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Início Curiosidades

Astrônomos podem ter visto o Planeta 9, o mundo escondido nos limites do Sistema Solar

Por João Victor
27/10/2026
Em Curiosidades
Astrônoma observa na tela duas imagens infravermelhas com um ponto de luz marcado em vermelho

Astrônoma observa na tela duas imagens infravermelhas com um ponto de luz marcado em vermelho. Imagem gerada por IA

Uma equipe de nove pesquisadores liderada por Terry Long Phan e Tomotsugu Goto, da Universidade Nacional Tsing Hua, em Taiwan, encontrou um ponto de luz infravermelha que pode ser o Planeta 9, o mundo hipotético que estaria escondido muito além de Netuno. O candidato aparece em dois levantamentos feitos por satélites com 23 anos de intervalo, e os próprios autores dizem que falta confirmação.

O estudo não é novo. Saiu em 23 de maio de 2025 na revista científica Publications of the Astronomical Society of Australia e voltou a circular em outubro de 2026 sem nenhum dado adicional. O Planeta 9 segue sem confirmação, e um dos criadores da hipótese duvida que o ponto encontrado seja ele.

A ideia nasceu em janeiro de 2016, quando Konstantin Batygin e Mike Brown, do Caltech, publicaram no Astronomical Journal que as órbitas de alguns objetos distantes do Cinturão de Kuiper pareciam agrupadas de um jeito estranho. Um planeta grande e invisível explicaria esse alinhamento. No comunicado do Caltech daquela época, os dois estimavam um corpo com cerca de 10 vezes a massa da Terra, que levaria de 10 mil a 20 mil anos para dar uma volta no Sol.

Tela mostra duas imagens do céu com o mesmo ponto de luz circulado
Tela mostra duas imagens do céu com o mesmo ponto de luz circulado. Imagem gerada por IA

Dois catálogos e 23 anos de diferença

Um planeta tão distante reflete pouquíssima luz solar, mas ainda emite calor. Por isso a equipe vasculhou catálogos infravermelhos de dois satélites: o IRAS, que mapeou o céu em 1983, e o japonês AKARI, que repetiu o trabalho em 2006 e 2007.

A lógica é procurar um ponto que estava num lugar e reapareceu um pouco adiante. Segundo o resumo do artigo, um corpo a 500 a 700 unidades astronômicas do Sol (cada unidade equivale à distância média entre a Terra e o Sol) andaria cerca de 3 minutos de arco por ano no céu. Em 23 anos, a mudança de posição ficaria entre 42 e 69,6 minutos de arco.

Os autores miraram um planeta de 7 a 17 massas terrestres, a faixa usada como referência no próprio estudo. Depois de descartar as fontes que não se moviam, sobraram 13 pares candidatos. A inspeção das imagens reduziu a lista a um único “bom candidato”.

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O criador da hipótese diz que não é o Planeta 9

A crítica mais dura veio de quem propôs a ideia. Em entrevista à revista Astronomy, em maio de 2025, Mike Brown afirmou que, pela inclinação da órbita sugerida pelos dados, o objeto “seja real ou não, 100% não é o Planeta 9”.

Os autores também são cautelosos. Eles escrevem que IRAS e AKARI, sozinhos, não bastam para determinar a órbita, e que é preciso observar o ponto de novo para medir o movimento e saber se ele pode mesmo ser o Planeta 9. A equipe citou a DECam, câmera instalada num telescópio no Chile, para esse acompanhamento.

Na prática, há duas detecções antigas, separadas por mais de duas décadas, que podem ou não ser o mesmo corpo. Sem órbita conhecida, ninguém pode chamar o ponto de planeta.

É pouco para cravar uma descoberta, mas é o tipo de pista que só se resolve olhando de novo para o mesmo pedaço do céu.

O Observatório Vera Rubin pode encerrar a dúvida

A melhor chance de resposta está no Observatório Vera C. Rubin, no Chile. Segundo o LAPP, laboratório ligado ao instituto francês IN2P3, o levantamento LSST, previsto para durar dez anos, começou oficialmente em 29 de junho de 2026, e na fase de testes o telescópio já havia encontrado 380 objetos transnetunianos.

Como o Rubin varre o céu do hemisfério sul repetidas vezes, ele é apontado pelos astrônomos como o instrumento capaz de confirmar ou descartar o Planeta 9. Se ele já examinou o candidato de Taiwan, isso não aparece nas fontes consultadas para esta reportagem.

Cada corpo novo achado nessa região distante ajuda a testar a hipótese, como no caso do 2023 KQ14, objeto descoberto além de Netuno. E a história do Sistema Solar pode ter tido outras reviravoltas, como um planeta gigante que talvez tenha existido no início e desaparecido.

Onde o Brasil entra na busca

O Brasil participa do LSST pelo LIneA, o Laboratório Interinstitucional de e-Astronomia. Segundo o próprio LIneA, ele opera o IDAC-BR, centro de dados brasileiro que integra a rede internacional de cerca de uma dezena de centros do levantamento e já recebeu dados do Rubin.

Se o Planeta 9 existir e o Rubin o encontrar, a descoberta vai passar por uma rede de processamento da qual o Brasil faz parte. Até lá, o ponto achado nos catálogos de 1983 e 2006 continua sendo só um candidato.

Tags: AstronomiaObservatório Vera RubinPlaneta 9sistema solar
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