elevado e sinais de uso problemático, mas o estudo é transversal e não prova que as compras causaram o problema ou que o transtorno causou os gastos.
Para famílias, vale trocar a pergunta “quanto você gastou hoje?” por uma visão mensal, conferindo cartões, saldo de lojas, moedas virtuais e passes ativos. O estudo completo publicado na Frontiers in Public Health mostra por que acompanhar a soma das pequenas compras pode revelar muito mais do que olhar uma transação isolada.




