Um projeto iniciado por Ken Nedimyer e sua filha Kelly para cultivar pequenos fragmentos de coral acabou dando origem a uma técnica usada em grandes programas de restauração marinha. O trabalho começou nos Florida Keys e evoluiu para viveiros submarinos com centenas de “árvores de coral”, estruturas que mantêm fragmentos suspensos até que estejam grandes o suficiente para voltar aos recifes.
A ideia começou como um projeto de pai e filha
Por volta de 2000, Ken Nedimyer e Kelly começaram a trabalhar com fragmentos de coral-cervo, conhecido cientificamente como Acropora cervicornis, durante um projeto juvenil do programa 4-H. Nedimyer já trabalhava com aquicultura e conhecia de perto a deterioração dos recifes dos Florida Keys, onde mergulhava havia anos.
Segundo um estudo de caso da Reef Resilience Network, os fragmentos cultivados acabaram chamando atenção para uma possibilidade maior: produzir corais em viveiros e depois transplantá-los para áreas degradadas. A experiência familiar começou, assim, a ganhar uma finalidade de restauração.

Os corais passaram a crescer pendurados em estruturas submarinas
A técnica foi aperfeiçoada até chegar ao chamado Coral Tree, desenvolvido pela Coral Restoration Foundation em 2011. A estrutura possui um eixo central com braços onde pequenos fragmentos ficam suspensos, evitando que permaneçam diretamente sobre o fundo do mar enquanto crescem.
A Coral Restoration Foundation explica que cada árvore fica presa ao fundo e sustentada verticalmente por uma boia submersa. Como a estrutura consegue se mover com ondas e correntes, os corais permanecem na coluna d’água e podem ser acompanhados e manejados pelos mergulhadores.
O pequeno experimento cresceu até formar enormes viveiros no mar
O trabalho levou Nedimyer a fundar a Coral Restoration Foundation em 2007. Com o avanço do projeto, os viveiros deixaram de ser uma experiência limitada a poucos fragmentos e passaram a ocupar áreas muito maiores, permitindo cultivar milhares de corais simultaneamente antes do transplante.
Atualmente, a organização informa que mantém quase 1.000 Coral Trees distribuídas por seus principais viveiros na Flórida. Somente o viveiro de Tavernier ocupa cerca de 1,5 acre do fundo marinho e possui mais de 500 estruturas, com capacidade conjunta de produção que ultrapassa 50 mil corais preparados para restauração por ano.
Os fragmentos não ficam para sempre nessas “árvores”
As estruturas funcionam como uma espécie de berçário temporário. Os corais permanecem suspensos enquanto crescem e, quando atingem tamanho adequado, são retirados pelos mergulhadores e fixados em recifes naturais que perderam parte de sua cobertura coralínea.
O método aproveita a capacidade de espécies ramificadas de crescer a partir de fragmentos. Um artigo técnico assinado por Nedimyer e colaboradores descreve o sistema como uma forma de aproveitar o espaço tridimensional da coluna d’água, ampliando a quantidade de corais que pode ser produzida dentro de uma mesma área de viveiro. Separamos esse vídeo do canal Florida Keys Aquarium Encounters mostrando mais desse projeto:
O trabalho também ajuda a preservar diversidade genética
Os viveiros deixaram de servir apenas para produzir grande quantidade de coral. Hoje também funcionam como bancos genéticos vivos, mantendo linhagens que podem ter desaparecido ou se tornado muito raras em determinados trechos dos recifes naturais.
Em dados divulgados em 2026, a Coral Restoration Foundation informou manter no viveiro de Tavernier mais de 20 espécies e quase 700 genótipos. Essa diversidade pode ser importante porque características como tolerância ao calor, recuperação após branqueamento e resistência a doenças variam entre indivíduos e podem influenciar futuros projetos de recuperação.
Restaurar corais ajuda, mas não elimina as ameaças aos recifes
Os viveiros submarinos mostram que é possível aumentar a escala da restauração, mas o plantio não resolve sozinho todos os problemas enfrentados pelos recifes. Ondas de calor marinhas, doenças, poluição e mudanças nas condições oceânicas continuam submetendo tanto os corais naturais quanto os restaurados a forte pressão ambiental.
O legado do projeto de Ken e Kelly está justamente em transformar uma experiência familiar em uma ferramenta replicável de conservação. As “árvores” não criam uma floresta permanente de estruturas artificiais: elas funcionam como estações de crescimento, onde novos corais são preparados para retornar ao recife e ajudar a reconstruir áreas que perderam parte de sua estrutura viva.




