Uma equipe de nove pesquisadores liderada por Terry Long Phan e Tomotsugu Goto, da Universidade Nacional Tsing Hua, em Taiwan, encontrou um ponto de luz infravermelha que pode ser o Planeta 9, o mundo hipotético que estaria escondido muito além de Netuno. O candidato aparece em dois levantamentos feitos por satélites com 23 anos de intervalo, e os próprios autores dizem que falta confirmação.
O estudo não é novo. Saiu em 23 de maio de 2025 na revista científica Publications of the Astronomical Society of Australia e voltou a circular em outubro de 2026 sem nenhum dado adicional. O Planeta 9 segue sem confirmação, e um dos criadores da hipótese duvida que o ponto encontrado seja ele.
A ideia nasceu em janeiro de 2016, quando Konstantin Batygin e Mike Brown, do Caltech, publicaram no Astronomical Journal que as órbitas de alguns objetos distantes do Cinturão de Kuiper pareciam agrupadas de um jeito estranho. Um planeta grande e invisível explicaria esse alinhamento. No comunicado do Caltech daquela época, os dois estimavam um corpo com cerca de 10 vezes a massa da Terra, que levaria de 10 mil a 20 mil anos para dar uma volta no Sol.

Dois catálogos e 23 anos de diferença
Um planeta tão distante reflete pouquíssima luz solar, mas ainda emite calor. Por isso a equipe vasculhou catálogos infravermelhos de dois satélites: o IRAS, que mapeou o céu em 1983, e o japonês AKARI, que repetiu o trabalho em 2006 e 2007.
A lógica é procurar um ponto que estava num lugar e reapareceu um pouco adiante. Segundo o resumo do artigo, um corpo a 500 a 700 unidades astronômicas do Sol (cada unidade equivale à distância média entre a Terra e o Sol) andaria cerca de 3 minutos de arco por ano no céu. Em 23 anos, a mudança de posição ficaria entre 42 e 69,6 minutos de arco.
Os autores miraram um planeta de 7 a 17 massas terrestres, a faixa usada como referência no próprio estudo. Depois de descartar as fontes que não se moviam, sobraram 13 pares candidatos. A inspeção das imagens reduziu a lista a um único “bom candidato”.
O criador da hipótese diz que não é o Planeta 9
A crítica mais dura veio de quem propôs a ideia. Em entrevista à revista Astronomy, em maio de 2025, Mike Brown afirmou que, pela inclinação da órbita sugerida pelos dados, o objeto “seja real ou não, 100% não é o Planeta 9”.
Os autores também são cautelosos. Eles escrevem que IRAS e AKARI, sozinhos, não bastam para determinar a órbita, e que é preciso observar o ponto de novo para medir o movimento e saber se ele pode mesmo ser o Planeta 9. A equipe citou a DECam, câmera instalada num telescópio no Chile, para esse acompanhamento.
Na prática, há duas detecções antigas, separadas por mais de duas décadas, que podem ou não ser o mesmo corpo. Sem órbita conhecida, ninguém pode chamar o ponto de planeta.
É pouco para cravar uma descoberta, mas é o tipo de pista que só se resolve olhando de novo para o mesmo pedaço do céu.
O Observatório Vera Rubin pode encerrar a dúvida
A melhor chance de resposta está no Observatório Vera C. Rubin, no Chile. Segundo o LAPP, laboratório ligado ao instituto francês IN2P3, o levantamento LSST, previsto para durar dez anos, começou oficialmente em 29 de junho de 2026, e na fase de testes o telescópio já havia encontrado 380 objetos transnetunianos.
Como o Rubin varre o céu do hemisfério sul repetidas vezes, ele é apontado pelos astrônomos como o instrumento capaz de confirmar ou descartar o Planeta 9. Se ele já examinou o candidato de Taiwan, isso não aparece nas fontes consultadas para esta reportagem.
Cada corpo novo achado nessa região distante ajuda a testar a hipótese, como no caso do 2023 KQ14, objeto descoberto além de Netuno. E a história do Sistema Solar pode ter tido outras reviravoltas, como um planeta gigante que talvez tenha existido no início e desaparecido.
Onde o Brasil entra na busca
O Brasil participa do LSST pelo LIneA, o Laboratório Interinstitucional de e-Astronomia. Segundo o próprio LIneA, ele opera o IDAC-BR, centro de dados brasileiro que integra a rede internacional de cerca de uma dezena de centros do levantamento e já recebeu dados do Rubin.
Se o Planeta 9 existir e o Rubin o encontrar, a descoberta vai passar por uma rede de processamento da qual o Brasil faz parte. Até lá, o ponto achado nos catálogos de 1983 e 2006 continua sendo só um candidato.




