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Início Notícias

Boeing alerta companhias para falha de software no 737 MAX que afeta a navegação automática na arremetida, mas a versão com erro não está nos aviões em operação

Por João Victor
28/09/2026
Em Notícias
Avião comercial arremete e volta a subir sobre a pista com o trem de pouso baixado

Avião comercial arremete e volta a subir sobre a pista com o trem de pouso baixado. Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.

A Boeing avisou em agosto todas as companhias que operam o 737 MAX sobre um erro de software que pode desligar a navegação vertical automática do avião durante uma arremetida, a manobra em que o piloto desiste do pouso e volta a subir. O problema veio a público no sábado (26), em reportagem do Wall Street Journal, e levou a FAA, agência de aviação civil dos Estados Unidos, a abrir uma revisão formal.

O defeito está nas versões 14 e 14.1 do programa do computador de gerenciamento de voo, ligadas ao 737 MAX 7 e ao MAX 10, dois modelos que ainda não transportam passageiros. Até esta segunda-feira (28) não havia diretiva de aeronavegabilidade, ordem de inspeção ou proibição de voo. A Gol, que voa com o MAX 8 no Brasil, não aparece em nenhuma das fontes sobre o caso como operadora de avião afetado, e a Anac não se manifestou.

Uma falha que depende de uma sequência rara

Pela descrição que a Boeing enviou às companhias, e que a rede americana CBS News publicou, o erro exige uma combinação bem particular. O avião precisa estar numa aproximação de precisão com o piloto automático ligado. A tripulação então arremete e, logo depois, altera a rota que estava programada no computador de bordo. Nessa situação, o sistema pode sair do modo VNAV, que segue sozinho o perfil de altitudes calculado para o trajeto, e cair para um modo mais simples de controle de arfagem, como manter uma razão de subida escolhida pelo piloto.

O piloto automático continua funcionando. O que some é a comodidade de o avião cumprir por conta própria as restrições de altitude da nova rota, e a tripulação precisa de passos extras para reativar a orientação automática na aproximação seguinte. A Boeing afirma que todos os pilotos são treinados para voar e pousar sem VNAV.

O incômodo está no momento em que isso acontece. Perto do aeroporto, com a pista à frente e cada cabeceira identificada pela direção magnética que aponta, a cabine já trabalha no limite de atenção. Uma fonte de companhia aérea ouvida pela CBS questionou justamente se a falha não acrescenta distração na hora mais carregada do voo.

Da primeira queixa ao comitê da FAA

Mão de piloto nas manetes de potência na cabine de um jato comercial ao entardecer
Mão de piloto nas manetes de potência na cabine de um jato comercial ao entardecer. Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.

O comportamento não é novidade para a fabricante. Segundo a CBS News, uma companhia aérea relatou o problema à Boeing em novembro de 2024, e em fevereiro de 2025 a empresa concluiu que não se tratava de questão de segurança. Neste ano, novas informações de operadores levaram a Boeing a instalar um comitê interno de revisão. No fim de agosto, um boletim foi às companhias dizendo que o erro não representava risco imediato, e as conclusões do comitê chegaram à FAA em setembro.

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Em nota à imprensa, a Boeing disse ter informado “todos os operadores de 737 sobre um problema de software em que os pilotos podem não ter acesso à orientação de voo automatizada durante um cenário específico de pouso”. A atualização definitiva estava prevista para 2028, de acordo com o boletim original citado pela CBS, e a fabricante diz trabalhar para antecipá-la. Enquanto isso, formaliza com as companhias um procedimento para religar a navegação vertical se a situação ocorrer.

A FAA informou que vai convocar um Corrective Action Review Board, o grupo de técnicos que decide se um defeito é de segurança e como corrigi-lo, e que “agirá imediatamente se identificar um problema de segurança”. É uma revisão, não uma ordem. No Federal Register, o diário oficial americano onde as diretivas são publicadas, os atos da FAA sobre o 737 MAX desde agosto tratam de rachaduras estruturais e rolamentos, nada sobre software ou VNAV.

O erro está no software do MAX 7 e do MAX 10

A versão 14 foi a usada na certificação do 737 MAX 7, aprovado pela FAA em 3 de agosto de 2026 depois de quase uma década de análise, como registra o comunicado da agência americana sobre a certificação do modelo. A 14.1 estava nos testes do MAX 10, o maior da família, que ainda espera o aval. Nenhum dos dois foi entregue a clientes.

Alaska Airlines, American Airlines, Southwest e United disseram à CBS News que nenhum 737 MAX de suas frotas em operação usa as versões com erro. Southwest e United foram além e avisaram a Boeing que não aceitarão aviões novos com esse programa, preferindo a versão anterior. A Boeing, segundo a revista Airways, não divulgou quantos aviões ainda não entregues carregam as versões 14 ou 14.1.

O efeito mais concreto, por ora, é industrial. A revisão pode atrasar de novo a certificação do MAX 10, que já acumula anos de atraso, e as primeiras entregas do MAX 7, cuja carteira de pedidos é quase toda da Southwest, de acordo com a CBS. A mesma emissora lembra os dois acidentes de 2018 e 2019, com 346 mortos atribuídos a software defeituoso, e a tampa de porta arrancada em pleno voo num jato da Alaska em janeiro de 2024. Com esse histórico, uma linha de código sob suspeita pesa mais do que o próprio defeito.

A Gol voa com o MAX 8, que não foi apontado

No Brasil, a Gol opera o 737 MAX 8 em voos regulares. Em setembro de 2025, a companhia anunciou o recebimento do 58º exemplar do modelo, numa frota padronizada de 139 aviões Boeing 737, segundo o anúncio da própria Gol sobre a chegada de mais um MAX 8. Nenhuma das fontes sobre a falha, da Boeing à FAA, cita o MAX 8 como afetado.

Há, porém, um limite no que está confirmado. As declarações sobre a versão de software instalada partiram das quatro companhias americanas, e a Gol não informou publicamente qual versão roda na sua frota. A Anac, que fiscaliza as aeronaves em operação no país, também não publicou manifestação sobre o caso até esta segunda.

O MAX 10, esse sim ligado ao erro, está na lista de encomendas da Gol, mas não na pista. De acordo com o plano de reestruturação de janeiro de 2025, noticiado pelo site especializado AEROIN, a empresa não prevê receber nenhum MAX 10 antes de 2029. Textos que circulam dizendo que a Gol já voa com o modelo estão errados.

A navegação de um jato comercial se apoia numa cadeia de sistemas eletrônicos tratada com cuidado em cada etapa, a ponto de as companhias pedirem que o passageiro deixe o celular em modo avião para reduzir interferências nos equipamentos da cabine. O caso do FMC mostra o outro lado: o próprio software pode trazer comportamentos que só aparecem em combinações raras de uso, e o conserto costuma vir em etapas: boletim, treinamento e atualização.

O próximo passo está com o comitê da FAA. Se ele concluir que há risco à segurança, a agência pode exigir mudanças antes de novas entregas; se não, a Boeing segue com o procedimento provisório e a correção prometida. Até aqui, nenhuma autoridade determinou alteração na operação de voos no Brasil.

Tags: 737 MAXBoeingFAAGol
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