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Início Curiosidades

A frase de John Locke que fez um alerta no século XVII: “Novas opiniões são sempre suspeitas e geralmente opostas, sem nenhuma outra razão a não ser o fato de ainda não serem comuns.”

Por Daniely Cardoso
09/10/2026
Em Curiosidades
Locke escreve essa passagem na Epístola Dedicatória de seu Ensaio acerca do Entendimento Humano, publicado no fim do século XVII.  // Imagem ilustrativa gerada por IA para representar a situação descrita no texto; pessoas, locais e elementos visuais não correspondem necessariamente aos reais

Locke escreve essa passagem na Epístola Dedicatória de seu Ensaio acerca do Entendimento Humano, publicado no fim do século XVII. // Imagem ilustrativa gerada por IA para representar a situação descrita no texto; pessoas, locais e elementos visuais não correspondem necessariamente aos reais

A frase de John Locke — “Novas opiniões são sempre suspeitas e geralmente opostas, sem nenhuma outra razão a não ser o fato de ainda não serem comuns” — aparece em Ensaio acerca do Entendimento Humano. A passagem resume uma crítica direta ao peso do costume: uma ideia pode ser rejeitada não porque foi refutada, mas simplesmente porque ainda parece estranha.

A citação aparece na dedicatória do Ensaio

Locke escreve essa passagem na Epístola Dedicatória de seu Ensaio acerca do Entendimento Humano, publicado no fim do século XVII. Ali, ele comenta como a novidade pode ser tratada quase como uma acusação entre pessoas acostumadas a aceitar apenas doutrinas já estabelecidas.

O trecho pode ser consultado no texto da Wikisource. Locke acrescenta que uma verdade não perde seu valor por ter sido recentemente descoberta e compara essa situação ao ouro, que continua sendo ouro mesmo quando acabou de sair da mina.

Ali, ele comenta como a novidade pode ser tratada quase como uma acusação entre pessoas acostumadas a aceitar apenas doutrinas já estabelecidas. // Imagem ilustrativa gerada por IA para representar a situação descrita no texto; pessoas, locais e elementos visuais não correspondem necessariamente aos reais

Leia também: “A consciência é um tribunal que o homem tem dentro de si”: a profunda reflexão de Kant sobre dever e responsabilidade

Ser novidade não torna uma ideia verdadeira nem falsa

Locke não está dizendo que toda ideia nova merece ser aceita. O ponto é mais cuidadoso: novidade não é argumento. Uma opinião precisa ser examinada por suas razões, evidências e coerência, e não aprovada ou descartada apenas pela quantidade de pessoas que já a aceitam.

Essa distinção aparece logo depois da frase, quando Locke afirma que é o exame e a investigação que devem determinar o valor de uma ideia. A antiguidade de uma crença não funciona como prova automática de verdade, assim como sua recente aparição não é prova de erro.

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O costume pode parecer mais convincente do que realmente é

Uma crença repetida durante anos ganha uma vantagem psicológica: ela deixa de soar como uma opinião e pode passar a parecer simplesmente natural ou óbvia. Quando uma alternativa surge, o desconforto provocado pela novidade pode ser confundido com uma razão legítima para rejeitá-la.

Essa preocupação combina com o projeto filosófico do Ensaio acerca do Entendimento Humano. Locke procura investigar como adquirimos ideias e quais são os limites do conhecimento humano, estimulando uma postura menos dependente de autoridade e pressupostos herdados.

A verdade não é decidida por maioria

No mesmo trecho, Locke afirma que a verdade raramente venceu por votação quando apareceu pela primeira vez. A observação não significa desprezar consenso ou conhecimento acumulado, mas lembrar que popularidade e verdade são coisas diferentes.

Uma ideia pode ser amplamente aceita e ainda estar errada, enquanto outra pode inicialmente parecer estranha e depois resistir ao exame. Para Locke, o critério decisivo deve ser a capacidade de uma afirmação suportar investigação racional, não sua familiaridade social.

Uma crença repetida durante anos ganha uma vantagem psicológica: ela deixa de soar como uma opinião e pode passar a parecer simplesmente natural ou óbvia. // Imagem ilustrativa gerada por IA para representar a situação descrita no texto; pessoas, locais e elementos visuais não correspondem necessariamente aos reais

A frase continua atual em debates sobre ciência e costumes

Novas descobertas, tecnologias e mudanças culturais frequentemente provocam resistência inicial justamente porque alteram expectativas consolidadas. A mensagem de Locke sugere que a pergunta mais útil não é “isso sempre foi feito assim?”, mas “quais razões sustentam essa ideia?”.

Isso também vale no sentido contrário. Algo ser novo, moderno ou disruptivo não o torna automaticamente melhor. A postura lockeana exige equilíbrio: evitar tanto a rejeição automática da novidade quanto a aceitação entusiasmada sem provas suficientes.

Locke defende exame crítico no lugar da simples familiaridade

A força da frase está em mostrar como o hábito pode funcionar como um filtro invisível. Quando uma opinião antiga parece correta apenas porque foi repetida muitas vezes, existe o risco de substituir argumento por costume e investigação por conformidade.

Por isso, a citação é melhor entendida como uma defesa da avaliação crítica. Para John Locke, ideias novas não merecem imunidade, mas também não deveriam ser condenadas por serem incomuns. O valor de uma opinião depende de teste, exame e razões, e não da idade da crença ou do número de pessoas que já a consideram familiar.

Tags: Culturafilosofiahistóriasociedade
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