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Início Curiosidades

Especialistas em psicologia explicam: crianças que transformam objetos domésticos em brinquedos inventam seus próprios jogos e não apenas imitam os adultos

Por Daniely Cardoso
03/10/2026
Em Curiosidades
Na psicologia do desenvolvimento, esse comportamento é chamado de substituição de objetos.  // Imagem ilustrativa gerada por IA para representar a situação descrita no texto; pessoas, locais e elementos visuais não correspondem necessariamente aos reais

Na psicologia do desenvolvimento, esse comportamento é chamado de substituição de objetos. // Imagem ilustrativa gerada por IA para representar a situação descrita no texto; pessoas, locais e elementos visuais não correspondem necessariamente aos reais

Transformar uma caixa em carro, uma colher em microfone ou um bloco em telefone não significa que a criança esteja apenas copiando os adultos. Estudos sobre brincadeira simbólica mostram que crianças pequenas conseguem compreender situações de faz de conta e criar usos novos para objetos, construindo brincadeiras próprias a partir do que encontram ao redor.

Usar um objeto como outro faz parte da brincadeira simbólica

Na psicologia do desenvolvimento, esse comportamento é chamado de substituição de objetos. Ele ocorre quando a criança atribui temporariamente uma função imaginária a algo real, como transformar uma caixa em barco, um pedaço de madeira em espada ou um bloco em cama para uma boneca.

A substituição integra uma categoria mais ampla conhecida como jogo simbólico, que também inclui interpretar personagens e imaginar situações inexistentes. Uma revisão disponível na PubMed Central explica que essas brincadeiras se tornam progressivamente mais elaboradas durante os primeiros anos, acompanhando mudanças na linguagem, atenção e compreensão social.

O experimento criou uma diferença importante entre duas situações. // Imagem ilustrativa gerada por IA para representar a situação descrita no texto; pessoas, locais e elementos visuais não correspondem necessariamente aos reais

Crianças conseguem inventar em vez de apenas imitar

Um estudo publicado no Journal of Experimental Child Psychology investigou justamente se pré-escolares simplesmente reproduziam aquilo que viam ou conseguiam inventar novas brincadeiras. No primeiro experimento, participaram 45 crianças de 3 e 4 anos, que observaram uma pesquisadora utilizando objetos de maneiras diferentes.

Os resultados mostraram que, quando entendiam que a pesquisadora estava fingindo, as crianças produziam mais substituições inéditas que não haviam sido demonstradas nem solicitadas. O trabalho de Simone Bijvoet-van den Berg e Elena Hoicka, publicado em 2019, pode ser consultado no PubMed.

Elas também percebem quando o adulto está realmente brincando

O experimento criou uma diferença importante entre duas situações. Em algumas, a pesquisadora dava sinais de que estava fazendo faz de conta; em outras, parecia estar tentando realizar uma ação real, mas de maneira inadequada. As crianças reagiram de formas diferentes aos dois contextos.

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Quando percebiam a intenção de brincar, tinham maior tendência a acompanhar a ação imaginária e criar novas possibilidades. Quando interpretavam que a adulta estava fazendo uma tentativa real, podiam corrigir o comportamento. Um segundo experimento com 34 crianças de 3 anos encontrou resultados semelhantes, reforçando que os pequenos conseguem considerar a intenção do outro.

Uma caixa simples pode oferecer várias possibilidades

Objetos domésticos sem uma função lúdica muito definida podem abrir espaço para diferentes histórias. Uma caixa, por exemplo, pode virar casa, carro, nave ou balcão de loja porque sua aparência não determina uma única brincadeira. Essa flexibilidade permite que a criança atribua significado de acordo com a situação que está imaginando.

Pesquisadores também observam que a substituição nem sempre acontece de maneira totalmente aleatória. Características como formato e possibilidade de movimento podem influenciar a escolha, já que certos objetos permitem reproduzir gestos semelhantes aos feitos com aquilo que está sendo representado. Um cabo, por exemplo, pode ser usado como microfone porque pode ser segurado de forma parecida.

Brincadeira simbólica e linguagem podem se desenvolver juntas

A capacidade de utilizar um objeto para representar outro também vem sendo estudada em relação ao desenvolvimento da linguagem. Uma pesquisa com crianças de 18 a 30 meses encontrou associação entre mudanças no reconhecimento visual de objetos, aprendizagem de nomes e o aparecimento de substituições durante as brincadeiras.

O estudo, disponível na PubMed Central, ressalta que essa relação não significa que brincar dessa maneira, isoladamente, provoque avanços linguísticos. Os autores propõem que diferentes habilidades se desenvolvem de forma relacionada, mostrando como representação, percepção e linguagem podem se conectar durante os primeiros anos.

A capacidade de utilizar um objeto para representar outro também vem sendo estudada em relação ao desenvolvimento da linguagem. // Imagem ilustrativa gerada por IA para representar a situação descrita no texto; pessoas, locais e elementos visuais não correspondem necessariamente aos reais

Inventar mais brincadeiras não significa automaticamente ser mais inteligente

Embora esse comportamento seja associado à imaginação, não é correto concluir que uma criança que transforma mais objetos seja necessariamente mais inteligente ou criativa. No estudo com crianças de 3 e 4 anos, o número de substituições inventadas não apresentou associação significativa com medidas de pensamento divergente ou controle inibitório avaliadas pelos pesquisadores.

Também não faz sentido utilizar uma única forma de brincar como teste de desenvolvimento fora de uma avaliação profissional. Crianças apresentam ritmos e interesses diferentes, e o jogo depende de fatores como idade, experiências, ambiente, oportunidades e interação com outras pessoas.

Como os adultos podem favorecer esse tipo de brincadeira

Pais e responsáveis não precisam determinar antecipadamente o que cada objeto deve representar. Oferecer materiais simples e seguros e permitir que a criança escolha o que fazer com eles pode deixar mais espaço para criação espontânea. Caixas, tecidos, potes e outros objetos adequados à idade podem ganhar funções completamente diferentes durante uma mesma brincadeira.

O principal cuidado é garantir segurança, evitando peças pequenas para crianças que ainda podem colocá-las na boca, objetos cortantes, vidro, produtos químicos ou qualquer item capaz de provocar acidentes. Quando a criança convida o adulto para participar, acompanhar a história sem controlar cada passo pode preservar justamente aquilo que as pesquisas identificam: a capacidade infantil de inventar novas possibilidades em vez de apenas repetir o que já viu.

Tags: ciênciacomportamentoinfânciapsicologia
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