Na tríplice fronteira entre Brasil, Venezuela e Guiana, um gigantesco bloco de pedra de 2.810 metros de altitude abriga um ecossistema isolado do resto do planeta há milhões de anos. O Monte Roraima é o tepui mais famoso da América do Sul, cercado por paredões verticais, neblina constante e paisagens tão surreais que inspiraram desde o romance O Mundo Perdido, de Arthur Conan Doyle, até os cenários flutuantes de Up: Altas Aventuras, da Pixar.
Como o Monte Roraima virou inspiração para a Pixar?
Quando a equipe da Pixar começou a desenvolver Up em 2009, artistas e produtores viajaram até os tepuis da região da Gran Sabana, na Venezuela, em busca de referências reais para criar o “Paraíso das Cachoeiras” do filme. As montanhas de topo plano cercadas por névoa, os paredões abruptos e as quedas-d’água gigantes aparecem diretamente refletidos nos cenários da animação. A própria produtora confirmou que a viagem aos tepuis sul-americanos foi decisiva para a construção visual do longa.
A semelhança impressiona porque o Monte Roraima realmente parece um cenário inventado. No topo, rochas negras moldadas pela erosão formam labirintos naturais, piscinas cristalinas e esculturas de pedra que lembram animais e castelos. O clima muda em poucos minutos: sol forte, chuva e neblina se alternam constantemente, criando uma atmosfera quase extraterrestre. Não por acaso, o lugar também inspirou Arthur Conan Doyle a imaginar um planalto isolado onde criaturas pré-históricas sobreviveriam escondidas do mundo moderno em O Mundo Perdido, publicado em 1912.

Por que o topo do Monte Roraima parece outro planeta?
O Monte Roraima integra o antigo Escudo das Guianas, uma das estruturas geológicas mais antigas do planeta. Suas rochas de arenito e quartzito começaram a se formar há cerca de 2 bilhões de anos, ainda no período Pré-Cambriano, muito antes do surgimento dos primeiros dinossauros. Ao longo de eras geológicas, a erosão desgastou as áreas ao redor e deixou o enorme platô isolado acima das nuvens, criando uma espécie de ilha biológica suspensa com aproximadamente 31 km² de extensão.
Esse isolamento extremo permitiu o surgimento de espécies únicas. Cerca de 35% das plantas do topo são endêmicas, ou seja, não existem em nenhum outro lugar da Terra. Entre os habitantes mais curiosos está o pequeno Oreophrynella quelchii, conhecido como sapinho-do-Roraima, um anfíbio negro que praticamente não pula — ele se locomove caminhando sobre as pedras úmidas do tepui. O ambiente também favoreceu a adaptação de diversas plantas carnívoras, que capturam insetos para compensar a falta de nutrientes do solo. Caminhar pelo topo do Monte Roraima é atravessar uma paisagem moldada bilhões de anos antes do aparecimento das formas de vida complexas que dominariam o planeta.
Este documentário do canal Rolê Família detalha uma expedição de 7 dias ao Monte Roraima, um dos lugares mais antigos e impressionantes do planeta. O vídeo combina informações práticas, lendas indígenas e registros das paisagens únicas do topo.
O que se encontra no topo do tepui?
Explorar o platô exige dias de caminhada. A área é imensa e as atrações ficam distribuídas entre formações rochosas, mirantes e piscinas naturais.
- Vale dos Cristais: caminho coberto por cristais de quartzo branco e rosado que brilham sob o sol. É proibido retirar qualquer pedra.
- Jacuzzis: piscinas naturais de água gelada e cristalina, com fundo forrado de cristais e algas douradas. O banho gelado renova o corpo após horas de trilha.
- La Ventana: abertura na rocha que emoldura o tepui vizinho Kukenán, com vista vertiginosa para o abismo.
- Ponto Triplo: marco piramidal de concreto que sinaliza a divisão exata entre Brasil, Venezuela e Guiana. De lá, é possível estar em três países ao mesmo tempo.
- Pedra Maverick: ponto culminante do tepui (2.810 m), batizado pela semelhança com o veículo da Ford. Vista panorâmica da floresta amazônica e da savana.
A Casa de Makunaima e o respeito dos povos da montanha
Para os povos Pemon, Ingarikó e Macuxi, o Monte Roraima é a Casa de Makunaima, herói criador dos índios caribes. Na língua Pemon, “tepui” significa “casa dos deuses”. A tradição oral conta que a montanha nasceu do tronco de uma árvore da vida derrubada por Makunaima para alimentar seus irmãos.
A subida ao topo é guiada obrigatoriamente por indígenas Pemon, que conhecem cada fenda, abrigo e passagem. Os pernoites acontecem sob formações rochosas naturais chamadas de “hotéis”. A Gruta do Quati, no lado brasileiro, é o principal ponto de acampamento. Todo lixo gerado, incluindo resíduos orgânicos, deve ser trazido de volta para a base. A montanha é sagrada e não tolera descuido.

Como é a expedição ao Monte Roraima?
A trilha clássica dura de 7 a 9 dias e percorre entre 80 e 100 km (ida e volta). Não exige técnicas de alpinismo, mas demanda bom preparo cardiovascular. O terceiro dia de subida, chamado de “passo das lágrimas”, é o mais exigente: inclinação forte e pedras soltas. A subida final é feita por uma rampa natural, uma fenda estreita na parede vertical que funciona como escada para o platô.
O acesso acontece pelo lado venezuelano. O ponto de partida é Santa Elena de Uairén, a 215 km de Boa Vista (capital de Roraima) pela BR-174. De Santa Elena, veículos 4×4 levam até a aldeia de Paraitepuy, dentro do Parque Nacional Canaima, reconhecido como Patrimônio Mundial pela UNESCO desde 1994. No lado brasileiro, o Parque Nacional do Monte Roraima, criado em 1989, protege 116,7 mil hectares sob gestão compartilhada entre ICMBio, Funai e a comunidade Ingarikó.
Quando ir e como é o clima no Monte Roraima?
O clima no topo é imprevisível em qualquer época. Sol, chuva e neblina se alternam em poucas horas. Na base, o calor tropical predomina. No platô, a temperatura pode cair para perto de 0°C à noite, mesmo próximo à linha do Equador.
Temperaturas aproximadas para o topo do tepui com base em relatos de expedições e dados do Climatempo (Boa Vista). Condições no platô podem variar drasticamente.

Qual é a rota para chegar ao topo do Monte Roraima?
A aventura começa em Boa Vista, capital de Roraima, que recebe voos vindos de cidades como Manaus, Brasília e São Paulo. De lá, o trajeto segue por cerca de 215 km pela BR-174 até Pacaraima, na fronteira com a Venezuela. Após a imigração, os viajantes continuam até Santa Elena de Uairén, cidade-base das expedições rumo ao tepui.
Para entrar na Venezuela, brasileiros precisam apresentar RG em bom estado ou passaporte válido, além do Certificado Internacional de Vacinação contra febre amarela, emitido com pelo menos 10 dias de antecedência da viagem. A partir de Santa Elena, veículos 4×4 levam os grupos até a comunidade indígena de Paraitepuy, ponto oficial de início da trilha dentro do Parque Nacional Canaima. As expedições normalmente incluem guias indígenas Pemon, barracas, alimentação, cozinheiros e carregadores, já que a subida dura vários dias e exige estrutura completa.
Por que subir o Monte Roraima é uma experiência única?
O Monte Roraima não funciona como uma viagem comum de fim de semana. É uma travessia por uma das paisagens mais antigas da Terra, onde cristais aparecem espalhados pelo chão, plantas carnívoras crescem entre as pedras e nuvens encobrem o horizonte em questão de minutos. O silêncio do topo, interrompido apenas pelo vento e pela água correndo entre as rochas, dá a sensação de caminhar fora do tempo.
Você precisa alcançar o alto do Roraima para entender por que esse tepui inspirou escritores, exploradores e animadores da Pixar. Poucos lugares do planeta conseguem reunir bilhões de anos de história geológica, espécies que não existem em nenhum outro ponto do mundo e um visual que parece criado para cinema.








